O século XX corresponde a uma fase de transição entre os exércitos profissionais, dos reis absolutos, e a nova concepção dos exércitos nacionais, semi-permanentes. O serviço militar obrigatório, aceite por todas as nações cultas e ao qual Portugal não foi excepção, determinou o aumento dos efetivos, uma organização mais cuidada e material mais potente e sofisticado (Rita, 2013).
Durante o processo de restruturação militar português, ainda durante a monarquia e na república, as atenções para as colónias, diminuiram já que o intuito era preparar Portugal para a defesa do seu território em caso de invasão provocando o negligenciamento do dispositivo militar em Angola.
Após a última campanha em 1907 contra os Cuamatos, em que os portugueses perfaziam um total de mais que 2200 homens, passaram para efetivos de cerca de 300 homens até 1914.
As reformas militares instauradas durante a república em Portugal em 1911 foram muitas apenas em papel dado que não foram instituídas em várias áreas, mostrando-se desde logo frágeis pela falta de preparação do pessoal, de armamento, material e equipamento, o que constituiu uma fraqueza em relação aos exércitos mais bem equipados, tal como o alemão.
Em 1914, quando foi necessário utilizar as FA para defender os territórios ultramarinos, estas não possuiam as minimas condições para a prossecussão dos objetivos nacionais. Não se encontravam bem organizadas, armadas e dotadas dos modernos meios de combate e o período de instrução que possuíam era insuficiente (Machado, 1956).
Ainda na metrópole a primeira preocupação do Cmdt, antes de projetar forças era possuir informações detalhadas sobre os possíveis efetivos a enfrentar, um Cmdt “... que
Capítulo 6
vence uma batalha, faz muitos cálculos no seu templo antes da batalha ser travada. O general que perde uma batalha faz poucos cálculos antecipadamente” (SunTzu, 2007, p. 70).
Já em Angola Alves Roçadas possuía informação, através do governador geral que se podia esperar na Damaralândia por 14.000 homens em armas, já para não falar do material, equipamento, além da boa instrução dos homens que se encontravam na colónia alemã. Os portugueses em dezembro em Angola eram pouco mais de 3.000 homens, de longe se podia dizer que em caso de invasão do território português pelos alemães, podíamos fazer face a uma discrepância tão grande.
No combate de Naulila, comparando as forças portuguesas com as alemãs, estas possuíam sobre nós uma pavorosa superioridade em tudo. Eram dois mil europeus, não contando com as reservas que eram 800, tinham 8 peças de tiro rápido, 16 metralhadoras, carros de munições e de material de guerra, todas puxadas a pelo menos duas parelhas. Os portugueses eram 700 europeus, tinham 3 peças de tiro rápido, 4 metralhadoras, puxadas no máximo por um muar, ao passo que carros de munições e material de guerra não tinham nenhum. As munições eram transportadas nos carros boer (Varão, 1934).
Os alemães que se encontravam em Naulila tinham todos a vantagem de 5 anos de instrução militar, sendo soldados solidamente instruídos, disciplinados e com experiência na guerra, estando igualmente muito bem fardados e alimentados. Por seu turno, os portugueses tinham 15 semanas de instrução, não tinham coesão nem disciplina e entravam pela primeira vez em fogo. O vestuário que possuíam era gasto, e os oficiais e praças já há um mês que sofriam as maiores privações, tendo experienciado várias vezes a fome (Varão, 1934).
Todos os soldados alemães eram montados, até os de Inf, estando os cavalos e mulas dos alemães bem tratados, alimentados e fortes. Em relação aos portugueses, 1/3 da Cav encontrava-se apeada e os nossos solípedes estavam quase todos incapazes de prestar serviço por fraqueza, devido à falta de ração, e prestes a morrer à fome (Varão, 1934).
Na campanha de 1915 sob o Cmd do Gen Pereira de Eça a atitude era muito positiva, não se esperava uma resistência indígena tão forte. Não se tinha tido em consideração que os índigenas iriam receber auxílio dos alemães. Era obvio já que a terra cuanhama se estendia para Sul, através da zona neutra, até à Damaralândia.
O que faltava aos indígenas em questão de armamento e equipamento, era recompensado pela sua superioridade tremenda. Nos combates de Môngua a relação de efetivos chegou a ser 50.000 indígenas para 2750 homens pertencentes ao Dest do Cuanhama.
Pode-se de longe identificar que a vitória portuguesa em 1915 o que se deve à superioridade técnica do material e uma superioridade profissional do pessoal que compensou a inferioridade dos efetivos (Pélissier, 1986).
Do que podemos observar os efetivos portugueses evoluíram durante as duas campanhas. Em 1914 atingiam um pouco mais de 3000 homens e face à ameaça efetiva dos alemães e à sublevação do povo indígena, os aumentos dos efetivos em 1915 chegavam a 9000 homens.
Analisando de uma forma mais particular as duas campanhas, as unidades de Met são as que sofrem um maior aumento, na ordem dos 1000%, em seguida da Art com 400%, a Inf com 267% e por fim a Cav com 200%. Consegue-se identificar aqui, a importãncia dada ao poder de fogo, das Met e da Art, em detrimento das guerras travadas com massa de infantaria. Seria uma previsão daquela que seria a transformação do modo de fazer a guerra. A guerra de movimento64 iria dar lugar à guerra de posições65, onde a posse de terreno e o
poder de fogo constituía-se como a maior preocupação.
O incremento de poder de fogo, por ação das armas de tiro rápido especialmente a metralhadora, pelo aperfeiçoamento da artilharia e da precisão dos seus fogos ia atribuir uma maior preocupação à ocupação e preparação do terreno. A organização das forças na 2ª campanha em Angola antecipou a tendência dos exércitos de constituir unidades só de metralhadoras, em apoio de grandes unidades de combate (Beça, 1922) e (Afonso, 2008).