• Sonuç bulunamadı

Um galo sozinho não tece uma manhã: Ele precisará sempre de outros galos. De um que apanhe esse grito que ele E o lance a outro; de um outro galo Que apanhe o grito de um galo antes E o lance a outro; e de outros galos Que com muitos outros galos se cruzem Os fios de sol de seus gritos de galo, Para que a manhã, desde uma teia tênue, Se vá tecendo, entre todos os galos[...] . (João Cabral de Melo Neto – Tecendo a manhã)

A poesia acima não comparece à toa neste tópico. As palavras de João Cabral de Melo Neto me reportam ao que versa Bakhtin (2004, p. 272) sobre o enunciado: “um elo na corrente complexamente organizada de outros enunciados”. O enunciado trata-se, pois, de um

ponto de intersecção, tecido num ininterrupto processo dialógico no qual se cruzam vozes que ora se completam, ora travam entre si polêmicas, ora respondem umas às outras.

Sob essa inspiração, trago alguns questionamentos sobre o processo de composição dos encontros do grupo de discussão: Quando os jovens se põem a tecer o grupo de discussão junto comigo, através da escolha dos temas a serem abordados, como o fazem? Sozinhos ou influenciado por outros agentes? Quem seriam esses outros? O que a escolha dos temas discutidos pode indicar dos posicionamentos dos participantes frente à condição juvenil na atualidade, frente à situação de muitos jovens daquele bairro e frente às práticas de saúde que já têm sido feitas junto a este segmento?

A partir desses questionamentos, este tópico enfocará a primeira categoria empírica deste estudo: “Temas Cotidianos e Condição Juvenil”. Minha hipótese foi de que esse processo enunciativo voltado à escolha dos temas das oficinas poderia me oferecer pistas iniciais para a compreensão de como questões ligadas à saúde perpassavam o cotidiano de jovens de um bairro periférico da cidade e como estes se posicionavam diante delas. A segunda hipótese sobre esse processo de escolha era de que ele também forneceria indícios de como os participantes negociavam posicionamentos entre si, bem como de que sentidos e vozes se presentificavam naquelas interações.

Zanella e Pereira (2001), ancoradas numa perspectiva histórico-cultural, apontam a ação coletiva como o critério mais significativo para definição do que seja um grupo. Guiado por essa noção, eu entendia aquele grupo de discussão como um espaço marcado por processos não lineares de negociação, ao invés de compreendê-lo segundo a tradição de algumas psicologias, isto é, como uma entidade abstrata que transcendia seus componentes ou como um todo necessariamente coeso constituído pela soma dos seus participantes.

Na esteira de um viés histórico-cultural, os grupos, de uma forma geral, e aquele, especificamente, são instâncias sociais que produzem cultura. Com base nisso, as interações engendradas em grupo são arenas de produção, circulação, negociação e apropriação de sentidos, o que lhes dá uma conotação não necessariamente harmônica.

Não obstante, o caráter mediador das interações em um grupo nos posicionamentos dos seus participantes pode ser mais bem compreendido levando-se em conta o dialogismo como princípio constitutivo da linguagem. De acordo com a perspectiva dialógica de Bakhtin, “todo enunciado é um diálogo, desde a comunicação de viva voz entre duas pessoas, até as interações mais amplas entre enunciados” (FREITAS, 1996, p. 135).

Logo, era para mim fundamental entender que as interações entre os sujeitos no grupo, já nos seus primeiros instantes, eram mediadas por signos “tecidos a partir de uma multidão de fios ideológicos” (BAKHTIN, 2002, p. 94), não se limitando, inclusive, às interações entre os interlocutores empíricos (COLAÇO, 2004). Decorre daí o pressuposto de que aquelas interações entre os jovens do grupo, ao se fazerem mediadoras de seus posicionamentos uns frente aos outros e frente aos temas debatidos, eram atravessadas por outros interlocutores de outros contextos.

As interações sociais no grupo de discussão sobre saúde tinham uma particularidade em comparação às outras interações na escola: dentre essas particularidades, tais interações tinham um propósito específico e, no limite, envolvem situações de aprendizagem e construção de conhecimentos sobre processos de saúde/doença/cuidado. Mas, assim como em outros espaços de ensinar e aprender, as interações daquele grupo também

[...] veiculam mais que conhecimentos científicos: são prenhes de valores, preferências, emoções, conceitos e preconceitos. Resultam, em decorrência, em processos outros além das transformações em termos de aprendizagem do que se constitui como objeto do conhecimento: resultam na constituição de características singulares dos sujeitos que ativamente participam do que ali acontece. (ZANELLA

et al., 2004, p. 95)

Essas concepções sobre o processo grupal se materializaram no momento de definir os temas das oficinas. Como expus no capítulo metodológico, no primeiro encontro do grupo foram escolhidos cinco temas e foi decidido que eles seriam debatidos na seguinte sequência: o que é saúde? Saúde mental; distúrbios alimentares; drogas e sexualidade.

Os participantes inicialmente encararam com estranhamento a proposta de que seriam eles que escolheriam os temas. Em principio, não sabiam ao certo que temas escolher e esperavam que eu fizesse isso por eles ou que, ao menos, fornecesse-lhes sugestões.

Mesmo com essa dificuldade no princípio, quis garantir que os temas fossem escolhidos a partir da participação dos jovens, estimulando-os a pensarem sobre que questões do cotidiano lhes pareciam mais relacionadas à saúde e lhes despertavam mais interesse em discutir naquele grupo. Depois que a primeira sugestão emergiu de uma das participantes, percebi que o grupo debateu e interagiu bastante, desencadeando outras propostas de assuntos. Mediante essa escolha conjunta, eu não tinha a ilusão de que nossas posições de “pesquisador” e “pesquisados” se tornariam horizontais dali em diante. É certo que minha proposta com as oficinas envolvia o fomento à participação dos jovens, concebendo-os como produtores – e não só consumidores - de artefatos culturais. Todavia, penso que minha

intervenção não tinha o poder de diluir duas tradicionais figuras de autoridade que em mim se personificavam naquelas interações – as figuras de “pesquisador” e “psicólogo”.

Então, visto considerar desde o princípio que meu lugar de autoridade não seria dirimido com a escolha conjunta dos temas, por que a opção por não levar logo temas preestabelecidos pela escola ou por mim? Escolher os temas conjuntamente representava, antes de mais nada, a minha tentativa de responder metodologicamente ao desafio de criar condições micropolíticas para que os jovens pudessem expressar que temáticas lhes pareciam pertinentes aos seus cotidianos e perceber as marcas desses cotidianos naquele grupo.

Fruto desse processo, o primeiro tema escolhido foi o tema “Saúde Mental”. Inicialmente, partiu de Laura a sugestão de discutirmos sobre “Depressão”. Em seguida, outros jovens se colocaram no sentido de endossar a sugestão de Laura, reportando-se a casos vistos na mídia ou em suas relações diárias e nomeando-os, entretanto, com uma série de outros significantes, tais como “esquizofrenia” e “síndrome do pânico”.

Assim, os primeiros momentos da interação já eram deveras ilustrativos de como se dá o processo de produção de sentidos no cotidiano. Para Zanella et al (2004, p. 3-4), os sentidos são

[...] originados e ao mesmo tempo marcados por outros sentidos, característicos dos grupos sociais a que esses sujeitos pertencem. Isso porque toda palavra, unidade de qualquer enunciação, veicula sentidos públicos e privados; apresenta uma dimensão que é compartilhada (o significado, como afirma Vigotski), a qual traz as marcas da história em que foi forjada. Simultaneamente, há múltiplos sentidos que também podem ser atribuídos a essa mesma palavra, que dependem das condições sociais em que os sujeitos em relação se inserem e das singularidades que ali se objetivam.

Naquele momento, ocorreu-me que os jovens faziam ecoar vozes do discurso científico, mas sem saberem ao certo o que efetivamente caracterizavam os casos de “depressão”, “esquizofrenia” e “síndrome do pânico”. Por isso, eu lhes propus que discutíssemos algo mais abrangente, o que denominei de “Saúde Mental”, de modo que pudéssemos contemplar semelhanças e diferenças entre as várias questões levantadas naquele momento. O seguinte episódio destaca esse processo:

Laura: A gente poderia discutir sobre depressão. Pode ser? (direcionando a mim) JP: A gente tem que ver só se todo mundo tem curiosidade em relação a isso, né? Laura: Porque é um tema assim muito presente devido à vida muito agitada.

Mariana: Tem pessoas, muita gente que diz que depressão é doença de gente fresca, que não tem o que fazer e aí inventa depressão, mas muitas vezes não é. Tem gente que fica com depressão não é por ser fresca... tem gente que fica né?.

Pedro: Eu não tenho depressão (em tom de brincadeira com Mariana, olhando para ela).

(O grupo ri)

Mariana: Não (falando sério a fim de reiterar para o grupo seu argumento anterior), mas é que tem gente que não tem a cabeça tão fraca quanto outras pessoas

Laura: Não, é porque assim: eu tenho um familiar meu que passou por depressão. Teve, na infância, o pai dele que abandonou a família, a mãe dele também fugiu com um amante, deixou ele com a irmã, então ele sentiu aquela falta dos pais e criou um problema afetivo né – afetivo, né? (direcionando-se para mim, aparentemente no intuito de confirmar se era esse mesmo o termo correto) - e veio sentir agora, com 50 anos de idade, explodiu, mesmo, o cara ficou maluco mesmo!

JP: O que é que vocês acham desse tema? É uma sugestão de tema. Vocês acham que ele tem a ver com saúde?

Camila: Tem, saúde psicológica.

Pedro: Tem, eu vim aqui para discutir o que o pessoal colocar, né? Tô nem vendo. JP: Tem, né? Eu vou colocar aqui sugestões, tá, sugestões de temas, certo? Pedro: Eu topo (conversando especificamente com Mariana).

Lia: Na televisão é o que passa, “depressão”, essas coisas. “Síndrome do pânico” também passa muito.

Pedro: Não sei qual é uma doença mental que tem, agora eu me esqueci o nome. Mariana: Tu tem, né? (brincando com Pedro)

(O grupo ri)

Pedro: É, o pior que eu tenho mesmo (em tom de ironia). Passou um dia desses na televisão, na novela das oito, tipo o cara tinha umas visões. Não sei se é “esquizofrênico”. Seria legal também isso, né?

JP: Certo. Então a gente pode discutir uma coisa mais geral, como, por exemplo, saúde mental? Uma coisa geral assim pra gente poder abordar também outras coisas ta? Pode ser isso, saúde mental de uma forma geral?

(Todos os integrantes do grupo sinalizam que sim)

Mariana: Tem um caso agora na minha família...Meu tio já teve depressão porque ele separou da mulher...aí ele começou com depressão e depois parou, aí ele começou tipo assim, fazer tudo o que ele não tinha feito só que era só pra demonstrar que tava feliz, e de uns dias pra cá ele começou a escutar coisa, entendeu?.Aí hoje ele ta internado...

JP: Eu to percebendo que de alguma forma essa assunto afeta o cotidiano de vocês. Seja porque vocês já ouviram falar, ou já viram na televisão, ou têm alguns casos familiares que tem a ver com isso. No caso de vocês (direcionando-me aos que não manifestaram opinião), vocês se interessam também por esse assunto?

Sâmia: Me interesso. Na minha família também tem. (Os demais sinalizam com a cabeça que sim).

Neste episódio, é possível explorar a intertextualidade entre a fala dos jovens e outras produções discursivas. Dois pontos constavam entre as justificativas dos jovens para inclusão do tema em pauta: tanto questões como “depressão”, “esquizofrenia” e “síndrome do pânico” têm aparecido mais na mídia, como algumas delas se vivificam no contexto familiar de boa parte dos participantes.

Curioso perceber que, naquele episódio, os enunciados dos participantes trouxeram à tona seus próprios dados biográficos, pondo em destaque as vozes dos próprios jovens frente a tantas outras vozes que eles trazem consigo. Em vários trechos desse episódio, principalmente a partir das falas de Mariana e Laura sobre seus contextos familiares, as vozes dos jovens estabelecem pontes entre suas vivências fora da escola e a seleção do tema “Saúde Mental”.

No entanto, questões concernentes aos processos de saúde/doença mental também se inscreviam na dinâmica escolar, como tive a oportunidade de observar em alguns momentos de minha inserção na escola. A presença de tal tema na escola ficou evidente, por exemplo, em uma ocasião, relatada em diário de campo, em que eu conversava, na sala dos professores, com quatro docentes e a diretora:

Ainda na sala dos professores, dentro dos temas de saúde que os quatro professores e a diretora articularam com a realidade da escola, estavam: alimentação saudável e transtornos de pânico[...]. Nessa conversa, os professores mostraram curiosidade pelo que a psicologia teria a dizer sobre questões como a saúde mental. Segundo um dos professores e a diretora, havia um aluno na escola com transtorno do pânico e a instituição ainda não se sentia segura para lidar com situações deste tipo. Os dois me falaram que, no dia anterior, um outro aluno surtara de ataque de pânico – segundo eles - e teve de ser liberado mais cedo. Na conversa, tive a informação de que o aluno é acompanhado pelo CAPS que cobre a Secretaria Executiva Regional da escola e toma medicação prescrita pelo psiquiatra daquele serviço. Nossa conversa teve fim com algumas discussões sobre como a escola pode lidar com essas questões que atravessam seu cotidiano. Conversamos também sobre algumas parcerias que a escola já realizou acerca disso. Sobre isso, a diretora falou que alguns profissionais do CAPS AD já vieram na escola e realizaram palestras com os alunos (DIÁRIO DE CAMPO, 31/08/09).

Além de todos esses pontos, considero que a escolha desse tema pelos jovens - e inclusive o fato de ele ter sido o primeiro a ser mencionado – estava relacionada à outra questão: à minha posição de psicólogo no grupo, uma vez que a psicologia, corriqueiramente, é associada a esses assuntos.

Inclusive, no transcorrer da minha inserção na escola, houve situações em que a minha presença logo foi vinculada explicitamente ao signo da “loucura” pelos alunos. Um dos trechos de um diário de campo, que relata um momento em que realizei observações em uma sala de aula, dá pistas a esse respeito:

Nos primeiros momentos do dia em que estive no 2ºA, além das brincadeiras dos alunos entre si, geralmente zombando uns dos outros, entrei fortemente em contato com a impressão - também compartilhada entre alguns professores - de que o psicólogo é aquele que cuida de “doido” e que, se está na escola, é pra avaliar a sanidade dos alunos ou realizar atendimento com determinados indivíduos. Era estranho pra eles quando eu lhes esclarecia que meus propósitos ali eram outros. Antes disso, quando me apresentei nas salas como pesquisador da área da psicologia, sempre havia alunos, em tom de brincadeira, que soltava a seguinte frase, que, às vezes, provocava risos entre os demais: “Psicólogo?? Vixe, tá cheio de gente aqui na sala pra tu atender, ta cheio de menino doido aqui”. (DIÁRIO DE CAMPO, 02/09/09)

Esta minha interpretação acerca da relação entre a escolha do tema em destaque e o meu lugar de psicólogo encontra respaldo teórico na perspectiva dialógica a partir da qual Bakhtin (2002) trata o processo enunciativo. Segundo tal perspectiva, a comunicação

discursiva é sempre orientada socialmente (JOBIM E SOUZA; CASTRO, 1997, BAKHTIN, 2002). Jobim e Souza e Castro (1997, p. 92) elucidam bem este ponto de vista:

A palavra e o gesto da mão, a expressão do rosto e a posição do corpo estão igualmente organizados pela orientação social dos interlocutores. [...] Além da importância do contexto social imediato a partir do qual o enunciado emerge, é, portanto, fundamental destacar as outras ligações sociais mais amplas, mais duráveis, mais sólidas que permeiam as relações interativas entre as pessoas. Para qualquer que seja, mesmo quando este se refere ao que há de mais pessoal e mais íntimo, é preciso levar em conta o lugar social e a consciência de classe dos sujeitos envolvidos no diálogo.

O segundo tema que surgiu foi uma sugestão de Camila: “Drogas”. Segue o episódio que evidencia a forma como ele reverbera no grupo. Despertou-me atenção o fato de que muitos dos participantes faziam questão de registrar que aquele tema fazia parte de suas relações de modo indireto, e não porque o vivenciavam diretamente.

JP: Um outro assunto? (olhando para o grupo) Camila: Drogas (imediatamente à pergunta).

JP: Drogas? Mas vocês também têm interesse de discutir sobre isso (dirigindo-se aos demais)?

(Pedro ri e olha para Sâmia). Pedro: Pode ser (ainda rindo).

JP: Não? Direcionando-se a Pedro e Sâmia. (Sâmia, Mariana e Douglas respondem que sim). Pedro: Pode ser (agora sério).

JP: A Camila propôs o assunto sobre drogas, tem a ver com saúde? (Vários respondem, ao mesmo tempo, que tem a ver).

JP: É do cotidiano de vocês?

(Vários respondem, ao mesmo tempo, que é). (Pedro e Camila riem).

Pedro: Não necessariamente (rindo, como se se referindo à vida pessoal) JP: Não necessariamente (risos)?

Camila: É porque, assim, não é que a gente use, mas que tá no nosso dia a dia (rindo).

Laura: Tem uma amiga minha que usa.

JP: É, tá no nosso cotidiano não significa que tá na nossa vida pessoal necessariamente.

Pedro: É, até porque eu acho que todo mundo aqui conhece alguma pessoa... Camila: Algum usuário (interrompendo Pedro)..

Sâmia: Eu conheço (olha e aponta, rindo, para Pedro). (Laura olha para Pedro e ri)

(Pedro ri também).

Outro aspecto que destaco deste episódio é que Pedro, com sua reação de riso à sugestão de Camila, parecia demonstrar, inicialmente, uma posição de desdém em relação ao tema, apesar de, como fez na escolha do tema anterior, argumentar em favor de sua permanência à medida que os demais participantes se colocavam na discussão. Curiosa também foi a forma como, no final do episódio, Sâmia e Laura posicionaram – sob ares de

brincadeira - Pedro na interação, como se, dentre os participantes, o assunto das drogas estivesse presente diretamente na vida do garoto.

Os discursos que emergiam me davam elementos para pensar que, desde a primeira oficina, aquele grupo se me apresentava como uma rede. Os próprios sujeitos, por sua vez, compunham-se como tal, visto que, além de suas próprias vozes, outras tantas se faziam presentes em seus discursos. Posto isso, nos parágrafos subsequentes, farei uma ressalva que servirá também para os demais exercícios analíticos que constituirão esta dissertação.

Através da perspectiva histórico-cultural e da filosofia bakhtiniana, os sujeitos se forjam como posições enunciativas nas relações sociais. Cabe, então, distinguir os sujeitos empíricos - os indivíduos participantes do grupo - e os sujeitos do discurso, cuja marca principal é a heterogeneidade decorrente do dialogismo e da polifonia das produções discursivas. Nesse sentido, as vozes do discurso não são as vozes dos sujeitos empíricos, tampouco o dialogismo a que se refere Bakhtin corresponde ao diálogo entre indivíduos.

Aliás, tal perspectiva bakhtiniana serve aos meus exercícios analíticos para dar conta da multiplicidade que caracteriza os processos de mediação nas interações daquele grupo e dos diferentes posicionamentos dos sujeitos – mesmo sendo o sujeito empírico um só. Logo, quando um jovem do grupo falava a fim de sugerir um tema ou argumentar em torno disso, diversas vozes falavam por ele simultaneamente, sendo que tais vozes poderiam ser identificadas nos enunciados e nas suas condições de produção.

Destarte, ao indicar que os enunciados dos jovens eram povoados por várias vozes sociais, vale também esclarecer que tais vozes foram aqui concebidas como as expressões de pontos de vista e visões de mundo que se presentificam nos enunciados, e não os sinais vocais auditivos emitidos pelos interlocutores empíricos (BRAIT, 2003). Portanto, em que medida os enunciados em torno da escolha do tema “Drogas” podem dar pistas acerca da atual condição juvenil no Brasil e das malhas cotidianas em que os participantes estão inseridos?

Num olhar mais geral, outras vozes juvenis ganhavam ressonância por meio dos enunciados dos participantes do grupo, uma vez que estes faziam coro com alguns dados da Pesquisa Perfil da Juventude Brasileira, de 2003. Segundo Abramo (2008, p. 58) os jovens que participaram da pesquisa responderam que, “[...] entre as piores coisas de ser jovem estão, com índice de citação muitos semelhantes, conviver com riscos (23% da amostra) [...] A convivência com riscos diz respeito sobretudo às drogas (17% citam este elemento)”.

Ainda de acordo com a mesma pesquisa, as Drogas são o terceiro problema que mais preocupa os jovens brasileiros, citado por 24% dos participantes (ABRAMO, 2008), ficando atrás somente dos temas violência/segurança e emprego/profissão, respectivamente.

Benzer Belgeler