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30 EYLÜL 2015 TARİHİNDE SONA EREN DOKUZ AYLIK ARA DÖNEME AİT ÖZET FİNANSAL BİLGİLERE İLİŞKİN AÇIKLAYICI DİPNOTLAR

Quem chega pela primeira vez ao Museu do Ceará certamente não deixará de admirar o imponente prédio de sua atual sede54. Por fora, o Palacete Senador Alencar se destaca de seu entorno pela grandiosidade e beleza de sua construção, datada do século XIX (ver figura 5). Por dentro, encanta pelos detalhes, pelas grandes janelas, as colunas em arco e as escadarias (ver figura 6). A imponência do prédio é expressa no deslumbramento experimentado por Dorinha quando de sua primeira visita ao local, narrada no livreto As aventuras de Dorinha no Museu do Ceará (2001):

Ia passando na frente daquela casa enorme e levei até um susto. Era alta, com portas e janelas muito grandes. Já na entrada, dava pra ver uma escadaria com um tapete vermelho que acompanha todos os degraus, até lá em cima, onde tinha um espelho gigante. Fiquei pensando: o que será? Será um castelo?

No térreo do prédio estão as salas administrativas, o auditório (Sala Paulo Freire), o Memorial Frei Tito, uma sala reservada para exposições de curta duração, além da recepção. Para ter acesso ao andar de cima o visitante passará pelas escadarias de madeira coberta por um tapete vermelho. A certa altura da escadaria, o visitante se depara com uma grande estátua de corpo inteiro de uma índia e um grande espelho redondo por trás dessa imagem.

A cada degrau, o visitante parece dar um passo a mais em busca de novas descobertas, pois toda a área do primeiro andar é reservada à exposição de longa duração Ceará: história no plural. Essa sensação é comprovada por vários comentários deixados no livro de impressões dos visitantes do museu. Frases como “me senti no passado” ou “me senti na própria época”, são muito comuns, demonstrando que ainda se mantém uma visão tradicional de museu,

54 Desde sua criação o Museu do Ceará já passou por seis sedes distintas: além de dois

prédios já demolidos, o museu funcionou no prédio que hoje abriga a Faculdade de Economia, Administração, Atuariais e Contabilidade (FEAAC) da UFC, no bairro do Benfica; em prédio localizado na Praça do Carmo onde hoje funciona o Instituto do Ceará; no prédio que foi residência oficial do Governador do Estado e onde hoje funciona o Museu da Imagem e do Som (MIS) e sua sede atual no centro de Fortaleza (ver anexo).

associado à ideia de retorno ao passado. Comum também são os comentários relativos à preservação da memória e da identidade cultural, como nos seguintes casos: “continuem preservando nossa memória” ou “ótima oportunidade para quem quer conhecer melhor nossa cultura”.

No caso do Museu do Ceará é possível pensar sobre a questão da memória tanto dentro, quanto fora da instituição. Essa perspectiva leva em consideração tanto o fato de ser o museu uma instituição oficial de construção da memória, quanto o próprio meio social e urbanístico (praça, prédio, rua) no qual está inserido. Assim, pode-se estimular a partir do prédio onde está atualmente o Museu do Ceará a produção do conhecimento sobre um tempo específico da cidade e da sociedade. É possível pensar sobre as razões do edifício, sua história, sobre os usos da construção no decorrer do tempo e suscitar inclusive reflexões sobre a relação entre patrimônio cultural, memória e identidade. Assim, pode-se vincular a reflexão crítica com o fascínio que o monumento pode gerar nos visitantes.

Construído entre os anos de 1855 e 1871 – pelo engenheiro Adolfo

Herbster – para ser sede da Assembléia Provincial, na época do Brasil Império,

o Palacete Senador Alencar foi tombado como Monumento Nacional pelo IPHAN em 1973, por iniciativa do arquiteto José Liberal de Castro55. Este o define como um marco do neoclassicismo brasileiro, estilo arquitetônico caracterizado pela correspondência com os modelos da arquitetura antiga, grega e romana: racionalidade das formas e corpo de entrada saliente, com escadarias e colunas (CASTRO, 1977). Dividido em dois pavimentos (ver figuras 7 e 8), o edifício já passou por vários processos de restauro, mas

mantém até hoje suas características arquitetônicas originais56. A atual diretora

55 Processo de tombamento nº 863-T 72, Livro do Tombo Histórico, inscrição nº 440, Livro do

Tombo das Belas Artes, inscrição nº 502, fls. 72.

56 Na década de 1980 ocorreu o primeiro restauro no edifício que se encontrava em péssimo

estado de conservação com as paredes rachadas, o piso quebrado e o teto desmoronando. Essa obra durou mais de cinco anos. O prédio foi reaberto ao público no dia 25 de março de 1990 como nova sede do Museu do Ceará, dentro dos eventos de comemoração da libertação dos escravos no Ceará. O Palacete passou ainda por importantes obras nos anos seguintes: em 2005 houve a reestruturação da reserva técnica. Em 2008 foi substituída toda a rede elétrica do prédio e em 2009 instalou-se o sistema de segurança eletrônica por conta de vários furtos que ocorreram no Museu.

da instituição, Cristina Holanda (2006), tece alguns comentários sobre o edifício:

Seu projeto arquitetônico suntuoso se impunha na época de sua fundação, quando a paisagem da capital cearense era praticamente horizontal e suas construções, em geral, eram muito simples. Essa suntuosidade permanece mesmo hoje, frente aos prédios de muitos andares que ao longo das décadas foram construídos no seu entorno e mesmo com os desgastes que lhe foram impostos pela ação do tempo e dos descuidos da administração pública. Essa obra da arte arquitetônica possui uma funcionalidade. Ao longo de sua existência abrigou o Legislativo estadual, a Faculdade de Direito, a Academia Cearense de Letras, entre outras ilustres instituições locais. Hoje abriga o Museu do Ceará. E o seu aspecto simbólico está embutido desde a sua idealização: sua suntuosidade, apresentada nas inúmeras e grandes janelas e portas adornadas, no seu hall e na sua

escadaria monumentais, indica que ele foi construído

deliberadamente para abrigar o que para a sociedade cearense do final do XIX seriam os „grandes‟ homens e acontecimentos da vida política do Ceará.

Dessa forma, o prédio que abriga hoje o Museu do Ceará é testemunha de uma época específica, mas que pode ser relacionada a questões atuais sobre preservação de monumentos históricos e construção da memória nas sociedades contemporâneas. Isso porque, como afirma Halbwachs (1990), as localizações espaciais e temporais das lembranças são a essência da memória. O autor ressalta que os espaços materiais desempenham um papel importante em sua construção, pois, sendo construídos e transformados à imagem do grupo, tornam-se ponto de apoio e referência para o mesmo. Sendo assim, os “quadros espaciais” são condição indispensável para a construção da memória dando-nos a impressão de encontrar o passado no presente. Assim, afirma Halbwachs (1990, p. 143)

[...] não há memória coletiva que não se desenvolva num quadro espacial. Ora, o espaço é uma realidade que dura: nossas impressões se sucedem, uma à outra, nada permanece em nosso espírito, e não seria possível compreender que pudéssemos recuperar o passado, se ele não se conservasse, com efeito, no meio material que nos cerca.

Halbwachs (1990) afirma ser o elemento espacial condição essencial de rememoração57. É dessa forma que se estabelece a relação entre patrimônio histórico e memória, transmitindo ao grupo esta sensação de permanência e estabilidade, assim permitindo a formação de laços de sociabilidade e a transmissão de experiências entre as gerações (GONDIM, 2001). A esse respeito, significativa é a afirmação de Bosi (1994, p. 444): “as pedras da cidade, enquanto permanecem, sustentam a memória”. Assim, a conservação do patrimônio histórico e arquitetônico aparece como forma de resistência do indivíduo e de seu grupo à ameaça de esquecimento.

Nesse sentido, o Museu do Ceará apresenta-se como um exemplo de tentativa de permanência numa época de fugacidade, na medida em que constrói e apresenta uma parte da nossa memória coletiva e transmite às novas gerações o conhecimento sobre a história local.

Fig. 5 – Fachada do Palacete Senador Alencar, Fig. 6 – Escadaria que liga o

sede do Museu do Ceará desde 1990. pavimento térreo ao superior.

57 O pensamento de Halbwachs (1990) vai de encontro à teoria da memória desenvolvida por

Henri Bergson em Matéria e Memória (1990). Neste último, o argumento central é que há uma antítese entre a duração vivida e o espaço físico, ou seja, a memória não pode ser espacializada uma vez que, para este autor, a memória reduz-se à reprodução de formas de comportamento, de ações automáticas como a repetição de gestos e palavras, não tendo vínculo algum com a materialização do espaço.

Fig. 7 – Planta do térreo do Palacete Senador Alencar e destinação atual de uso dos ambientes.

Fig. 8 – Planta do pavimento superior do Palacete Senador Alencar e destinação atual de uso dos

Benzer Belgeler