A primeira luta que ocorre neste Conjunto, inicialmente, denominado “Novo Lagamar”, desenvolve-se mesmo no sentido da permanência dos “invasores” no local , conforme mencionamos na secção anterior.
A Associação dos moradores do novo Lagamar foi criada em 17 de Dezembro de 1983, após ter sido assegurado a permanência no conjunto de 572 famílias e a remoção de 188 famílias para um terreno no Jangurussu.
Logo em junho de 1984, esta associação enfrenta uma outra luta contra o aumento exorbitante das prestações de suas casas. È organizada uma passeata programada pelos moradores para sair do conjunto até a Sede do BNH.
A passeata programada pelos moradores do Lagamar Novo até a sede do BNH, onde iriam entregar os carnês de pagamento de suas casas ontem pela manhã, ontem foi impedida de se realizar por um batalhão de choque da polícia militar , que fechou as duas saídas do conjunto e lá permaneceu durante o dia inteiro. (...) por volta das onze horas , é que o presidente da federação de Bairros e favelas , Inácio Arruda, conseguiu sair com uma comissão até o BNH. (O Povo – 08.06.84 p. 10)
Foi uma luta que apesar de envolver conflitos diretos com o Estado, os moradores conseguiram sair vitoriosos no que tange ao não pagamento do aumento dirigido pelo BNH.
Há outras reivindicações dos moradores do Conjunto Novo Lagamar que foram atendidas, através do trabalho da Associação dos moradores,como:
- Mudança do nome de “ Novo Lagamar” para “Tancredo Neves” - Abastecimento d’água (CAGECE)
- Limpeza pública (SUMOV)
- Transporte coletivo com circulação dentro do Conjunto,
- Construção de mais casas dentro do Conjunto, parte esta denominada “Tasso Jereissati".
O atendimento das reivindicações acima mencionadas, embora apareçam como vitória da luta dos moradores do Conjunto Tancredo Neves, elas representam o resultado do trabalho de grupos diferenciados dentro do conjunto.
Logo que é eleita em dezembro de 1983, a primeira Diretoria da Associação dos Moradores, iniciam-se as primeiras divergências entre os seus participantes.
Segue em anexo dois documentos de membros da Associação dos moradores denunciando a Presidente desta entidade de cometer várias agressões e praticar irregularidades.
As irregularidades foram apontadas em um documento escrito em Março de 84, logo no momento de sua posse e versa sobre aspectos que dizem respeito a tomadas de decisões sem aprovação de voto dos outros membros da diretoria.
Em agosto/84 as fissuras no seio desta Associação redundam, em debates mais diretos, culminando com agressões físicas.
“Também foi agredido pela presidente, Francisco de Assis de Sousa. Tudo começou quando as propostas que vieram para serem discutidas dentro da diretoria para serem definidas, não foram definidas. A presidente então começou a discutir com o presidente do conselho fiscal – Francisco Sousa Silva. Então o Presidente achou por bem não discutir com a presidente e saiu. A presidente então começou a discutir com o 2º Tesoureiro da Diretoria - Francisco de Assis de Sousa, chegaram até a socos e pontapés. Já havia sete membros da Diretoria. Na última reunião da associação dia 08.05.84”.
O Vice-Presidente Silvestre é apontado no documento como sendo também vítima de agressão. É interessante identificar que logo em 17 de novembro de 1984 é criado por Francisco Sousa Silva “O grupo de jovens Força independente“ com o objetivo de atuar dando apoio a Associação dos moradores do Conjunto Habitacional Tancredo Neves.
E em 22.05.85 é criada a “Aliança Comunitária Tancredo Neves” encabeçada pelo ex-vice-presidente da Associação de moradores, Silvestre e Marinete (presidente, e hoje tendo como dirigente, Cícera da Silva). Segundo os participantes desta entidade, ela foi criada devido às divergências relativas ao aumento das casas do antigo BNH, já outro informante comentou que as divisões ocorreram mesmo por divergências políticas, já que os participantes da “Aliança Comunitária” são ligados ao Professor Edvar Ramos, presidente da Associação dos moradores da Aerolândia (1985) e líder político do PMDB. Sobre a criação da Aliança comunitária, o Jornal (Diário do Nordeste, 08 de julho de 1985) esclarece:
“Apesar de negar qualquer comprometimento político, percebe-se facilmente que a aliança comunitária é orientada pelo Professor Edvar Ramos, presidente da associação dos moradores da Aerolândia (...) a reportagem do Diário do Nordeste pode sentir pelo comportamento do Sr. Edvar Ramos que ele manobra os dirigentes controlando-os, inclusive, quando prestam declarações a imprensa”.
O Jornal aponta também que antes mesmo da diretoria assumir, já conseguiu um benefício para a comunidade: a distribuição do leite de soja para crianças e adultos desnutridos .
É interessante perceber que mesmo dentro do velho Lagamar a presença deste líder do PMDB sempre é apontada como veiculado de um maior número de programas do governo no Bairro. O atual presidente da Associação de Moradores do Lagamar informou-nos que:
“A gente tinha aqui na associação um Posto da CODAGRO(...) Era para as pessoas fazerem compras no posto. Era do Governo do Estado. Foi batida 1.350 carteirinhas de uma vez. O Posto de repente foi retirado daqui. (...) O Posto foi cedido a um candidato (em agosto/setembro/88) a vereador para fazer política em cima desse caminhão da CODAGRO, foi o Professor Edvar Ramos”.
O que evidencia-se com a divisão dentro do movimento do bairro “Tancredo Neves” através da criação da aliança comunitária, é o início da canalização de programas do governo e proliferação de grupos, no sentido de ampliar a população beneficiária, porém conferindo vantagens por grupos diferenciados. A “aliança comunitária no Tancredo Neves“ foi, e ainda representa uma base de apoio do Prof. Edvar Ramos e do Governo.
A partir de 1986 são criadas no Bairro Tancredo Neves as seguintes entidades com os objetivos abaixo discriminados: