Já foi visto que os valores fazem parte da vida das pessoas e que a todo momento valoramos as coisas, as situações, outras pessoas, muitas vezes sem nem mesmo ter consciência disso. Fixou-se também o entendimento de que o direito é um objeto
97 PISCITELLI, Tathiane dos Santos. Os limites à interpretação das normas tributárias. São Paulo: Quartier
cultural e, portanto, impregnado de valores. Entretanto, os valores não existem per si, há que existir sempre a figura do homem para atribuir qualidades aos objetos.
Vários autores já propuseram uma classificação para os valores. A própria idéia de classificar já sugere a existência de mais de um elemento ou espécie de valor (com exceção do conjunto vazio que não contém nenhum elemento). Será visto que é possível admitir várias espécies de valores e é o predicado sob a qual recai a classe que define se determinado valor se encaixa em uma ou outra classe.
Classificar nada mais é do que agrupar elementos que correspondem a um critério unificador. Assim, classe é um conjunto de elementos que se encontram reunidos em grupos, em razão de uma relação de pertinência entre o elemento (ou elementos) e a classe a qual o elemento faz parte. A parte da lógica que analisa o conceito de classe e suas propriedades gerais é a teoria das classes ou teoria dos conjuntos.
Diante da dificuldade de definir o conceito de “conjunto”, CEZAR MORTARI98 salienta que “a idéia básica é de que conjuntos são coleções de objetos (outros termos usados são ‘classe’, ‘agregado’ e ‘totalidade’)”. Mais adiante complementa:
“Essa idéia intuitiva, contudo, deixa claro que conjuntos são formados por objetos, os quais designamos pela expressão elementos. Entre esses elementos, podemos ter também outros conjuntos. Para indicar que um objeto é um elemento de um conjunto, vamos utilizar o símbolo ∈. Assim, se a letra F designa o conjunto dos filósofos, e a letra s denota Sócrates, podemos representar a sentença ‘Sócrates é um filósofo’ da seguinte forma: s ∈ F”.
Classes de primeira ordem são classes formadas por indivíduos, considerados objetos individuais. Classes de segunda ordem são classes constituídas de classes de primeira ordem. E assim é possível considerar classes de terceira, quarta ordem etc.
98 MORTARI, Cezar. Introdução à lógica. São Paulo: COMPED: INEP: Imprensa Oficial: UNESP, 2001, p.
Há também a classe universal que é a classe que contém todos os indivíduos como elementos e a classe vazia (ou nula) que é aquela que não contém nenhum elemento. A classe unitária é formada por apenas um elemento. Subclasse é a classe que está incluída em outra, ou seja, todos seus elementos são também elementos de outra classe, a qual lhe engloba. O conjunto vazio, portanto, é subconjunto de todos os conjuntos.
Entre duas classes quaisquer podem existir diversas relações. Assim, se todo elementos da classe K é ao mesmo tempo elemento da classe L, então a classe K é uma subclasse da classe L, ou está incluída na classe L, ou ainda tem relação de inclusão com a classe L. A inclusão é relação entre classes e não entre elemento e classe, que é relação de pertinência.
A relação de subclasse indica a contingência de todos os elementos de uma classe pertencerem também à outra. São dois os tipos de subclasse: identidade e subclasse própria (ou inclusão). Na identidade, a relação de inclusão é recíproca, ou seja, todos os elementos da classe K são elementos da classe L. Já na subclasse própria tal não ocorre, pois todos os elementos da classe K são elementos da classe L, mas nem todo elemento da classe L é elemento da classe K.
Há intersecção quando duas classes têm pelo menos um elemento em comum e ao mesmo tempo, cada classe contiver elementos não contidos na outra. Duas classes não vazias que não se interseccionam são disjuntas ou mutuamente excludentes.
Sobre a classificação dos valores, HESSEN parte fundamentalmente de dois pontos de vista: um formal e outro material99. Do ponto de vista formal, os valores são classificados em positivos ou negativos. O valor positivo é aquele designado simplesmente como “valor”. O contraponto do valor positivo é o valor negativo, ou simplesmente “desvalor”. Segundo as premissas estabelecidas, a segurança jurídica seria um valor positivo ou simplesmente um “valor”.
99 HESSEN, Johannes. Filosofia dos valores. Trad. de L. Cabral de Moncada. Coimbra: Almedina, 2001, p.
Ainda seguindo a classificação de HESSEN, a classe dos valores formais tem como subclasses valores das pessoas e das coisas, ou valores pessoais e reais. Os valores das pessoas ou pessoais são aqueles que, como o próprio nome sugere só podem pertencer às pessoas, como é o caso dos valores éticos. Já os valores reais são aqueles que podem ser atribuídos a coisas ou objetos.
Os valores formais são classificados também como valores em si mesmos ou autônomos e valores derivados de outros ou dependentes. Os valores em si mesmos são aqueles que não dependem de outros valores, ou seja, não são meios para eles, pois são independentes de outros valores. Os valores derivados, de outro lado, são aqueles que são referidos a outros valores, estes últimos considerados como valores em si mesmos. Os derivados são considerados como os valores meio para um fim valioso.
Considerando o ponto de vista formal de classificação, a segurança jurídica não é um valor derivado de outros valores, pois não é um meio para um fim valioso. A segurança jurídica é o próprio fim, portanto, nesse sentido, pode ser considerado como um valor em si mesmo ou autônomo. Salienta-se apenas que essa autonomia é relativa, pois conforme visto, o valor não prescinde de um objeto para se realizar.
Do ponto de vista material, a classificação é propriamente das espécies dos valores e não dos valores em si mesmos e leva em consideração a figura do homem (todos os valores se acham referidos a um sujeito). A classe que se refere ao homem enquanto ser da Natureza tem como subclasses: valores sensíveis, valores vitais e valores de utilidade.
Dentro da subclasse dos valores sensíveis estão os valores do agradável e do prazer, ou seja, pertencem a esse conjunto tudo aquilo que pode proporcionar satisfação ou prazer (comida, bebida etc.). Pertencem à classe dos valores vitais todos os valores que se referem à vida, como a força, saúde, etc. Os valores de utilidade coincidem com os valores econômicos (vestuário, habitação etc.)100.
100 Segundo SCHELER, dentre os valores essenciais, o valor vital é preferível ao valor da utilidade.
Entretanto, ressalva que os valores de primeira linha só são vivenciáveis quando valores de segunda linha estão presentes: “um valor de utilidade qualquer é um valor para uma essência vital”. Da reviravolta dos valores. Trad. de Marco Antônio dos Santos Casa Nova. Petrópolis: Vozes, 1994, p. 159.
Pertencem à classe dos valores espirituais, os valores lógicos, os valores éticos e os valores estéticos101
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Os valores espirituais se diferenciam dos valores sensíveis não apenas pela imaterialidade, mas pela validade condicional. Quanto aos valores lógicos, suas proposições são submetidas às valências verdadeiro ou falso, logo se a proposição for verdadeira, então os valores lógicos são positivos, mas se a proposição for falsa, então os valores lógicos são negativos. Os valores éticos ou do bem moral têm, dentre outras características, só serem portadores as pessoas, ou seja, só os seres espirituais podem realizar valores morais. Por último, os valores estéticos ou do Belo, que ao contrário dos valores éticos, o belo não é atribuído apenas a pessoas, mas também a coisas. Assim, não apenas os seres espirituais podem realizar o valor estético, mas qualquer objeto.