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Agnes Heller é uma filósofa húngara, nascida em Budapeste em 1929. Foi aluna e assistente de Georg Lukács, sendo considerada a mais influente integrante da Escola de Budapeste, formada por seus discípulos. Em 1974, a autora publicou a Teoria das necessidades em Marx, obra em que analisa a teoria das necessidades contida nas principais obras de Marx, aqui incluídas Grundrisse e O Capital.

Na referida obra da autora, ela define a necessidade humana como sendo um “desejo consciente, aspiração, intenção dirigida a todo o momento para certo objeto e que motiva a ação como tal” (HELLER, 1985, p. 170). Em obra posterior, intitulada A condição política pós-moderna, reafirma a necessidade como um sentimento consciente de que falta alguma coisa e, por isso, é também uma motivação na medida em que essa falta estimula a pessoa a preenchê-la ou eliminá-la (HELLER, 2002, p. 37).

Em sua análise da obra marxiana, ela expõe uma classificação das necessidades em que as mesmas são agrupadas em necessidades naturais e necessidades necessárias.

As necessidades naturais referem-se à conservação das condições vitais do homem. Representam as condições físicas relativas à sobrevivência, como alimentação, moradia, entre outras. Embora essas constituam necessidades físicas de autoconservação dos animais em geral, no caso dos homens elas se distinguem. Isso porque, o modo humano de satisfazê-las requer a existência de certas condições que para os outros animais não representam necessidades. No caso do humano, os modos de satisfação (que se diferenciam com as relações sociais tipicamente humanas) tornam sociais suas necessidades naturais (HELLER, 1986).

Sobre a especificidade das necessidades naturais humanas, afirma Meszáros

Colocar em relevo o que há de especificamente humano em todas as necessidades naturais do homem não significa, é claro, argumentar em favor de um novo tipo de “eu superior”, que se ponha como juiz sobre essas necessidades naturais. [...] Essa maneira humana de satisfazer os apetites naturais – que, enquanto necessidades e apetites, são transformados no

processo de “autotranscendência” e “automediação” – dependerá do grau efetivo de civilização, e da prática social que a ele corresponde, a que se pertence (MESZÁROS, 2006, p.157).

O caráter social e histórico que assume a necessidade natural do homem fica bem ilustrado por Marx nos Grundrisse, quando afirma “Fome é fome, mas a fome satisfeita pela carne cozida comida com garfo e faca é uma fome diferente daquela que devora carne crua com as mãos, unhas e dentes” (MARX apud MÉSZÁROS, 2004, p.252). Ainda na mesma obra, o autor chama as necessidades naturais do homem como “necessidades necessárias” em virtude das mesmas constituírem-se inevitáveis garantia da sobrevivência. Entretanto, no Capital,dá-lhe outro significado, tal como descreve-se a seguir (HELLER, 1986).

Mais do que um conjunto de determinadas necessidades que possam ser estabelecidas e fixadas independentemente da história e da cultura, as necessidades naturais constituem um conceito limite: o limite da reprodução da existência humana que se diferencia segundo distintas sociedades (HELLER, 1986).

As chamadas necessidades necessárias são aquelas que vão surgindo no decorrer da historia. Elas não se referem à mera sobrevivência dos indivíduos e têm os elementos culturais, morais e os costumes como decisivos para sua definição. Sua satisfação é parte da vida normal dos homens pertencentes a uma determinada classe social, numa determinada sociedade, podendo ser distintas quando comparadas épocas e grupos populacionais diferentes. Tanto podem ser necessidades materiais como imateriais (HELLER, 1986).

Todas as necessidades humanas são, portanto, necessidades sociais, sejam aquelas necessidades existenciais vinculadas ao instinto animal de autoconservação e sobrevivência, sejam aquelas propriamente humanas, desenvolvidas no bojo das relações sociais ao longo da história e independentes de necessidades naturais originais da condição animal. Nesse sentido, as necessidades humanas – consideradas de modo concreto enquanto necessidades humanas individuais – se modificam, todas elas, com o passar do tempo, mediante a ação do homem com a natureza, à medida que esse se humaniza. Em suma, quer-se dizer que toda necessidade é mutável, pelo menos se tomada em sua concretude como algo específico de que o homem, em determinado tempo histórico, lugar e cultura, necessita para participar das relações sociais que integra.

Novamente, Meszáros auxilia-nos a compreender a condição mutável das necessidades quando afirma que

Pode soar estranho ouvir que a necessidade é “mutável”, até que nos lembremos que o ser natural qual se aplica essa condição é um ser natural único, que introduz um modo totalmente novo de causalidade na ordem da natureza por meio de sua atividade produtiva. Daí as relações naturais originais não serem meramente modificadas até certo grau, mas poderem ser radicalmente invertidas no curso do desenvolvimento histórico. É dessa maneira que aquilo que é a princípio naturalmente necessário torna-se

historicamente superado [superseded] por meio da produção de novas carências em si. Consequentemente, prender-se à noção do “natural”

atemporal não passa de uma mistificação que implica a absurda redução do indivíduo humano a um “sujeito natural” irreconhecivelmente bruto, à semelhança de um animal (MESZÁROS, 2011, p. 209).

É muito importante esclarecer, para fins de interpretação das necessidades como parte concreta da vida do homem, que a atribuição do caráter social a elas não constitui – o que pode ser pensado – uma contraposição ao fato de que toda e qualquer necessidade é uma necessidade individual.

As necessidades são sociais porque são socialmente produzidas, determinadas sócio-historicamente; e devem ser compreendidas sempre como necessidades de indivíduos, que estão em relações sócio-históricas com outros indivíduos; são produzidas por essas relações e para essas relações, sem nunca deixarem de ser individuais. Com isso, o termo “necessidade social”, não deve ser confundido com a ideia de “necessidade da sociedade” como se, neste último caso, a sociedade, ela mesma, fosse portadora de necessidades e não os indivíduos que a constituem (HELLER, 1986).

O problema que emerge dessa confusão é que, se entendidas desta última forma, como “necessidades da sociedade”, elas podem estar sendo referidas como necessidades gerais que não correspondem às necessidades dos indivíduos. Isso porque ou são, na verdade, necessidades de grupos sociais privilegiados que conseguem expô- las como sendo de todos; ou necessidades de representantes sociais que, ao elegerem as necessidades do coletivo a serem satisfeitas, acabam por escolher aquelas que não coincidem com as necessidades efetivas dos indivíduos os quais representam (HELLER, 1986).

Mendes Gonçalves (1992,) citando Marx (1968), esclarece que as necessidades não são para o ser humano uma questão casual. Constituem, na verdade, um elemento fundamental na medida em que ter necessidades é uma condição natural e

aquilo que o torna especificamente humano. Ser homem implica em ter necessidades, satisfazê-las, criar novas necessidades e novamente satisfazê-las, num movimento sem fim. Daí o motivo pelo qual, em Ideologia Alemã, Marx ter se referido à produção de necessidades como o primeiro ato histórico da humanidade, pois “a primeira necessidade ela própria, uma vez satisfeita, a ação de a satisfazer, e o instrumento já adquirido para essa satisfação, empurram a novas necessidades”

Para esse autor, no âmbito das práticas de saúde, tais situações se refletiriam nos casos de ações de saúde cuja realização, embora defendidas como sendo de “interesse geral”, passariam por cima das necessidades conscientes dos indivíduos e justificar-se-iam, antes e depois, por seus resultados técnicos (MENDES- GONÇALVES, 1992). Decorre daí a importância de se tecer o devido esclarecimento quando se estiver tratando de uma determinada necessidade social, de modo a não omitir a problemática subjacente relativa ao individual e ao coletivo.

Uma vez esclarecido o significado de necessidade humana como necessidade social, atemo-nos ao exame das necessidades sociais na sociedade capitalista e do processo de alienação que nela acontece, ou seja, a alienação das necessidades humanas, a fim de fazer um movimento de aproximação do pensamento com a realidade concreta do homem hoje, posto que seja sob o regime de produção capitalista que vivemos e que concretizamos – construímos, reconhecemos e satisfazemos (ou não) – nossas necessidades.

Este exame se reveste de complexidade na medida em que analisar as necessidades implica em analisar outros elementos que constituem a formação social capitalista. Isso por que

Produção, relações de produção, relações sociais e sistema de necessidades constituem, como sabemos, momentos distintos, mas que se fundamentam reciprocamente de uma mesma formação social. A estrutura das necessidades é uma estrutura orgânica inerente à formação social em seu conjunto (HELLER, 1986, p. 116).

Embora não haja registro histórico de uma sociedade em que as necessidades humanas tenham sido plenamente satisfeitas – se é que isso seja possível – é no capitalismo que essa possibilidade apresenta-se o mais distante de sua realização (HELLER, 1986, p. 116), sendo que o que se observa é um contingente populacional enorme que não consegue satisfazer sequer suas necessidades naturais.

Isso tem sido associado por Marx ao processo de alienação das necessidades que está associado à transformação sofrida pelo conceito de necessidade que, no capitalismo, é reduzido à condição de necessidade econômica.

“Em opinion de Marx, La reducción del concepto de necessidad a La necessidad econômica constituye una expresión de la alienación (capitalista) de las necessidades, en una sociedad em la cual el fin de la produción no es la satisfacción de las necessidades, sino la valorización del capital, em la que el sistema de necessidades está basado em la división del trabajo y la necessidad solo aparece em el mercado, bajo la forma de demanda solvente.” (HELLER, 1986, p.24-25)

A alienação das necessidades no capitalismo pode ser compreendida mediante a explicitação de quatro temas: (1) a relação entre os meios e os fins, (2) a quantidade e qualidade das necessidades, (3) o empobrecimento das necessidades e, (4) o interesse como motivo da ação individual (HELLER, 1986).

A primeira expressão da alienação das necessidades humanas é a inversão da relação meio-fim. Nela, os fins se tornam os meios e os meios se tornam os fins. Conforme já declaramos anteriormente, a premissa de valor que orienta esta investigação é aquela em que os homens são iguais em direito e dignidade. Isso significa que o desenvolvimento humano constitui a finalidade última da organização societal. Contudo, no capitalismo o homem, também se torna meio, na medida em que se converte em instrumento para outros homens satisfazerem seus fins privados (HELLER, 1986).

De acordo com Marx, o fim da produção social deveria responder na satisfação das necessidades sociais, mas a indústria e a agricultura capitalistas não produzem para as necessidades, nem tampouco para sua satisfação. O fim da produção é, então, a valorização do capital, e a satisfação das necessidades (no mercado) consiste unicamente em um meio para isso (HELLER, 1986, p.55).

Pelo movimento da alienação, as necessidades passam a ser manipuladas para que cumpram o propósito de possibilitar a acumulação de capital. Mas é importante salientar que uma determinada necessidade não se converte em manipulada por suas qualidades concretas, mas em virtude dos seguintes fatores: o grau de rentabilidade de determinado objeto e suas necessidades correspondentes; pelo lugar que ocupa o objeto no mecanismo de produção capitalista e na divisão do trabalho; pelo propósito verdadeiro do objeto em satisfazer uma necessidade alienada (HELLER, 1986).

A organização social que tem como núcleo o desenvolvimento humano, não alienado, preza pelo desenvolvimento de necessidades qualitativamente distintas. Contudo, com a alienação das necessidades, o incremento delas passa a ser de caráter quantitativo.

O dinheiro, ou a relação monetária, determina a “inversão” da relação “normal” quantidade e qualidade, constitui a encarnação da quantificação das necessidades e se converte em seu portador. É o representante puramente quantitativo da riqueza social. “A quantidade” de dinheiro é cada vez em maior medida sua propriedade importante. Assim como o dinheiro reduz todo ser a sua abstração, assim se reduz ele mesmo em seu próprio movimento a ser quantitativo. O descomedimento e o excesso é sua própria medida (HELLER, 1986, p.59).

Nesse movimento de alienação, promove-se um empobrecimento das necessidades cuja expressão mais significativa é sua redução à necessidade de “ter” diante da qual todas as demais se tornam homogêneas. Tal empobrecimento acomete todos os segmentos sociais, ainda que de forma diferente. Por fim, Agnes Heller (1986) elenca a problemática do interesse. Segundo a autora, o interesse como motivo da ação individual não é mais do que expressão da redução das necessidades.

Na obra marxiana, aparece à distinção entre necessidades reais e necessidades imaginárias. Com essa distinção, impõe-se a indagação já formulada por Agnes Heller: Mas quais são essas necessidades sociais reais? Para essa autora, o conteúdo dessa categoria corresponde essencialmente em Marx ao conteúdo empírico ou sociológico das necessidades necessárias.

As necessidades reais constituem a média das necessidades individuais que são desenvolvidas historicamente, transmitidas em seus usos e dotadas de componentes morais. Diz respeito a uma categoria objetiva na medida em que se refere a um determinado homem, de uma determinada classe, de uma determinada época, que nasce em um sistema e em uma hierarquia de necessidades pré-constituída (embora em evolução) pelos costumes, pela moral e pelas gerações precedentes e, sobretudo, por objetos de suas necessidades. O homem interioriza (segundo as sociedades) esse sistema, embora de maneira individual. Mas em nenhum caso constitui uma estrutura autônoma de necessidades por cima dos membros de uma classe ou de uma sociedade: necessidade do particular é aquela que ele conhece e sente como sua; não outras necessidades (HELLER, 1986, p.82).

No sentido exposto, não há necessidade real que ainda não tenha sido reconhecida pelo homem. O conceito de necessidade anteriormente apresentado – como

um sentimento consciente de que falta alguma coisa – a expõe com esse significado, ou seja, como algo necessariamente reconhecido pelo indivíduo.

A concepção segundo a qual nem todas as necessidades são reais sustenta-se na ideia de que as necessidades conscientes de uma parte da sociedade presente não podem ser consideradas como reais posto que são derivadas do fetichismo do ser social e da manipulação das necessidades (HELLER, 1996, p.57).

Entretanto, a distinção entre necessidades “reais” e “irreais ou imaginárias”, pressupõe o fato de que aquele que faz tal distinção conhece, de fato, quais necessidades são reais, o que por sua vez, se alicerça na possibilidade de que sua consciência não tenha sido – assim como as demais – alienada, o que daria a ele uma condição de fazer tal julgamento. Mas se a consciência daquele que julga também pertence à mesma sociedade daqueles que são julgados como alienados, então, não há garantias de que a consciência do “juiz” seja mais correta. Em decorrência, a separação das necessidades em reais e irreais se mostra carente de sentido (HELLER, 1996, p.58).

3.2 A teoria da Motivação Humana: Abraham Maslow e as necessidades humanas

Benzer Belgeler