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Faaliyet ve Proje Bilgileri

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B- P ERFORMANS BĠLGĠLERĠ

1. Faaliyet ve Proje Bilgileri

Neste trabalho já se mencionou exaustivamente as possíveis formas de reparação restaurativa por parte do acusado. Neste tópico abordaremos uma delas, qual seja, os grupos de homens autores de violência doméstica contra a mulher, destacando o modo como se organizam, as reuniões e a sua importância para superação do ciclo da violência, além da mudança na concepção machista ainda presente na sociedade atual. Para isso, analisaremos a experiência do primeiro grupo reflexivo para homens autores de violência doméstica contra a mulher instaurado na cidade de São Paulo, após a instalação da 1ª Vara de Violência Doméstica e Familiar, em 2009 (PRATES; ALVARENGA, 2014, p. 226).

Segundo Prates (2013, p. 33-34), a concepção dos grupos reflexivos, conforme entendimento dos facilitadores, é vista como

um modelo de intervenção grupal que tem por objetivo provocar a desconstrução e a mudança dos padrões naturalizados de gênero, violência de gênero e masculinidade. Nos grupos reflexivos espera-se, por um lado, destacar e desconstruir a ideologia patriarcal/machista e, por outro, apresentar e possibilitar a construção, individual e coletiva, de processos de socialização que têm como referência a equidade de gênero e a formação de novas masculinidades. As principais características dos grupos reflexivos são: grupos exclusivos de homens; abertos; com no máximo 15 participantes, no qual cada homem participa de no mínimo 16 encontros; entre estes homens, dois são referências na organização e coordenação e promotores da formação de vínculos, de mecanismos de identificação e da capacitação dos homens

4 DIREITO PROCESSUAL CIVIL. VIOLÊNCIA DOMÉSTICA CONTRA A MULHER. MEDIDAS PROTETIVAS DA LEI N. 11.340/2006 (LEI MARIA DA PENHA). INCIDÊNCIA NO ÂMBITO CÍVEL. NATUREZA JURÍDICA. DESNECESSIDADE DE INQUÉRITO POLICIAL, PROCESSO PENAL OU CIVIL EM CURSO. 1. As medidas protetivas previstas na Lei n. 11.340/2006, observados os requisitos específicos para a concessão de cada uma, podem ser pleiteadas de forma autônoma para fins de cessação ou de acautelamento de violência doméstica contra a mulher, independentemente da existência, presente ou potencial, de processo-crime ou ação principal contra o suposto agressor. 2. Nessa hipótese, as medidas de urgência pleiteadas terão natureza de cautelar cível satisfativa, não se exigindo instrumentalidade a outro processo cível ou criminal, haja vista que não se busca necessariamente garantir a eficácia prática da tutela principal. "O fim das medidas protetivas é proteger direitos fundamentais, evitando a continuidade da violência e das situações que a favorecem. Não são, necessariamente, preparatórias de qualquer ação judicial. Não visam processos, mas pessoas" (DIAS. Maria Berenice. A Lei Maria da Penha na justiça. 3 ed. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2012). 3. Recurso especial não provido.(STJ - REsp: 1419421 GO 2013/0355585-8, Relator: Ministro LUIS FELIPE SALOMÃO, Data de Julgamento: 11/02/2014, T4 - QUARTA TURMA, Data de Publicação: DJe 07/04/2014).

participantes em multiplicadores.

Em geral, os homens encaminhados são réus primários e são autores de crimes considerados leves, como lesão corporal leve qualificada pela violência doméstica e ameaça. Conforme exposto no item 2.3 deste capítulo, crimes desta natureza constituem a maioria dos registros de ocorrência. Ressalte-se que o grupo analisado pelas pesquisadoras era composto por sete homens que frequentaram 16 (dezesseis) encontros de forma quinzenal, entre setembro de 2009 e maio de 2010, sendo o comparecimento ao grupo uma condição para a manutenção do sursis processual (PRATES; ALVARENGA, 2014, p. 226-227).

De um modo geral, nos primeiros cinco encontros, os homens apresentam discursos de vitimização, demonstrando sentirem-se injustiçados pelas mulheres e pela própria lei. Além disso, expressam sentimentos de raiva, vingança, ódio: “J: Eu tenho nojo dessa situação. Porque essa lei que inventaram aí, pra proteger mulher…Quem vê pensa que a mulher é um bichinho inocente… Depois dessa lei que eu fui virar violento? ” (PRATES; ALVARENGA, 2014, p. 231). Ressalte-se que a noção de violência desses homens perpassa muito pela questão da violência urbana, percebe-se uma naturalização da violência doméstica, tida apenas como uma reação a um conflito ou discussão. Tais homens consideram que a violência é cometida por “bandidos” e que eles próprios não são “bandidos”, mesmo tendo cometido um ato tipificado em lei. Vejamos uma fala que caracteriza esse entendimento:

MO: Nós não somos bandidos. Ele veio com a arma, algema, nossa, parece uma operação especial sobre assalto e… ele não é especializado pra isso. Não. É uma briga de mulher. Não é policial que vai lá na favela catar bandido pra falar comigo. O homem fala comigo como se eu fosse bandido. Eu não sou bandido, não. Aconteceu um problema entre eu e a minha mulher. Vamos lá na delegacia, tem que acalmar os dois […]. (PRATES; ALVARENGA, 2014, p. 230)

Outro ponto abordado diz respeito às relações de gênero. No início dos encontros, a ideia dos papéis de homens e mulheres é bem definida e estereotipada pelos participantes, reproduzindo-se discursos pejorativos, como: “JC: Quem é que me garante que a mulher não se sujeitou a isso [condição inferiorizada] em benefício próprio?” (PRATES; ALVARENGA, 2014, p. 234).

Já do sexto ao décimo encontro, observa-se maior flexibilização dos discursos iniciais, com destaque para o reconhecimento da violência como algo relacional, no qual a situação não pode ser resolvida pelos parceiros, sendo necessário o rompimento do ciclo da violência, e ainda que as mulheres também passem por algum acompanhamento psicológico para que não se envolvam novamente em situações desse tipo. Nesse sentido, cabe destacar a seguinte fala:

JC: Mas quem sofre uma agressão não tem que passar por psicólogos? Facilitador: Você acha que tem que passar? Por quê? JC: Porque eu acho que ela também tem parte nessa violência. Ela não apanhou lá do cara, chegou de bobeira: 'Ô, você tá linda hoje!' e pralalalá. Alguma coisa vai alimentando, né? […]. D: Aí, um exemplo, a mulher fazendo um negócio desse também, a própria mulher vai começar… A semente é pequena, mas vai começar, namora com um cara que vê que o cara é zoado, que o cara não tem jeito, que é aquele cara violento por natureza, já sai fora também. Pra não chegar no casamento (PRATES; ALVARENGA, 2014, p. 233-234). No diz respeito às questões de gênero, os discursos dos participantes também se modificaram, no sentido de compreender mudança de papéis dos homens e das mulheres na sociedade atual. Vejamos algumas reflexões:

JC: Bom, nós chegamos à conclusão que não existe um biotipo certo, né? (…) Elas querem homens diferentes, mas sendo as mesmas mulheres? Facilitador: (…) É contraditório pra todo mundo, tanto pra gente, como pra elas. (…) a mulher tá fazendo um monte de coisa, diferente do que fizeram até as mães da gente. (…) Ela mudou e a gente também (…) e a gente não tá percebendo algumas coisas que tão mudando (…) e aí elas tão brigando mais. JC: Porque ninguém foi educado dessa forma, né. Facilitador: Exatamente. (…) O que a gente tenta fazer aqui não é mudar a cabeça de ninguém, mas é, pelo menos, a gente perceber que a coisa tá diferente. Não dá pra gente cobrar, às vezes, da mulher ou da gente a mesma coisa que foi com os pais da gente. A gente agora tá vivendo um outro momento. JM: Tá tudo mudado agora. Não é que nem antes (PRATES; ALVARENGA, 2014, p. 235).

Ao final, entre o 11º e 16º, é possível observar uma nova emergência de ideias a respeito das temáticas discutidas. Além disso, os participantes se mostraram satisfeitos com os encontros e pretendem levar para a vida cotidiana o que foi discutido:

JC: (...) A hora que acabar a minha [participação obrigatória] eu vou vir num dia aqui 'Opa, beleza? Esse aqui é o JC que não é mais obrigado, mas tá vindo'. Porque é interessante. (…). Faz diferença porque qualquer coisa que a gente discute lá na minha loja, na oficina, com um cliente, alguma coisa (…) eu tô sempre pensando nesses assuntos daqui. (PRATES; ALVARENGA, 2014, p. 240)

Diante desses discursos percebemos a modificação das visões dos participantes a respeito da violência, de questões de gênero. E ainda mais importante é que os encontros têm um papel marcante, pois as discussões e reflexões lá realizadas imprimem uma nova visão ao homem. Entre os benefícios percebidos e enumerados pelos próprios participantes estão: “ampliar suas visões de mundo, seus horizontes; perceber a importância do 'pensar antes de agir'; evitar que conflitos evoluam para agressões; entender que homens e mulheres são sujeitos de direitos e deveres (cidadania); ampliar o diálogo com as novas companheiras” (PRATES; ALVARENGA, 2014, p. 241)

Posto isso, demonstramos como é o processo de um dos possíveis encaminhamentos após um processo restaurativo. Com essa pesquisa é possível observar que

essa alternativa é mais eficaz do que o cárcere, por exemplo, pois ela amplia o espectro de resposta aos casos de violência doméstica contra a mulher. Nos dizeres de um dos participantes: “MO: Aconteceu de eu discutir também durante, vamos supor, teve semana passada que eu discuti e tal. Sempre lembro daqui. Então, nós tamos vindo aqui, tem benefício, agora ir lá assinar no Fórum não tem benefício nenhum” (PRATES; ALVARENGA, 2014, p. 240).

5 CONCLUSÃO

Diante da pouca eficácia do atual sistema de justiça em coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher, a justiça restaurativa apresenta-se como uma via alternativa ao sistema retributivo. Restou demonstrado que seus preceitos se coadunam com a natureza relacional desses crimes e, em tese, podem ser exitosos na coerção e posteriormente na diminuição dos índices dessa forma de violência.

A vedação presente no art. 41 da Lei Maria da Penha, na época da publicação, foi importante para conter a banalização da violência doméstica perpetuada pela má aplicação da Lei 9.099/95. Porém, tal vedação acabou por desestimular a implementação de programas alternativos, como no caso narrado no item 3.3, em que DEAM de Aracaju/SE extinguiu o programa de mediação após a publicação da Lei 11.340/06.

No fim, a declaração de constitucionalidade do referido artigo não foi benéfica para o combate a violência doméstica contra a mulher, pois restringiu o caso ao âmbito penal, que como é sabido, é repleto de falhas, sendo um caminho muito mais longo e árduo para a vítima, que ao final pode não obter o resultado desejado.

Porém, a implementação do modelo restaurativo proposto deve ser pensada a longo prazo, já que as experiências nesse sentido são escassas em território nacional, sendo necessários estudos prévios, implementação de projetos-pilotos, aferição da satisfação das vítimas e dos ofensores em participar dessa experiência. Além disso, a difusão da justiça restaurativa entre a população é primordial para o sucesso desse novo paradigma, esclarecendo para o público os preceitos inerentes a esta, para que as pessoas compreendam a importância e as finalidades de um processo restaurativo. Ressalte-se também a disposição do poder público em implementar a prática, fornecendo recursos pessoais, financeiros e estruturais. Sem a devida estruturação, a justiça restaurativa pode padecer dos mesmos males que sofre a atual rede de atendimento à mulher: falta de estrutura física para um acolhimento adequado e despreparo dos operadores do direito em lidar com esse tipo de caso.

9.099/95 utiliza-se de institutos despenalizadores.. Mais recentemente, foi sancionada a Lei nº 13.140/15, a chamada Lei da Mediação, que de forma contundente busca implementar soluções restaurativas, tanto no âmbito penal quanto cível, regularizando a profissão do mediador e propondo uma aproximação do Poder Judiciário com a comunidade.

Diante disso, conclui-se que a justiça restaurativa, teoricamente, pode ser utilizada nos casos de violência doméstica contra a mulher, cabendo a vítima participar ou não de um processo dessa natureza. Busca-se aliar esse novo método às conquistas já obtidas com Lei Maria da Penha, sem preterir a utilização desta, buscando diminuir os números dessa forma de violência que atinge mulheres de todas as etnias, credos e classes sociais, possibilitando-as uma vida digna e livre de violência.

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