Como sistema, o Direito está estruturado em uma unidade, delimitada pela norma fundamental ou norma-origem, que promove unidade e coesão ao ordenamento.
Para Tércio Sampaio Ferraz Júnior (2013), do ponto de vista pragmático, o sistema não se reduz a uma única unidade hierárquica, mas apresenta-se como uma estrutura circular de competências referidas mutuamente e dotada de coesão.
E para explicar essa relação mútua de competência, argumenta:
[...] O Supremo Tribunal Federal recebe do poder constituinte originário sua competência para determinar em última instância o sentido normativo das normas constitucionais. Desse modo, seus acórdãos são válidos, com base em uma norma constitucional de competência, configurando uma subordinação do STF ao poder constituinte originário. No entanto, como o STF pode determinar o sentido de validade da própria norma que lhe dá aquela competência, de certo modo, a validade da norma constitucional de competência do STF também depende de seus acórdãos (norma), configurando uma subordinação do poder constituinte originário ao STF. (FERRAZ JÚNIOR, 2013, p.157-158).
No sistema proposto, validade, imperatividade e a coesão do sistema estão correlacionados. A validade implica séries hierárquicas normativas, em que o cometimento de uma norma é imunizada pela outra. Essa série culmina na primeira norma (imputação). As ‘normas-origens’ são dotadas de império, a primeira da série. E como não guardam nenhuma relação com a norma anterior, não são válidas, mas imperativas. Ademais, as regras que permitem sua imperatividade são denominadas de regras estruturais do sistema ou regras de calibração. (FERRAZ JÚNIOR, 2013, p.159).
Na construção desta tese, aplicam-se os argumentos e a ideia de sistemas adotados por Tércio Sampaio Ferraz Júnior10 em relação à Constituição. O Supremo Tribunal Federal, ao julgar a Lei da Ficha Limpa, estaria realizando uma calibração do sistema e permitindo uma atualização da própria Constituição? Estaria autorizado pela Constituição a decidir com argumentos que poderiam acarretar uma contradição com o próprio Texto Constitucional?
Na teoria analisada por Tércio Sampaio Ferraz Júnior (FERRAZ JÚNIOR, 2013, p.162-163), o cometimento das normas (relação autoridade/sujeito) admite duas formas básicas: “a relação de sujeição-obrigação ou proibição e a relação de sujeição-permissão ou autorização”. O autor distingue: “a primeira é uma relação assimétrica, complementar. A segunda envolve uma pseudosimetria. Isto é, na permissão jurídica ocorre uma espécie de
libertas concessa. Ou seja, a relação autoridade/sujeito toma a forma de uma liberação, às vezes escondida sob o modo de um reconhecimento da liberdade.” (FERRAZ JÚNIOR, 2013, p.164).
O autor pondera ainda (2013):
É preciso considerar validade e imperatividade como conceitos diferentes, não redutíveis um ao outro, o conceito de ordenamento como um sistema que admite não uma, mas várias hierarquias, o que elimina a hipótese de uma única norma fundamental. [...] a posição pragmática é de que o sistema do ordenamento jurídico, não se reduzindo a uma (única) unidade hierárquica, não tem estrutura de pirâmide, mas estrutura circular de competências referidas mutuamente, dotado de coesão. (FERRAZ JÚNIOR, 2013, p.157).
Em sala de aula, Tércio Sampaio Ferraz Júnior complementou 11:
Os sistemas normativos se traduzem em sistemas comunicacionais com padrões de funcionamento próprios capazes de manter a relação, em todos os seus níveis, entre autoridade e sujeito. Tais padrões pressupõem mecanismos de calibração, como o termostato na geladeira, capazes de equilibrar situações adversas. Resumindo, estes calibradores são capazes de identificar uma norma-origem, mesmo que eventualmente esta norma, perante outros modelos de comparação de validade, não a eles se equipare integralmente, sem que isto signifique a sua exclusão sistêmica.
O autor explica que a expressão ‘regra de calibração’ provém da cibernética. São regras de regulagem ou ajustamento de um sistema (FERRAZ JÚNIOR, 2013, p.159). E prossegue:
Nossa hipótese é de que os ordenamentos ou sistemas normativos jurídicos são constituídos primariamente por normas (repertório do sistema) que guardam entre si relações de validade reguladas por regras de calibração (estrutura do sistema). Como sistema, eles atuam num meio ambiente, a vida social, que lhes impõe demandas (pede decisão de conflitos). Para essa atuação ou funcionamento, as normas têm de estar imunizadas contra a indiferença, o que ocorre pela constituição de séries hierárquicas de validade, que culminam em uma norma-origem. Quando, porém, uma série não dá conta das demandas, o sistema exige uma mudança de seu padrão de funcionamento, o que ocorre pela criação de nova norma-origem e, em consequência, de nova série hierárquica. O que regula essa criação e, portanto, a mudança de padrão, são suas regras de calibração. Graças a elas, o sistema muda de padrão, mas não se desintegra: continua funcionando. Essa mudança de padrão é dinâmica: o sistema vai de um padrão a outro, volta ao padrão anterior, adquire um novo, num processo de câmbios estruturais, cuja velocidade depende da flexibilidade de suas regras de calibração. Nesse sentido, alguns sistemas são mais rígidos, outros menos. No exemplo do Tribunal de Nuremberg, o valor de dever-ser se estabelecia para evitar desvio de poder: não deve ocorrer a represália descontrolada de vencedores contra vencidos, e o valor de ser se percebia na constatação de uma possível impunidade em face de normas existentes: sem julgamento, os criminosos nazistas ficariam impunes. Assim, o padrão de funcionamento do ordenamento penal internacional – padrão de legalidade, regulado pelo princípio nullum crimen – foi mudado para um padrão de legitimidade, regulado pelo princípio de exigências fundamentais de vida na sociedade internacional. Ambos os princípios são exemplos de regras de calibração de um ordenamento ou sistema normativo. (FERRAZ JÚNIOR, 2013, p.60).
Por derradeiro, o autor compara o sistema a um jogo de futebol no qual não só os jogadores, a bola e os árbitros se movimentam, mas também as linhas do campo e as traves.
No controle de constitucionalidade da Lei da Ficha Limpa, o Supremo Tribunal Federal não alterou as linhas do campo e as traves, mas alterou as regras e a própria essência do esporte: a prática do futebol foi substituída pela prática do handebol.