Neste terceiro momento de estágio, ao regressar ao contexto do Estágio I, não foi possível recolher notas de campo no momento em que as situações eram observadas, pelo que as notas de campo referentes a tais situações foram reconstruídas à posteriori. Inicialmente reparei de imediato que as regras já se encontravam expostas na sala, e que as mesmas haviam sido construídas e ilustradas pelas crianças e escritas por um adulto
Ao longo do estágio, as minhas intervenções ocorreram em função do momento, à semelhança do estágio em creche. No entanto, foi possível observar que as regras além de estarem interiorizadas haviam sido igualmente compreendidas, mas também, em comparação ao período anterior, já existia uma grande cooperação e espírito de entre ajuda entre as crianças mais velhas em relação às mais novas do grupo, nomeadamente nos momentos da refeição; nesses momentos foi possível observar diversas vezes, as crianças mais velhas a ajudarem as mais novas sem quaisquer indicações do adulto, tal como se encontra descrito na nota de campo que apresento em seguida.
À hora do lanche da tarde reparei que “G” partia um pão em pequenos pedaços.
Aproximei-me e perguntei “Que estás a fazer “G”?”, ao qual a criança respondeu
“Estou a partir o pão para o “A” comer, assim é mais fácil não é “A”?”
Página 77 de 125 Situações de cooperação foram também observadas dentro da sala, onde foi possível observar que as crianças resolviam os seus conflitos sozinhas, recorrendo ao adulto apenas quando não conseguiam encontrar alguma solução.
A nota de campo que apresento seguidamente descreve um momento em que, após o conflito, algumas crianças recorreram à educadora de modo a encontrar uma solução. “M”, “R”, “D” e “G” brincam sempre juntos. Hoje o local escolhido na sala foi a área da garagem. “M” realizava, sozinho, uma construção com “legos” em cima de
um armário com uma altura que não ultrapassava o seu peito. No chão “R”, “D” e
“G” brincavam com carrinhos e outras peças, chamando por “M” para que se juntasse a eles. Recusando “G” levantou-se e destruiu a construção de “M”, em
resposta “M” bateu-lhe.
Após este incidente, as quatro crianças dirigirem-se à educadora e tentam explicar o que aconteceu, falando todas ao mesmo tempo. A educadora pede que falem uma de cada vez e ouve o que cada uma delas tem a dizer. Em seguida pergunta ao pequeno grupo se consideram que tiveram um bom comportamento e, perante a resposta diz
“Então conversem um pouco para decidirem o que vão fazer”. “M”- “não devias ter “estuido” as minhas coisas”
“G” –“mas nós chamamos e tu não vinhas brincar”.
Em seguida a educadora procura referir-se às emoções das crianças, perguntando
“M como te sentiste quando G destruir a tua construção?; e tu G como te sentiste
quando M te bateu? Conversem mais um pouco e digam um ao outro o que sentiram”
“M” –“eu fiquei triste e zangado, não queria brincar” “G” –“e eu tambémfiquei triste”
Educadora –“e como vamos resolver isto?”
“M” e “G” –“vamos pedir desculpas”
Em seguida, “R” que observava a situação ao lado de “M” e “G” referiu “e não pode voltar a acontecer”
Juntos, voltaram para a área da garagem e continuaram a brincar.
Página 78 de 125 Tal como é referido nas OCEPE
“o/a educador/a deve apoiar a compreensão que as crianças têm, desde muito cedo, dos sentimentos, intenções e emoções do outro, facilitando o desenvolvimento da compreensão do que os outros pensam, sentem e desejam. Cabe também ao/à educador/a, sem situações de conflito, apoiar a explicitação e aceitação dos diferentes pontos de vista, favorecendo a negociação e a resolução conjunta do problema” (2016:25).
Situações como a referida ocorrem principalmente quando uma ou mais crianças desejam impor as suas vontades, não respeitando as vontades de outra. Apesar de a intervenção referida ter sido guiada pela educadora cooperante considerei-a muito importante para a minha aprendizagem e crescimento profissional, pois, neste contexto, observei que a educadora respeitava cada uma das partes cumprindo os princípios aludidos nas OCEP, mostrando ainda às crianças que poderiam receber todo o seu apoio mas, ao mesmo tempo garantindo que soubessem como agir em situações como a apresentada.
Penso que, pelo facto de esta ser a ideia transmitida ao grupo pela educadora e equipa pedagógica, as brincadeiras cooperativas eram diariamente observadas ao longo deste momento de estágio.
Como já havia referido anteriormente, à entrada da sala encontravam-se algumas regras expostas, sendo elas; “Na escola somos todos amigos, podemos dar abracinhos, beijinhos e brincar juntos; Conversamos para nos entendermos; Os brinquedos de casa guardamos na mochila e brincamos no recreio; Partilhamos os brinquedos; Na roda sentamos com as perninhas à chinês, estamos com atenção, ouvimos os amigos; Brincamos em todas as áreas mas temos que arrumar; Só podemos trocar de área se a área não estiver cheia; Podemos trocar de área mas primeiro arrumamos um bocadinho e combinamos com os adultos; Corremos e jogamos à bola no recreio; No escorrega desce um menino de cada vez e não fazemos cambalhotas”.
Ao ler as regras expostas, numa primeira impressão, considerei que a linguagem utilizada era por vezes confusa e pouco articulada; no entanto, rapidamente percebi
Página 79 de 125 que aquelas regras se encontravam escritas exatamente do modo como haviam sido enunciadas pelas crianças.
A meu ver é algo bastante importante de referir, pelo facto de que ao longo do estágio foi possível observar o cumprimento das regras por parte das crianças, com exceção da regra “Na roda sentamos com as perninhas à chinês, estamos com atenção, ouvimos os amigos” que, para uma criança representavam uma enorme dificuldade pois a mesma sentia grande necessidade em intervir sempre que surgisse alguma oportunidade.
Embora o comportamento desta criança por vezes perturbasse o restante grupo, era notório que a sua participação era relevante, como tal, o adulto que conduzia o momento da roda pedia a essa criança “respira um pouco, senta-te como os outros meninos e põe o dedo no ar, mas não te esqueças do que queres dizer que esta quase a chegar a tua vez”.
No que diz respeito à resolução de conflitos, não tive a oportunidade de intervir em momento algum, pois, como já havia referido, na maior parte das vezes, as crianças encontravam soluções sozinhas, e quando tal não acontecia recorriam à educadora ou a alguma das auxiliares da sala.