BÖLÜM II: DURUM ANALİZİ
C. FAALİYET ALANLARI VE SUNULAN HİZMETLER
“Nevoeiro”
Nem rei, nem lei, nem paz em guerra, Define com perfil e ser
Este fulgor baço da terra Que é Portugal a entristecer-
1 Ultimatum – Em 1890 a Inglaterra decreta, através deste documento, que o governo português retire
suas tropas em onze horas dos territórios africanos por ela reivindicados. Acabando, deste modo, a política portuguesa que pretendia estender seu imperialismo em terras africanas, de modo que houvesse uma ligação territorial contínua e que se estenderia do oceano Atlântico ao Índico (de Angola a Moçambique).
Brilho sem luz e sem arder, Como o que o fogo-fatuo encerra Ninguém sabe que coisa quere.. Ninguém conhece que alma tem, Nem o que é mal nem o que é bem. É (Que anciã distante perto chora?) Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro. Ó Portugal, hoje és nevoeiro... É a Hora! (Fernando Pessoa)
A segunda metade do século XIX é o momento em que o Naturalismo apresenta todo seu vigor em Portugal. Este fase na história portuguesa foi de grandes inquietações e mudanças na secular e carcomida estrutura política e econômica do país. Este período conturbado fora “aberto com a fuga da família real para o Brasil, o século liberal termina com a liquidação física, se não moral, de uma monarquia a quem se fazia pagar, sobretudo, uma fragilidade nacional que era obra da nação inteira” (LOURENÇO, 2007, p.29).
É neste momento que em Portugal busca atrelar-se aos movimentos culturais da Europa mais desenvolvida que Abel Botelho emerge dentro do espaço literário português. A produção literária dele se inicia com o lançamento do romance O Barão de
Lavos de 1891 e é concluída em 1919 com Amor Crioulo, romance publicado
incompleto e postumamente. Botelho, entre os portugueses, foi aquele, entre os naturalistas, que mais se aproximou do modelo do zolismo. Foi, justamente, este que em sua obra cujo título é Patologia Geral, forneceu como legado literário uma idéia mais precisa da geração naturalista que, em Portugal, seguia de perto as influências de Zola. Lançado em 1891, O Barão de Lavos, é um romance que nos mostra de forma peremptória o tema da fatalidade que acompanha a degeneração da raça e até aonde esta questão de hereditariedade pode acentuar a morbidez. Segundo o narrador do romance, o doentio e degenerado acentua-se de geração a geração, aumentando as patologias e
levando, por conseguinte, o enfermo progressivamente à degradação. Em 1895, Abel Botelho publica O Livro de Alda em que fala sobre a questão homossexual feminina; em 1901, edita Amanhã, em que debate a situação dos revolucionários trabalhadores lisboetas em suas lutas atreladas ao anarquismo e ao socialismo; em 1907, lança o Fatal
Dilema, cujo tema base é o intercurso sexual entre parentes consaguíneos próximos.
Próspero Fortuna, de 1910, encerra o ciclo, no qual mergulha seus personagens no
mundo da decadência e da corrupção da classe política. Na Patologia Social botelheana “está sempre a intenção combativa, antípoda da impassibilidade, mas os seus recursos artísticos são débeis, as cores carregadas, os processos esquemáticos” (SODRÉ, 1965, p.60).
Seus romances seguem quase sem desvio os mandamentos canônicos da escola naturalista, mas neles, ao longo do tempo, podemos divisar que este escritor foi amenizando os exageros do Naturalismo. Se em O Barão de Lavos, ele trabalha a questão da hereditariedade mórbida, da qual o personagem principal não podia se desvencilhar, nos romances seguintes, principalmente em Amanhã, ele vai trabalhar questões atreladas ao socialismo dos operários lisboetas. Nos romances publicados no início e no final de sua produção literária vê-se uma acentuada mudança nos termos expressos e no burilar do que produz. Enquanto nas primeiras produções vemos os apegos ao cientificismo e uma exagerada preocupação em poder retratar de maneira mais fiel a realidade circundante, nos últimos romances vemos que “as soluções de expressão sofrem visível aligeiramento, poetizam-se, adquirindo fluência de meios tons e transparência líquida” (MOISÉS, 1961, p.14). De modo que, se fizéssemos uma análise superficial, afirmaríamos que Abel Botelho, em sua obra, segue canonicamente os mandamentos do Naturalismo. Contudo, se continuarmos analisando na linha do tempo suas produções, divisaremos que há amostras do afastamento das questões
norteadoras do naturalismo cientificista. Nas narrativas posteriores a O Barão de Lavos aparece uma diminuição da “deformação do mundo operada pela concepção materialista e científica do Universo e do Homem”. (MOISÉS, 1961, p.17).
O conjunto de romances que formam a Patologia Social2, de Abel Botelho, no qual está incluído o Barão de Lavos, tenta retratar a degeneração da célula social nos quais vivem seus personagens. Estes, fragilizados pelo espaço circundante e determinante, do qual não se pode safar, entram em débâcle. Na Patologia Geral, Abel Botelho, ao traçar o perfil da vida que se levava em Portugal, através da voz de seus narradores, quer nos mostrar como o determinismo histórico-espacial, aliado às questões da herança genética, tornava o povo desta nação suscetível a adquirir diversas formas de degeneração. Os personagens destes romances
são doentes, mental e fisicamente, arrastando uma vida de mazelas diárias de abjeções e degradações encobertos num manto de hipócritas convenções que nada encobrem. ... A família e a sociedade que ela forma, são, em suma, em caso patológico, na medida em que seus componentes o são. (MOISÉS, 1961, p.31)
A Patologia Social é formada por cinco romances, nos quais seus narradores têm como objetivo trazer à tona os desvios patológicos dos personagens principais. Para isto, os narradores os contextualizam histórica e politicamente, pois as vivências sexuais humanas não podem prescindir das relações sociais, históricas e políticas em que se inserem. Para demonstrar tal fato, os narradores se utilizam tanto de práticas morais historicamente não aceitas pela ortodoxia heterossexual judaico-cristã, como também sinalizam que os distúrbios orgânicos destes personagens metaforizam a perda da virilidade, base sine qua non a uma nação de aventureiros e descobridores como fora
2 A influência de Emile Durkheim (1858-1917) e seu raciocínio sobre fatos normais e patológicos podem
ser visto no título da obra de Abel Botelho. Esta questão do patológico, como fato social, se espalha pela escola naturalista que o utiliza assaz. De acordo com Durkheim os fatos patológicos se opõem aos normais, pois eles não fazem parte da regra geral dos usos e costumes das comunidades e servem como enfraquecimento dos valores cultuados pela maioria. Por isso, segundo o ponto de vista deste autor, os fatos patológicos são considerados de maneira negativa.
Portugal. Ao escolher determinadas patologias e inoculá-las nos personagens principais dos romances deste ciclo, os narradores pretendiam nos mostrar que aqueles estavam visceralmente doentes, pois Portugal, nação que os criara, estava desgovernada e, deste modo, incapacitada de produzir filhos capazes de continuar a herança deixada pela raça viril que auferiu à nação portuguesa o “direito e a obrigação” de levar aos quatro cantos do mundo a colonização e o cristianismo. Deste conjunto de explanações, podemos chegar à idéia central dos romances que formam a “Patologia Social” botelheana, pois, por contigüidade, elas desvelam e demonstram que os desvios individuais são consequências de algo mais amplo, ou seja, dos desvios psico-sociais adquiridos individualmente dentro de uma sociedade em estado crescente de degeneração nos campos histórico, social e político.
Abel Botelho, ao tratar das questões morais em decadência, ameaçadoras do equilíbrio social, queria fotografar de maneira real as turbulências que ocorriam na vida moral, política, social e econômica portuguesa naquele momento histórico, pois aquele foi o período de verificação da fragilidade da monarquia e que levou a posterior queda desta com a implantação da República em outubro de 1910.
E a desordem política, feita de rivalidades mesquinhas, de escândalos reais ou fictícios, de ações polêmicas na imprensa e no Parlamento - continua. Parece ter só um fim: destruir. Enquanto o Rei e alguns poucos dos seus servidores se aplicam a manter o que ainda se sustenta, a maioria agita-se numa infatigável empresa de “bota- abaixo”. Atacam-se a Igreja, a Monarquia, todas as estruturas morais e tradicionais. (AMEAL, 1974, p. 675)
Como consequência da decomposição social dos costumes provenientes da decadente nobreza, os ideais burgueses, representados na forma de governo republicano, tornaram-se o objetivo mor para a solução dos problemas que infligiam a sociedade portuguesa, “A república, conjunto de proposições políticas de subversivo teor
ideológico, mas de reduzido âmbito social, aparece então como a forma de apropriação de um destino coletivo confiscado” (LOURENÇO, 2007, p.31). É nesse conjunto de convulsões política, social e econômica que Portugal vive no final do século XIX - no qual a monarquia agonizava - que Abel Botelho cria seus personagens na Patologia Social. Deste modo, os narradores, ao desnudar e mostrar os aspectos patológicos de seus personagens, querem mostrar o declínio da nação portuguesa aliando, suas idéias com a ciência, ao mesmo tempo em que colocam esta escola literária a serviço da causa republicana.
Estes personagens, vivendo num ambiente social, econômico e político em decadência, carregam em si, seguindo o raciocínio determinista, a degradação do ambiente ao qual pertencem. Através dos estigmas negativos, com os quais veste seus personagens, Abel Botelho, através de seus narradores, vai analisando a decomposição e a agonia do mundo monárquico português. Aos olhos deste, a nação portuguesa estava em grande crise porque seus componentes sociais, políticos e econômicos interrelacionados estavam enfermiços. Por isso, o ciclo dos cinco romances
resiste à análise como documento altamente vivo de sua época, o que quer dizer: testemunho valiosíssimo de um espírito autônomo, autêntico, a tentar ver claro um “momento” de crise dos mais decisivos na história do povo português. (MOISÉS, 1961, p.76)
Mas, para ele, a verdadeira crise em que se encontrava seu país era de cunho moral e ético atrelados aos fatores já expostos. Em sua Patologia Social, o autor “interessa realizar aquilo que Antonio Jose Saraiva denominou “Um Inquérito à Vida Portuguesa”” (MOISÉS, 1961, p.25) e, observar os sinais evidentes dos descompassos que corroiam o povo luso. Contudo, Botelho, em sua obra não apresenta caminhos que possam levar a alguma solução e, este não é o objetivo dos romances que formam seu ciclo de publicações.
1.4 Naturalismo no Brasil
No final do século XIX, o Brasil era o principal mercado de livros da ex- metrópole, por isso havia na ex-colônia grande influência tanto dos autores portugueses como das diversas traduções feitas, via Portugal, de autores estrangeiros. Em pleno Oitocentos a Universidade de Coimbra em terra brasilis se fazia notar, já que “a fina flor da intelectualidade brasileira continuava a procurar na velha cidade universitária a formação que seus pais e avós haviam conseguido” (REGO, 1966, p.19). Isto não quer dizer que não houvesse mercado, mesmo que incipiente, para livros nas próprias línguas dos autores de outros países europeus, principalmente daqueles advindos da França. Contudo, essas leituras eram privilégios de uns poucos eleitos. Na verdade, havia naquele momento histórico uma necessidade premente de incluir valores europeus na formação das elites brasileiras, “dentre as manifestações particulares daquela dialética, ressalta o que poderia chamar “diálogo com Portugal”, que é uma das vias pelas quais tomamos consciência de nós mesmos” (CANDIDO, 1985, p.110). Deste modo, não podemos estudar o Naturalismo brasileiro sem fazermos menção aos créditos dos naturalistas de lá transferidos aos de cá, já que o Brasil foi favorecido, devido aos fortes laços culturais com Portugal, tendo acesso ao que o mercado editorial lusitano produzia. Outra grande influência que deve obrigatoriamente ser citada é a francesa, atrelada ao zolismo. “É dizer, por fim, que esse vínculo formado, em função do livro-mercadoria – primeiro entre França e Portugal, e, depois, entre Portugal e Brasil – motivou o contato de obras e autores até então isolados em seu contexto.” (EL FAR, 2004, p.65). Entre os autores brasileiros da escola naturalista existem os que seguem o zolismo, os que