Em uma leitura histórico-cultural acerca dos processos criativos, Neves- Pereira (2007a) elucida alguns aspectos essenciais para a nossa compreensão acerca da criatividade. A autora apresenta alguns posicionamentos teóricos de Vygotsky, que ressignificaram as abordagens nesse campo, uma vez que as concepções oferecidas pela Psicologia ocidental tendiam a compreender o ato criativo com certo determinismo biológico. Vigotsky e colaboradores divergiam dessas concepções ao enunciar a existência de uma relação de interdependência entre cultura e criatividade. Segundo Vigotsky (1991), o desenvolvimento humano deve ser compreendido de forma dialética, atribuindo um importante papel ao contexto sócio-histórico-cultural na construção dos sujeitos. As funções psicológicas superiores procedem desse contexto, diferindo o ser humano dos animais. Destarte, o processo de desenvolvimento ocorre primeiramente no plano social (interpsicológico) e, posteriormente, no plano psicológico (intrapsicológico). Vygotsky (1991, p. 33) considera, portanto, que o desenvolvimento do homem se constitui
[...] um processo dialético complexo, multifacetado, marcado por um esquema de periodicidade, por desproporções de funções, metamorfoses, conversões qualitativas, combinações complexas, processos de evolução e involução, interação de fatores externos e internos e busca constante de adaptação ao meio.
Ainda nessa vertente, Neves-Pereira (2007a, p.71) afiança: “o domínio sócio-histórico-cultural passa a ser o palco de onde surge a criatividade, a partir da interação entre o sujeito e o meio, proporcionada pelas linhas do desenvolvimento e da aprendizagem”. A despeito de Vigotsky ter fornecido em seus trabalhos relevantes contribuições acerca da criatividade, não formulou um modelo teórico estruturado que configure esse fenômeno (NEVES-PEREIRA, 2007a). Na visão da
autora, as propostas de programas para o desenvolvimento do potencial criativo necessitam considerar - para além da dimensão cognitiva do sujeito - as dimensões da motivação, afetividade e, sobretudo, sua dimensão personológica construída em contexto sócio-histórico-cultural.
Gardner (2001) também assume uma abordagem cultural da criatividade em sua atual definição de inteligência, ao incluir a produção criativa como algo importante nesse processo:
Agora conceituo inteligência como um potencial biopsicológico para processar informações que pode ser ativado num cenário cultural para solucionar problemas ou criar produtos que sejam valorizados numa cultura. [...] São potenciais neurais presumivelmente – que poderão ou não ser ativados, dependendo dos valores da cultura especifica, das oportunidades disponíveis nesta cultura e das decisões tomadas por indivíduos e/ou familiares, seus professores e outros (GARDNER, 2001, p. 47).
Alencar (2007b), ao apresentar aspectos relevantes, em sua trajetória nas ultimas três décadas, como pesquisadora, acerca da criatividade no contexto educacional, explicita dentre diversas contribuições seu modelo, conforme elucida a Figura 4.
Figura 4 - Modelo para desenvolvimento da criatividade
Fonte: Alencar (2007b, p. 46).
Esse modelo atua como norteador dos programas de criatividade desenvolvidos pela autora, sendo sua construção fundamentada nos resultados de
seus estudos, em que foi observada a prevalência de práticas pedagógicas inibidoras da criatividade. Os fatores aí considerados enfatizam a promoção das habilidades do pensamento criativo, tais como a fluência, flexibilidade e originalidade, bem como as características de personalidade que potencializam a capacidade criativa e a construção de um ambiente psicológico favorável a essas manifestações. Os aspectos que o compõem coadunam, segundo Alencar (2007b, p. 46), com os seguintes princípios:
[...] confiança na capacidade e competência de cada pessoa; apoio à expressão de novas ideias; provisão de incentivos à produção criativa; implementação de atividades que ofereçam desafios e oportunidades de atuação criativa.
Quanto às diferentes contribuições concernentes com o desenvolvimento do potencial criativo, as pesquisadoras Virgolim, Fleith e Neves-Pereira (2000) relatam sua experiência na implementação de Programas de Criatividade, demonstrando resultados positivos e promissores, seja nos programas de enriquecimento escolar em sala de recursos, voltadas ao atendimento de alunos com altas habilidades/superdotação, seja para o desenvolvimento de programas de formação de professores e psicólogos em contexto escolar.
Dessa maneira,
Percebemos claramente que os exercícios em criatividade propiciaram uma abertura em sala de aula para a expressão do pensamento divergente, influindo no aumento da autoestima dos alunos, na expressão do humor e, principalmente, na satisfação do aluno com o sistema escolar (VIRGOLIM; FLEITH; NEVES-PEREIRA, 2000, p. 10).
As autoras nos instigam a transformarmos a escola em um espaço prazeroso e transformador, ao oferecermos condições para o desenvolvimento das habilidades do pensamento criativo por meio de estratégias já testadas e validadas nesse contexto. A pesquisadora Wechsler (2002) relata o resultado de diferentes pesquisas internacionais e nacionais em todos os níveis de ensino, que evidenciam o papel crucial da criatividade no desenvolvimento da motivação para aprender. Destacando a relação direta entre a criatividade e a motivação intrínseca
do sujeito, lembra que a criatividade pode ser inserida em qualquer área do currículo. Devido aos efeitos positivos de um ensino mais criativo, a autora recomenda a inserção desse tema como disciplina nos cursos de formação docente. Virgolim (2012, p. 102) concorda com Wechsler (2002), ao afiançar que pesquisas têm indicado “[...] que a criatividade e o envolvimento com a tarefa podem ser modificados e influenciados positivamente por experiências educacionais bem planejadas”.
Nessa direção, Fleith (2011, p. 46 e 47) tendo como referenciais estudos realizados por Alencar e Fleith (2003), Cropley (1997) e Neves-Pereira (2007b) expõe diversas orientações, para que o professor possa desenvolver práticas pedagógicas promotoras do potencial criativo, no contexto escolar:
a) Dar ao aluno oportunidade de escolha, levando em consideração seus interesses e habilidades; b) Cultivar o senso de humor em sala de aula; c) Apresentar indivíduos criativos como modelos; d) Fornecer ao aluno
feedback informativo sobre seu desempenho; e) Dar tempo ao aluno para
pensar e desenvolver suas ideias; f) Demonstrar entusiasmo pela atividade docente e conteúdo que ministra; g) Variar as tarefas propostas aos alunos, as técnicas instrucionais e formas de avaliação; h) Prover oportunidades para que o aluno se conscientize de seu potencial criativo; i) Encorajar o aluno a aprender de forma independente; j) Oferecer oportunidades ao aluno para trabalhar com uma diversidade de materiais e sob diferentes condições; k) Promover a autoavaliação por parte dos alunos; l) Ajudar os alunos a aprenderem com a frustração e o fracasso de tal forma que tenham coragem para tentar novamente; m) Adotar bibliografias sobre criatividade para embasar a construção de práticas pedagógicas; n) Construir metodologias de ensino inovadoras e originais.
Acreditamos que a criatividade, compreendida como um traço marcante nos indivíduos com altas habilidades/superdotação, ao ser valorizada e estimulada no contexto escolar, poderá contribuir, significativamente, para que os potenciais possam emergir e se desenvolver de forma harmoniosa (NEVES-PEREIRA, 2007a; VIRGOLIM; FLEITH; NEVES-PEREIRA, 2000; WECHSLER, 2002).