relações que é o poema. João Alexandre Barbosa percebeu que a negação da transitividade entre o real e o poético é o espaço da construção da metáfora. “O nascimento da metáfora é, por isso, a morte da pura designação.”88Há sempre a intervenção de um elemento lúdico que ordena harmonicamente essa passagem.
Nas “cinzas” houve sentidos encobertos, invisíveis como é, também, o mundo da poesia. Em Libertinagem, a infância não será mais fragmentada como vimos em “Ruço”. Ela virá com forte carga expressiva, liderará o jogo poético não somente pela não-fala, mas será espaço de riso, desregramento e licenciosidade na linguagem, tal qual sugere o título da obra.
Já em poemas como “Evocação do Recife” e “Infância”, não nos importa saber se Bandeira conta sua história no período de infância, pois “a verdade da poesia é a verdade das máscaras”.89 Se o faz, é fora da esfera única do passado e é dentro do jogo enigmático, tencionado por metáforas, no universo fabuloso, mitológico e repleto de ambigüidade.
3.1. Libertinagem: a poesia no reino da permissividade
Na minha vida sem lei nem rei. “A Dama Branca”.
No presente tópico, trabalharemos, em Libertinagem, a larga variedade de recursos temáticos desenvolvidos que condicionaram o afloramento de versos risíveis, plenos de ironia, poemas-piada e “non sense”.
“Tanto para o poeta como para os seus críticos, [...], os poemas de Libertinagem representam um marco. O livro representa a maior fase de desenvolvimento na carreira de
87 LYRA, Pedro. O real no poético. Rio de Janeiro: Cátedra/INL, 1980.
88 BARBOSA, João Alexandre. A metáfora crítica. São Paulo: Perspectiva, 1974. p. 10. 89 BARBOSA, João Alexandre. Op. cit., p. 9.
Bandeira e, ao mesmo tempo, constitui sua mais significativa contribuição para o programa reformador do modernista brasileiro.”90 Além dessa constatação, escolhemos Libertinagem como ponto auge de nossa análise porque, para chegar a este, Bandeira atribui à significação da infância o itinerário da experiência poética.
A dimensão libertária assumida em seus versos contribui para desenvolver certo senso de ironia, chegando, em muitos casos, a enveredar por uma linha coloquial-irônica. Essa natureza fez Bandeira, decisivamente, libertar-se de sua formação clássica e dos ares da corrente simbolista que pairaram em alguns de seus primeiros poemas. O grito de independência contra o espírito de seriedade do academicismo e da padronização métrica vem declarado a partir de Libertinagem, momento em que também Bandeira desenvolve sua veia irônica, pois é o que vemos nos versos satíricos de sua célebre “Poética”:
Estou farto do lirismo comedido do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente [protocolo e manifestação de apreço ao Sr. diretor Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário
[o cunho vernáculo de um vocábulo Abaixo os puristas
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis
Estou farto do lirismo namorador Político
Raquítico Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si [mesmo. Do resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante exemplar [com cem modelos de cartas e as diferentes
[maneiras de agradar às mulheres, etc. Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbedos
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos O lirismo dos clowns de Shakespeare
- Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.
[L, p. 207.]
Bandeira manifesta “liberdade absoluta frente aos cânones estabelecidos de versificação, pela independência temática e ousadia técnica”91 é o que afirma Giovanni Pontiero no seu estudo sobre Libertinagem. Nos versos acima, Bandeira aponta as rupturas e os novos parâmetros que vão operar em seu exercício literário. Declara o abandono do lirismo dos acadêmicos, dos românticos, dos “comedidos e bem comportados.” Satiriza a obediência do funcionário público, dos assuntos burocráticos, protocolizados, do ponto de expediente que define formalmente como vai ser o trabalho. Manifesta-se contrário ao lirismo institucionalizado.
“Poética” tem teor de manifesto, com abertura absoluta para o processo criativo. Bandeira afirma querer o lirismo dos loucos, dos bêbados e dos palhaços, enfatizando que sua lírica não seguirá regras nem padrões de caráter estético. Janilto Andrade defende o que Pareyson denomina ser a “poética interna da obra”: “nem gosto particular, nem um
determinado ideal de arte, nem uma poética fixada em seu programa.”92 Em Itinerário de
Pasárgada, Manuel Bandeira afirma: “A partir de Libertinagem é que me resignei à condição de poeta”93 e este seu livro é “o mais dentro da técnica e da estética do Modernismo.”94 No ensaio “Aspectos da arte poética”, Emanuel de Moraes ressalta que em Libertinagem não se lê a “transição entre as escolas anteriores e a modernista, mas a transição de si para si próprio, ou como bem diz Bandeira, a afinação poética.”95
Nossos estudos reiteram a convicção de que no poema em análise há um espírito eminentemente libertário, o qual se comprova através dos recursos estilísticos que a partir de “Poética” vão ser construídos. Ocorrerá uma mudança operada na poesia de Bandeira depois do conhecimento e do domínio das convenções literárias.
Mário de Andrade considera Libertinagem “o livro da cristalização” e “Poética” como “ápice dos [...] ideais estéticos e libertação pessoal”96 do poeta.
Em suma, a infância enquanto itinerário na lírica de Manuel Bandeira é assumida por um processo dinâmico da tendência artística operada no Modernismo, momento em que o poeta liberta-se de esquemas preestabelecidos, permitindo uma “completa liberdade de movimentos”97. A dinâmica da obra poética de Bandeira apresenta uma multiplicidade de temas e domínio de técnicas, e faz dele, conforme Mário de Andrade: “o poeta mais civilizado do Brasil: não só pelo abandono total do enfeite gostoso, como por ser o mais... tipógrafo de quantos, bons, possuímos”98.
92 ANDRADE, Janilto.“À Poética” In: Da beleza à Poética. RJ: Imago, 2001. p. 123. 93 BANDEIRA, Manuel. Op. cit., p. 40.
94 BANDEIRA, Manuel. Op. cit., p. 76.
95 MORAES, Emanuel. “Aspectos da Arte Poética”. In: SILVA, Maximiano de Carvalho. (Org.) Homenagem a Manuel Bandeira. Niterói, RJ: Sociedade Sousa da Silveira. Monteiro Aranha: Presença Edições, 1989. p. 176. 96 ANDRADE, Mário. “Libertinagem: Nota Preliminar” In: Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1977; Manuel Bandeira: Seleção de textos – Coletânea organizada por Sônia Brayner – Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; Brasília: INL, 1980 (Coleção Fortuna Crítica). p. 193.
97 MORAES, Emanuel. Op. cit., 1989. p. 176. 97 ANDRADE, Mário.Op.cit., 1980. p. 193. 98 ANDRADE, Mário. Op. cit., 1980. p. 194.
3.2. Facetas do Riso em Libertinagem
Roda, ciranda, Por aí fora, Chegou a hora De cirandar! Na tarde clara Vinde ligeiras, Ó companheiras, Rir e dançar! “Quadrilha”.
Apresentaremos, neste tópico, mais uma chave de leitura da infância na lírica de Bandeira como itinerário no processo criativo à luz da teoria do riso. Há uma clara relação entre essa teoria e a que persiste em sua temática. A infância decorre duma experiência de linguagem metafórica, hiperbólica, repleta de jogos e nuances poemáticas, permitindoa lírica bandeiriana formar, a partir de Libertinagem, um corpus em que signo e discurso, coerentemente, suscitam a ligação entre o riso e a infância.
Escolher o riso como caminho para entendermos o tratamento dado ao tema da infância nesse autor, é considerar o assunto de modo diferente do que se tem estudado. Primeiro, porque este é um estudo das diferentes formas pelas quais a infância foi tomada como assunto ao longo das quatro primeiras obras de Bandeira. Segundo, porque é incompreensível falar em infância e não falar no riso. Veremos que não só o teor das palavras, mas também a construção de determinados poemas nos levam ao riso. O riso toca, especificamente, o campo da poesia porque os dois são categorias da linguagem, e por isso tornam-se indissociáveis do principal método que implica ser a infância em nossa análise
experimentum linguae. Se estamos procurando entender a infância deslocada de uma concepção estreita, relacionada à cronologia, o riso aproxima-se dessa idéia, pois ele é igualmente admitido como negação da verdade e da lógica.