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Estética vem do grego (aisihésis) e significa sensação, sentido e sensibilidade. Comumente, vemos esse conceito relacionado à beleza, ou contemplação do belo, mas, Estética é a capacidade de compreender o mundo com base nos sentidos; ela possui como objeto a arte. Segundo o Dicionário de Filosofia (ABBAGNANO, 1966 p. 452a),

Estética (do grego α ή ou aisthésis: percepção, sensação) é um ramo da filosofia que tem por objeto o estudo da natureza do belo e dos fundamentos da arte.

Ela estuda o julgamento e a percepção do que é considerado belo, a produção das emoções pelos fenómenos estéticos, bem como: as diferentes formas de arte e da técnica artística; a ideia de obra de arte e de criação; a relação entre matérias e formas nas artes. Por outro lado, a estética também pode ocupar-se do sublime, ou da privação da beleza, ou seja, o que pode ser considerado feio, ou até mesmo ridículo.

A primeira noção de estética nos remete a natureza, ao sensível e ao empírico. Como disciplina filosófica, no Ocidente, ela surge apenas no século XVIII, especificamente em 1750 com o filósofo alemão Alexander Gottlieb Baumgarten, quando este publicou a obra

Estética, com a finalidade de analisar a formação do gosto, tornando-a conhecida como a Ciência filosófica do belo.

Muito antes de Baumgarten sistematizar a estética, porém, a reflexão filosófica sobre esse assunto é muito anterior, remontando à Antiguidade Clássica. Na Grécia antiga, a reflexão estética estava associada à natureza e a arte à vida. Tudo o que era produzido era arte, desde as edificações (templos) até os utensílios (vasos, ânforas, copos, pratos etc) e tinham utilização na vida diária. Efetivamente, a Estética não podia ser um campo de estudo isolado, mas estaria intimamente relacionado com a Lógica e a Ética, numa visão integral. O belo seria também moralmente bom e verdadeiro. Destacam-se nesse período as obras de Platão e Aristóteles.

Enquanto para Platão a beleza existe em si, separada do mundo sensível, na concepção de Aristóteles, o belo não pode ser desligado do ser humano. O belo para Platão estava no plano do ideal, era a própria ideia de perfeição, estava plenamente completo, restando ao mundo sensível apenas a imitação ou a cópia desta beleza perfeita; logo, a beleza de algo não passa de uma cópia da verdadeira beleza que não pertence a este mundo. Já Aristóteles concebeu o belo com arrimo na realidade sensível, pois, deixando este de ser algo abstrato para se tornar concreto, o belo se materializa; o belo é uma criação humana, e resulta de um perfeito equilíbrio de uma série de elementos. Jimenez (1999, p. 210) elucida melhor as diferenças entre Platão e Aristóteles quando anota:

[...] uma teoria como a de Aristóteles (384-322), aluno rebelde de Platão, que toma a direção oposta à da teoria das Ideias e se pronuncia resolutamente em favor da imitação, teria podido impor-se, ao longo da tradição, como um feliz contrapeso ao rigor ascético da doutrina platônica. Aristóteles não somente recusa a separação entre o mundo inteligível e o mundo sensível, mas associa o prazer à imitação artística da natureza.

O naturalismo, o desejo de representar fielmente a realidade, marcou a arte desse período. A arte, contudo, foi muito além da mera representação da realidade, ela quer ser a realidade. O naturalismo dividiu-se nesse período, em duas linhas: o realismo – sob o qual o artista intenta mostrar o mundo tal como ele se apresenta, nem melhor, nem pior; e o idealismo, na busca de retratar o mundo em suas condições favoráveis, ou do modo como gostaríamos que fosse. Sobre essa imitação da realidade, Jimenez (1999, p. 226) acrescenta, dizendo que

[...] durante séculos, a imitação se transforma em um dogma coercitivo. Ela se torna mesmo um princípio acadêmico que impõe, até o século XIX, uma verdadeira ideologia da representação baseada no reconhecimento, sobretudo nas artes plásticas: somente valem as obras "figurativas", aquelas nas quais se reconhecem o objeto ou o sujeito representado de maneira "natural" ou "realista".

Na Idade Média, identifica-se a beleza com Deus, sendo as coisas belas feitas à sua imagem e por sua inspiração. No mundo ocidental, o Cristianismo ditou o conceito Deus, associando-o com beleza, bem e verdade. A obra de arte passou a ser vista como símbolo que manifesta a natureza divina e canaliza a devoção do ser humano para Deus. A atitude naturalista deu lugar à estilização, à simplificação dos traços, pois respondia melhor à necessidade de universalização dos princípios do Cristianismo. Merecem destaque nesse período as obras de Agostinho e Tomás de Aquino.

Em Agostinho, a beleza presente no mundo é um todo harmonioso, pelo qual podemos chegar a Deus; ela não é mais um reflexo da beleza de Deus, mas um instrumento que permite à pessoa conhecer a Beleza Suprema. Tomás de Aquino associou a beleza ao bem. Para ele existiam três condições para a beleza: integridade ou perfeição, proporção ou harmonia, claridade ou luminosidade. Na perspectiva de Tomás de Aquino,

Criar é produzir alguma coisa a partir de nada". Tal afirmativa (...) não suscitaria, em nossos dias, nenhuma contestação especial. Algumas pessoas poderiam mesmo censurar-lhe uma certa banalidade. Contudo, ela prova o fato essencial de que nesse período da Idade Média a criação era pensada. Ao contrário da Antiguidade greco- latina, em que o conceito de criação não era concebível, os filósofos e os teólogos do século XIII refletem sobre a noção de origem, de começo, de princípio primeiro de todas as coisas. (JIMENEZ, 1999, p. 33 e 34).

No final do século XV, quando o Período Medieval entra em declínio, iniciou-se um movimento cultural na Itália, que se disseminou por toda a Europa nos séculos XVI e XVII, denominado Renascimento. Nessa fase, a arte saiu da tutela da igreja, proporcionando que os artistas adquirissem a dimensão de verdadeiros criadores (Humanismo4). Começou a se desenvolver uma concepção elitista da obra da obra de arte: a verdadeira arte é aquela que foi criada unicamente para o nosso deleite estético e não possui qualquer utilidade. O trabalho do artista foi alavancado para o de trabalho intelectual e a arte passou a ter outro lugar na cultura.

As artes foram buscar inspiração no naturalismo da Antiguidade Clássica, com uma diferença: o naturalismo renascentista lançou mão da Ciência empírica de sua época, da Matemática, da Anatomia etc. A arte, além de ser a representação da natureza, é criação da inteligência (da razão) e por isso as obras conseguiam atingir um realismo maior nas representações. Assim, “a criação não é mais somente divina, mas depende de uma ação humana”. (JIMEσEZ, 1999, p. 32).

Nesse período, procurou-se definir as regras para atingir a perfeição na arte e as academias que se difundiram a partir do século XVII, velaram pelo seu estudo e aplicação garantindo a correta aplicação dos cânones artísticos.

No final do século XVII e durante o século XVIII, o Ocidente passou por um período de grande revolução cultural e política. Enquanto o Iluminismo, movimento cultural centrado na razão, celebrava o indivíduo, o progresso e o conhecimento racional, a Revolução Francesa criava expectativa com relação aos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade. Nesse período, a Estética começou, a pensar as manifestações artísticas na categoria do sujeito, como modelo de subjetividade do homem burguês, conferindo-lhe autonomia.

O Século das Luzes, como ficou conhecido, com suas ideias de liberdade e de uso exacerbado da razão, contudo, não conseguiu trazer a transformação política tão desejada. A Revolução Francesa desaguou, “no fim das contas, na violência e na desordem do Terror” (ANDRADE, 2007, p. 2), e o uso da razão gerou uma “cultura decadente que não vê o homem em sua totalidade com o sensível e natural”. (LτPES, 2012, p. 1κθ). Isso fez com que

4 É uma perspectiva comum a uma grande variedade de posturas éticas que atribuem maior importância à

dignidade, aspirações e capacidades humanas, particularmente à racionalidade. Embora a palavra possa ter diversos sentidos, o significado filosófico essencial destaca-se por contraposição ao apelo ao sobrenatural ou a uma autoridade superior.

pensadores começassem a desconfiar dos ideais iluministas, como bem explica Jimenez (1999, p. 58 e 59)

A partir da metade do século XVII, surge a suspeita de que a razão não é una, absoluta, e de que não constitui a única fonte de conhecimento. No sentido inverso, suspeita-se que o sentimento não seja totalmente engano ou desregramento dos sentidos, mesmo se for confundido com a sensibilidade.

Merece destaque a obra de Immanuel Kant que atribuirá ao sentimento estético às qualidades de desinteresse e de universalidade (ele foi o primeiro a definir o conceito de belo e do sentimento que ele provoca); e a obra de Friedrich Schiller, que será explicitada mais adiante.

Na obra intitulada Crítica do Juízo, Kant, em 1790, inaugura a Estética filosófica moderna. O Filósofo separa sensibilidade e entendimento, mostrando que a sensibilidade é a capacidade de se exprimir passivamente afetado pelas coisas por intermédio dos sentidos, ou das sensações, não possuindo relação nem com o pensamento, tampouco com a experiência; e o entendimento, é a faculdade de produzir pensamentos, e, por sua vez, não é sensível. A estética kantiana mostra que, para algo ser belo, este tem que gerar em nós satisfação desinteressada, não dependendo de um conceito, nem de uma utilidade. É belo porque simplesmente agrada. A essa capacidade de julgar o que é ou não belo, Kant chamou de “julgamento5de gosto”, que é exclusivamente de ordem subjetiva e se dá no sensível. Jimenez

(1999, p. 128) nos ajuda a compreender melhor a estética kantiana quando diz que

[...] as belezas livres nada significam, não representam nada, não se referem a nenhum objeto, a nenhum conceito, pelo menos segundo Kant. Não me pergunto se são perfeitos ou não, quando os aprecio, meu juízo de gosto é "puro" e não está maculado por nenhuma ideia de "fim".

Desta forma Kant estava separando a Estética, da Lógica e da Ética (contrariando a Estética clássica grega, harmônica e interligada) e diferencia aquilo que é de juízo estético, daquilo que é de juízo moral. A Estética kantiana também é chamada de Estética formalista pelo fato de relacionar o belo à sensação que as formas causam em contraste com as sensações. Essa estética influenciou muitos escritores e filósofos do século XIX e XX.

5 Para Kant, significa experiências que resultam em uma afirmação sobre algo ou, mais genericamente, a

Durante o século XIX, a arte passou por grandes mudanças. Muitos artistas romperam com as normas e convenções do academismo, abrindo caminho para o que chamamos de arte moderna e com ela múltiplas correntes estéticas, merecendo destaque o Realismo e o Romantismo. Sobre esse período, Jimenez (1999, p. 25) acrescenta que o século XIX, “graças à explosão romântica, concretiza a recente insurreição contra as Luzes e a Razão, é também o século de uma revolução industrial que inicia o desenvolvimento das sociedades modernas baseadas no progresso tecnológico”.

O Realismo, conhecido também como a arte de manifesto, defende o envolvimento da arte nos combates sociais. O artista começa a analisar a realidade por intermédio da razão, situando de lado o subjetivismo (Kant) e abrindo espaço para a objetividade na arte. Merece destaque a obra de Gustave Courbet.

O Romantismo busca a singularidade e a totalidade, isto é, ver cada singularidade em seu contexto geral, cada ser humano na paisagem social em que está inserido. Se na Antiguidade Clássica, a arte buscava um ideal harmônico, a arte romântica anseia pela contradição entre o ser humano e a sociedade. A liberdade é um dos principais conceitos da Estética romântica, exatamente pela dificuldade de o romântico se ater a regras ou imposições. Destacamos Schlegel, Schelling e Schiller, esse último como figura central desta tese e, por isso, foi analisado com detalhes separadamente.

Para os românticos, de um modo geral, a educação tinha um papel decisivo para o ser humano, o de formar, indo muito além da educação formal, do ambiente escolar. Nesse sentido, os românticos também buscavam uma revolução por meio da Filosofia e da Arte, com a finalidade de formar o ser humano para a liberdade de refletir sobre as coisas em sua volta.

Eles eram radialmente contra ao pensamento fragmentado, resultante do projeto iluminista, tornando-se esse o principal problema que os românticos tencionavam solucionar. Em uma época em que o modelo clássico grego era o ideal a ser alcançado, por meio da imitação, os românticos queriam romper com ele para propor algo que fosse fruto da originalidade e autonomia de seu tempo. Como bem nos esclarece Andrade (2011, p. 76) “sonhamos com a construção da cultura do nosso tempo, com a nossa formação. Desejamos autonomia, dar a nós a nossa própria lei, de nossa época, ao invés de tomá-la emprestada”.

Esse rompimento proposto pelos românticos, contudo, não significava recusa total ao que foi feito na Antiguidade Clássica, mas de olhar para eles, reconhecendo a sua importância histórica, para poder fazer o novo. A confiança cega nas regras do classicismo grego, por melhor que elas possam ser, poderia provocar um engessamento na formação do ser humano moderno.

Era preciso ter como referência outros preceitos que não fossem ancorados nos antigos gregos, nem em tradições universais, mas nas circunstancias locais, pois, longe de ser um modelo estável, o classicismo é fluido e, por isso, não deveria ser copiado e sim observado, como forma de expressão cultural exemplar que muito tem a nos ensinar. “Imitar os antigos seria retomá-los, mas esta retomada jamais reproduz apenas o que já foi. Ela traz o que ali não foi”. (AσDRADE, 2011, p. κ2). Andrade (2011, ικ) ressalta que,

Buscando as regras antigas para promover a educação estética moderna, por confiar serem elas universais e atemporais, esquece-se que, por mais elevadas que sejam foram criadas em uma época específica, a ela pertencendo. Seria preciso, assim, achar a forma originalmente moderna para tratar dos temas modernos. A educação, nesses termos, deixa de ser algo estanque para tornar-se dinâmico e inacabado, algo em constante estado de trânsito. Não existe perfeição, clareza completa, compreensão total dos fenômenos, tudo é parcial.

Essa estética romântica tem como característica a constante incompletude e convida o sujeito a sair da sua zona de conforto para produzir, pois, se o conhecimento não está pronto, sempre existe a possibilidade de um novo aprendizado de outro saber. Logo, o processo educativo para os românticos só pode ser possível se “o mestre disciplinasse a sério o seu discípulo, mas também lhe deixasse, no suor do seu rosto, uma base sólida como herança, sobre a qual o seguidor devesse então avançar sempre mais, com grandeza e audácia, para finalmente movimentar-se com liberdade e habilidade nas mais orgulhosas alturas”. (SCHLEGEL, 1994, 35).

No século XX, podemos perceber que a produção artística passou por mais rupturas e importantes mudanças no próprio entendimento do que é arte. O domínio de novas manifestações criativas (artes decorativas, a arte urbana, etc) as novas tecnologias (fotografia, cinema, radio etc) desencantaram as Belas Artes, possibilitando um alargamento no conceito de arte. Corroborando essa ideia, Jimenez (1999, p. 182 e 183) entende que

[...] o sonho grego murchou e perdeu o viço, mas permanece o frescor do presente; a arte romântica não mais existe, mas a arte moderna desponta e com ela a liberdade infinita de escolher segundo a própria subjetividade e de fazer tábula rasa do passado: "O apego a um conteúdo particular e a um modo de expressão em relação a esse conteúdo tornou-se para o artista moderno uma coisa do passado e a própria arte tornou-se um instrumento livre que ele pode aplicar, na medida de seus dons técnicos, a qualquer conteúdo seja de que natureza for.

As categorias estéticas são desconstituídas e contestadas, as fronteiras entre as artes tornam-se tênue, assumindo inclusive a forma de produto. Na nova contextura então desenhada, tudo pode ser apreciado esteticamente, pois tudo pode ser arte, inclusive as histórias em quadrinhos e a comida.

Benzer Belgeler