Inicialmente, realizaram-se correlações de Pearson com objetivo de observar as relações entre as variáveis propostas pela terceira e quarta etapa do modelo da coerção (Hipótese 1, 2 e 5). Nesse momento, ainda que não se constitua uma hipótese prévia e considerando que o Modelo da Coerção tem como base a família (PATTERSON; DEBARYSHE; RAMSEY, 1989; PACHECO et al, 2005), também foi avaliado o índice total dos estilos parentais. Os resultados podem ser visualizados na tabela 4.
Tabela 4-Correlação entre Desempenho Acadêmico, Rejeição Social, Problemas de Conduta, Estilos Parentais, Grupos Desviante e Comportamentos Socialmente Desviantes (n=102)
1 2 3 4 5
1. Rejeição Social 1 0,01 -0,04 -0,14 -0,18
2. Desempenho Acadêmico 1 -0,04 -0,15 -0,20
3. Índice Total dos Estilos Parentais 1 -0,32** -0,14
4.Associação com grupos desviantes 1 0,52*
5. Comportamentos Socialmente Desviantes 1
Notas *p<0,001; **p<0,01; ***p<0,05 (teste uni-caudal; eliminação por pares de itens em branco).
No que se refere à Etapa 3, como se pode observar na tabela 4, os resultados encontrados apontaram que a rejeição social e o desempenho acadêmico não apresentaram correlações significativas com a associação com grupos desviantes (p>0,05), o que não corroborou a Hipótese 1 e 2. Paralelo a isso, observou-se que o índice de estilos parentais apresentou correlação negativa e significativa com a associação com grupos desviantes (r=- 0,32; p<0,01).
Em relação à Etapa 4, observou-se que a associação com grupos desviantes apresentou correlação positiva e significativa (r=0,52; p<0,001) com os comportamentos socialmente desviantes (Hipótese 5) e nenhuma correlação significativa com as demais variáveis. Frente a isso, prosseguiu-se nas análises, para se conhecer o poder preditivo de cada uma das variáveis propostas nas duas últimas fases do Modelo da Coerção.
7.2.2 Variáveis explicativas da Associação com Grupos Desviantes e dos Comportamentos Socialmente Desviantes
Tendo em vista a refutação das hipóteses 1 e 2, a hipótese 3 e 4 não puderam ser testadas, pois a existência de correlação entre as variáveis antecedentes e a variável critério é um pressuposto para a realização de uma análise de regressão (HAIR et al, 2009). Desse modo, os resultados encontrados não permitiram a testagem da terceira fase do Modelo da Coerção.
Adicionalmente, embora não se configurasse como uma hipótese prévia e tendo em vista os resultados das correlações (tabela 4), buscou-se avaliar o poder preditivo do índice de estilos parentais em relação à associação com grupos desviantes. Os resultados apontaram que o índice total dos estilos parentais isoladamente explicou negativamente 10,7% da variância
total (R²=0,107) da associação com grupos desviantes (F [1,91] = 10,849, p < 0,05; R = 0,33, R2ajustado = 0,10; β =- 0,33; p < 0,05). Em seguida, procurando conhecer as contribuições de cada um dos estilos parentais, segundo proposto por Gomide (2011), realizou-se uma análise de regressão múltipla (método stepwise) com o objetivo de verificar os estilos parentais que apresentaram maior contribuição na explicação na associação com grupos desviantes. Os resultados podem ser visualizados na Tabela 5.
Tabela 5 -Estilos Parentais como preditores da Associação com Grupos Desviantes
Preditores R2mudança β t F mudança
Associação com grupos desviantes R2 = 0,1603; R2Ajustado = 0,137 Punição Inconsistente 0,069 0,18 1,79* 7,27** Comportamento moral 0,038 -0,32 -3,16** 5,80** Monitoria Negativa 0,056 0,28 0,28* 6,24* Nota:***p<0,001;** p<0,01; *p<0,05
Dos estilos parentais apontados como antecedentes (monitoria positiva, comportamento moral, abuso físico, punição inconsistente, negligência, monitoria negativa), apenas punição inconsistente, comportamento moral e monitoria negativa fizeram parte da equação de regressão. Como se pode observar, as três variáveis explicaram (R²=0,1603) conjuntamente 16% da variância total (F [3,96] = 6,243, p < 0,05; R múltiplo = 0,404, R2ajustado = 0,137) da associação com grupos desviantes.
Os valores de Beta (β) apontaram que as variáveis punição inconsistente (β = 0,18; p < 0,05) e monitoria negativa (β = 0,28; p < 0,05) apresentaram uma relação direta e significativa com a variável critério (associação com grupos desviantes), enquanto a variável comportamento moral apresentou uma relação inversa e significativa (β = -0,32; p < 0,05). De acordo com estes resultados, supõe-se que os sujeitos com maiores pontuações no estilo punição inconsistente e monitoria negativa e com baixas pontuações no estilo comportamento moral apresentam maiores pontuações no envolvimento com grupos desviantes. Os demais fatores foram retirados do modelo por não explicar satisfatoriamente a associação com grupos desviantes na terceira fase do Modelo da Coerção.
Finalmente, buscando analisar o poder explicativo da associação com grupos desviantes em relação aos comportamentos socialmente desviantes (Hipótese 6), última fase
do modelo da coerção, procedeu-se uma análise de regressão simples. Os resultados indicaram que a associação com grupos desviantes explicou 27,2% (R2 = 0,272) da variância total de comportamentos socialmente desviantes (F [1,85] = 31,826, p < 0,001; R = 0,52, R2ajustado = 0,264) e apresentaram uma relação direta e significativa com essa variável (β = 0,52; p < 0,001).
7.3 Discussão
O Modelo da Coerção se divide em quatro fases, sendo que as duas primeiras fases foram testadas nos estudos anteriores, portanto, nesse mesmo estudo, optou-se por testar as duas últimas fases. Para tal fim, decidiu-se por considerar dois conjuntos de hipóteses com o intuito de se obter informações específicas acerca de cada fase, conforme divisão do modelo (PATTERSON; DEBARYSHE; RAMSEY, 1989). Recomenda-se, em estudos posteriores, cujo foco não seja o teste de cada fase, o uso de técnicas mais robustas, como é o caso das Modelagens por Equações Estruturais. No mais, apesar das limitações inerentes ao estudo, observou-se que os resultados alcançados permitiram o teste da terceira e quarta fase do Modelo da Coerção. Entretanto, algumas considerações acerca das hipóteses estabelecidas e os resultados encontrados também necessitam ser discutidos.
No que se refere às correlações apresentadas, observa-se que as variáveis relacionadas à terceira fase do modelo da coerção não apresentaram correlações significativas (Hipótese 1 e 2), o que inviabilizou o teste das hipóteses (Hipótese 3 e 4), e por conseguinte, não possibilitou a comprovação da terceira fase do modelo (ALVARENGA; PICCININI, 2007; PATTERSON; DEBARYSHE; RAMSEY, 1989; DISHION et al, 1995). Simultaneamente, observou-se que as variáveis do quarta fase (Hipótese 5) apresentam resultados coerentes com o que é proposto na literatura (BEE, 1997; BELCHIOR, 2013; PATTERSON; DISHION; YOERGER, 2000; PATTERSON; DEBARYSHE; RAMSEY, 1989; PAPALIA; OLDS; FELDMAN, 2000), apontando que o envolvimento com grupos desviantes é diretamente proporcional a adesão a comportamentos socialmente desviantes (r=0,52; p<0,001).
Adicionalmente, verificou-se a relação do índice de estilos parentais com as variáveis das duas últimas fases do Modelo da Coerção. Os resultados indicaram que o índice de estilos parentais apresentou correlação significativa (r= -0,32; p<0,01) com a “associação com grupos desviantes”, mas não com os “comportamentos socialmente desviantes” (r= -0,32; p>0,05), corroborando apenas em parte os estudos da área (BENCHAYA et al, 2011;
PACHECO, 2004; RAI et al, 2003; SOARES, 2005; WESTLING et al , 2013). Em relação a tais resultados, destaca-se que o cálculo do índice de estilos parentais pode ser inflacionado pelo peso de alguns estilos, portanto, sugere-se a possibilidade de se verificar a associação de cada um dos estilos parentais com os comportamentos socialmente desviantes e, a partir disso, efetuar o teste do modelo, controlando, por exemplo, o efeito da associação com grupos desviantes (PACHECO, 2004; BENCHAYA et al, 2011; GOMES, 2013; WESTLING et al, 2013)
Em relação à etapa 3, de acordo com o modelo da Coerção, a criança socialmente rejeitada e com baixo desempenho acadêmico tem mais probabilidade de se envolver com pares que apresentem condutas desviantes (PATTERSON; DEBARYSHE; RAMSEY, 1989). No entanto, como já dito, os resultados encontrados não apoiaram comprovação do modelo para essa fase, provavelmente devido à pertinência que outras variáveis tenham quando comparadas as que originalmente são sugeridas como antecedentes (rejeição e desempenho acadêmico). Desse modo, pode-se hipotetizar que, nessa amostra, o baixo desempenho acadêmico e a rejeição social não foram requisitos para a associação com grupos desviantes, contrariando o que se tem proposto na literatura (ALVARENGA; PICCININI, 2007; PATTERSON; DEBARYSHE; RAMSEY, 1989; DISHION et al, 1995). Recomenda-se a replicabilidade do presente estudo com o objetivo de se dirimir possíveis dúvidas.
Ainda acerca das variáveis familiares, sabe-se que, embora a fase 3 não mencione os estilos parentais como centrais, os resultados encontrados permitiram inferir que o índice de estilos parentais, em detrimento às outras variáveis típicas da fase (desempenho acadêmico e rejeição social), explicou a associação com grupos desviantes, o que indica a relevância da variável mesmo em etapas finais do modelo (FOSCO et al, 2012; GRANIC; PATTERSON, 2006; SUSSMAN, et al, 2008). Em acréscimo, observou-se que os estilos punição inconsistente, comportamento moral e disciplina relaxada juntos explicaram 16,2% da variância da associação com grupos desviantes. Desse modo, pode-se apontar que, as relações positivas na família, o suporte emocional e social dos pais e um estilo de disciplina parental construtivo e consistente, tendem a estar associados com um menor envolvimento em comportamentos de risco e em grupos de pares desviantes (PADILLA-WALKER; BEAN; HSIEH, 2011; PEREIRA; MATOS, 2008).
Por fim, no que se refere à etapa 4, aponta-se que os resultados encontrados permitiram comprovar a quarta etapa do modelo da Coerção. De acordo com a literatura, o adolescente envolvido em grupos desviantes tem maiores riscos de se envolver em condutas desviantes (DISHION; HÁ; VÉRONNEAU, 2012; BELCHIOR, 2013; SANTOS, 2008).
Sabe-se, porém, que embora os resultados tenham se mostrados satisfatórios, torna-se pertinente verificar em estudos posteriores, a influência de variáveis mediadoras e moderadoras nessa relação. É possível conjecturar, por exemplo, que a relação dos estilos parentais com os comportamentos socialmente desviantes é mediada pela associação com pares desviantes. Não obstante, sugere-se a realização de análises que controlem a influência de outras variáveis cuja literatura tem indicado como pertinentes, a exemplo do compromisso religioso (LAIRD; MARKS; MARRERO, 2011) do autocontrole (GOMES, 2013; PINTO, 2012) e de variáveis familiares (PACHECO, 2004; PAIVA; RONZANI, 2009; SUSSMAN et al, 2007).