• Sonuç bulunamadı

II. KURAMSAL ÇERÇEVE VE ĠLGĠLĠ ÇALIġMALAR

2.5. Proje Döngüsü Yönetimi

2.5.8. Proje Aşamaları

2.5.8.6. Faaliyet Planı

Andar pelo mundo carregando consigo a totalidade de seus parentes requer a capacidade de convencê-los de que aquilo que se está por começar representa, de fato, uma alternativa de vida melhor. Mesmo que a caminhada tenha sido motivada por avisos sobrenaturais, deixar para trás a antiga vida, por mais dura que fosse, para percorrer estradas, campos e cidades, sob a expectativa de uma possível área a ser encontrada, envolve uma capacidade de convencimento submetida diretamente ao prestígio que a figura que deflagra a migração possui. Como dito anteriormente, o casal que parte de Kaite em direção ao sul do Estado contava apenas com a companhia dos filhos e da família de um dos irmãos do marido. Somente após assentados na área por eles conquistada é que o restante da família, seus pais e irmãos, juntam-se a eles. A nova aldeia conta, desde cedo, com uma escola e com uma associação que garantem melhores oportunidades de acesso às condições materiais que necessitam. Quando uma das irmãs de minha interlocutora morreu, deixando seu marido e os

9 De um modo geral cabe ao xamã – a partir de seu canal de acesso as palavras divinas – definir os rumos da

caminhada. Não havendo tal figura no âmbito do grupo em deslocamento (minha interlocutora vive um processo de desenvolvimento de suas potencias xamanicas) coube ao líder político do grupo a decisão acerca do rumo a ser tomado.

filhos pequenos, a avó logo pediu para mudar-se para a Estiva, pois lá existiam melhores condições para criar os netos. As conquistas do cacique, auxiliado por seus aliados brancos (o funcionário municipal que indicou a área e mediou sua liberação junto à Prefeitura e a diretora, incansável na luta pela implementação da escola) promovem a transformação de seu prestígio tonando-o capaz de atrair o restante de sua família. Neste sentido, a compreensão do modo como estas famílias se organizam viabiliza uma melhor visualização do significado de mudanças desta natureza.

A família extensa, composta pelo conjunto de famílias nucleares que mais comumente dão forma a uma aldeia, consiste na base de sustentação daquele modo de vida religioso- econômico-social chamado Teko. Quando se fala em família extensa se faz referência (no caso dos Guaranis) a um grupo de pessoas ligadas por laços sanguíneos ou de afinidade a figura de um líder de prestígio, o chefe da família. Pode-se dizer, deste modo, que a importância de um chefe de família se torna evidente por sua capacidade de manter ligados a si o maior número de parentes possíveis. De um modo geral, as regras de filiação e residência das populações indígenas explicam estas relações que se dão pela definição dos sentidos da linearidade (matrilinear ou patrilinear) e da localidade (matrilocal ou patrilocal), o que parece não se adequar ao modo organizacional dos Guaranis. Soares (1997) afirma que entre eles a linearidade é marcada pela indiferenciação, ou seja, a filiação varia de acordo com o prestígio da família do pai e da mãe. O mesmo pode ser dito em relação à localidade; o prestígio do sogro ou do genro determinará a residência posterior da nora-esposa. Soares (1997) esclarece o significado da regra Guarani:

[...] a localidade vista até aqui consegue explicar as mudanças de pessoas dentro de uma aldeia ou de um território, Tekoá. O prestígio que determina a localidade é o mesmo que determina a ausência de linearidade, ou linearidade indiferencianda. Uma vez que as chefias são dadas pelo prestígio, e este é adquirido em vida, sem hereditariedade, não pode existir linha de descendência nobre ou local especial para a residência pós-marital. O prestígio é um ideal que é perseguido e pode ser demonstrado por todos os componentes da organização social (SOARES, 1997, p.83).

Podemos com isso concluir que a indiferenciação quanto a linearidade e a localidade põe em evidencia o problema do prestígio. Se, como foi visto, caminhar é a própria metáfora da vida para o Guarani, mudar parece ser algo previsto em seu horizonte. Pissolato (2007) diz que perguntar a qualquer Mbyá sobre a sua vida implica, necessariamente, em ouvir sobre

suas mudanças e que muitos comentam sua própria trajetória como um “não parar”. Deste modo, este andar que remete à possibilidade ou à necessidade de deixar para trás alguns para acompanhar a outros, está ligado à capacidade pessoal de avaliação da condição de sua vida. Se a pessoa não está feliz com os atuais parentes é preciso procurar parentes novos. Contudo, é necessário que nhanderu (deus) ponha caminho (nhanderu omoe tape), como dizem os Guaranis (PISSOLATO, 2007). Isso significa que para andar é preciso um sinal de que existam condições efetivas que garantam a caminhada pois ela não está vinculada ao simples desejo de partir. O insucesso de uma empreitada deste tipo significa, acima de tudo, a imperícia daqueles que a deflagraram perante os avisos e sinais divinos. Significa a incapacidade de compreensão acerca daquilo que os deuses desejam e, neste sentido, marca aqueles que falharam pela falta da condição de liderança. Tudo consiste em saber ouvir.

Os casos de sucesso, como o dos fundadores da Estiva, ao contrário, definem positivamente a condição daqueles que se puseram em marcha. A conquista de uma nova área, assim como a capacidade de estabelecer alianças favoráveis quanto à obtenção de condições melhores de vida, marcam suas lideranças quanto à capacidade de proporcionar a sua família uma vida de virtudes. O sucesso do oguatá (caminhada) significa o amadurecimento espiritual daqueles que seguiram de modo correto as palavras de seus protetores e os coloca perante aos demais como alguém a ser seguido em sua busca pelo fortalecimento do espírito. Como visto, foram as condições favoráveis encontradas pelos moradores que partiram em oguatá desde Kaite que mobilizaram o restante da família a se deslocar. O prestígio do cacique e da líder espiritual define, deste modo, a vida na nova morada.

Pode-se afirmar que um lugar, uma tekoa (local onde se vive o modo de ser dos guaranis), se define pela presença de seu líder, assumindo feições particulares que remetem, frequentemente, ao modo de ser do próprio líder. A caminhada individual de cada um influencia, ou mesmo condiciona, a forma organizacional das comunidades a partir das relações e experiências que estabelecem ao longo da vida. Assim, cada comunidade, cada família extensa, assumem características próprias vinculadas à figura de suas lideranças. Benites (2012), dissertando acerca dos Avá-Kaiowá (Guaranis) diz o seguinte:

[...] no tocante ao modo de ser e ao estilo comportamental (teko laja) de cada família Kaiowá, é possível considerar que a vida contemporânea diferenciada desses indígenas se encontra em processo de construção sempre inacabada [...], expressada através da contribuição de vários pontos de vista,

fruto de experiências diversificadas, e a partir de contextos históricos determinados (BENITES, 2012, p.22).

Não obstante, a base de organização sócio-econômica de cada família extensa se constitui de modo diferenciado, sobretudo a partir das relações que estabelecem com os não- índios (aliados, ONG‟s, instituições governamentais). Frente às contingencias históricas de cada localidade, elas assumem estratégias particulares de relações com estes agentes externos. A flexibilização de suas formas organizacionais resultam em estilos comportamentais distintos determinados pelo tipo de estratégia adotada, estando estas estratégias diretamente ligadas ao modo de ser de suas lideranças.

Pissolato (2007) afirma que a imagem do grupo e de seu líder ganham força no jogo político travado entre as comunidades e suas lideranças, que buscam a legitimação de suas particularidades em relação umas as outras. É o caso das críticas ao modelo de escola defendido pelos moradores da Estiva. Segundo os líderes das demais comunidades seria ele um agente da dissolução do modo de viver dos Mbyá. A acusação assume, certamente, um caráter legitimador do próprio modo de ser da comunidade e lideranças que criticam. Certa vez conversava com minha interlocutora sobre sua viagem a uma aldeia no centro do Estado do RS sobre a qual ela afirmava terem perdido sua cultura. Neste caso, os membros da comunidade haviam se convertido por influência dos crentes evangélicos que a frequentavam, em devotos fervorosos. Decepcionada ela comentava que “lá é só aleluia!” Contudo, ainda que assumam certo ar crítico acerca do modo de viver de algumas das localidades vizinhas, não deixam de agruparem-se na luta pela conquista de seus direitos. Benites (2012) afirma que, de acordo com as situações históricas que vivenciam cada uma destas comunidades, elas aperfeiçoam suas estratégias produzindo, cada uma, um modo peculiar de viver o teko. Acima de tudo, salienta o autor, este modo múltiplo continua sendo um nande reko (nosso modo de ser) em contraposição ao modo de ser do branco.

Ao observar a vida na aldeia da Estiva e a centralidade relativa que a escola assume nela, percebe-se logo a influência da figura do cacique fundador quanto ao modo da comunidade viver o teko. O sonho do antigo cacique de garantir o acesso da comunidade a uma educação das coisas do branco protegida pela proximidade da Opy, base fundamental do modo de ser dos Guaranis, se revela como sua estratégia de viabilização das condições existenciais que permitem o fortalecimento espiritual de sua gente. Estratégia que se mantém mesmo após sua morte, alguns anos atrás, demonstrando que suas convicções foram

profundamente incorporadas pela comunidade. Seu filho, atual líder da aldeia, assumiu cumulativamente a função de cacique e de professor, seguindo à risca as orientações de seu pai acerca da escola e da vida na aldeia. Na escola ele ainda conta com o auxílio importante da diretora, aliada antiga escolhida para o cargo pelo próprio fundador da comunidade após um período de “preparação”. “Fiquei surpresa quando ele mandou me chamar e disse que

queria que eu assumisse a escola”, me confidenciou a diretora. Esposa do amigo que tinha

feito à beira da estrada, aquele mesmo que o auxiliara na intermediação da concessão da área da aldeia, ela foi doutrinada pelo cacique no que diz respeito ao modelo de escola a ser adotado na localidade. Falar com ela sobre a escola foi um modo de ter acesso, ainda que de maneira indireta, às ideias que o antigo cacique fundador da aldeia tinha sobre o ensino escolar dos guaranis. Prestes a se aposentar, ela demonstra preocupação com quem assumirá seu cargo no futuro. “Não pode ser qualquer um”, diz ela, “precisamos achar a pessoa certa

e prepará-la para assumir a escola”.

Os fatos demonstram a importância da escola e como ela se insere como possibilidade para os Guaranis da Estiva. Acima de tudo, mostram como a partir dela se constrói a figura do grande líder cuja presença supera a própria morte. Em certo sentido é ele ainda quem coordena a vida na aldeia, seja através de seus filhos, de seu irmão – professor e cofundador da escola -, ou da própria diretora, sua grande aliada. A escola fornece aos moradores da aldeia o acesso às condições materiais que garantem sua sobrevivência. Nela assumem cargos – professores, merendeira, auxiliares, faxineiras -, e aprendem as coisas do mundo dos brancos, sua papelada (burocracia) como dizem, suas leis e seu modo de pensar, instrumentos que lhes instruem sobre o melhor modo de lutar por seus direitos. Ainda, a partir dela, retomam velhas práticas, como o coral, o artesanato, a cerâmica, assim como as coisas de sua religião.

Visto como os Mbyá da Estiva caminharam até a escola, resta agora retomar como ela caminha até eles, isto é, entender este movimento dos moradores da Estiva a partir de uma visão mais ampla sobre a luta indígena por escolas.

Benzer Belgeler