• Sonuç bulunamadı

Neste tópico, a intenção é mostrar como o sujeito pode formular seus pensamentos, e a partir de então, agir no mundo. Segundo Bruner (2002), não há ainda uma definição clara do que seja o pensamento, entretanto, ele explica, através de exemplos, que há dois tipos de pensamento. Não nos cabe esgotar tal assunto, aqui, e sim, discuti-lo, a fim de apresentar um modelo de como este processo, possivelmente, ocorre.

Antes de iniciarmos nossa abordagem sobre o assunto, apoiamo-nos na seguinte questão: “o que é pensamento?”, formulada por Bruner. Segundo ele, o pensamento é um tema complexo, o que possibilita diferentes especulações de acordo com o objetivo a ser atingido.

Nesta direção, Vygotsky e Luria (1994), partem do pressuposto de que o pensamento é um texto “mental” que relaciona signos, e os organiza para depois inferir uma série de regras; e ele pode ser expresso por meio da fala. Os autores, em suas pesquisas, observaram que a criança, ao se esforçar para resolver um problema, fala. Assim os estudiosos argumentam que é necessário e natural a criança falar enquanto resolve um problema, não apenas para contar o que está fazendo, mas, principalmente, porque está expressando seu pensamento, a sua fala interna.

A fim de observarmos como se efetiva o desenrolar narrativo e suas peculiaridades, na memória, essencialmente, a questão da argumentação, o posicionamento do narrador, diante do fato narrado, veremos, agora, a abordagem das diferentes formas de se dizer alguma coisa, através da expressão do pensamento, apresentada por Bruner (2002).

Segundo o autor, existem dois modos de funcionamento cognitivo: o pensamento paradigmático ou argumentativo, e o pensamento narrativo, cada um fornecendo diferentes formas de ordenação de experiência, de construção de realidade. Ambos, embora complementares, são irredutíveis um ao outro e atuam de forma independente.

Desse modo, o pensamento paradigmático (a argumentação) convence alguém pela sua veracidade, comprovada através de um possível apelo a procedimentos para estabelecer provas formais e empíricas, enquanto o pensamento narrativo (a história) convence pela sua semelhança com a vida, estabelecendo não a verdade, mas a verossimilhança.

De acordo com ele, o pensamento paradigmático ou argumentativo tenta preencher o ideal de um sistema formal e matemático de descrição e explicação; emprega a conceituação e as operações pelas quais as categorias são estabelecidas, instanciadas, idealizadas umas às outras para formar um sistema. Aqui, a linguagem é regulada por necessidades de consistência e de não contradição. Seu domínio é definido, além de elementos observáveis - aos quais suas afirmações básicas se referem -, pelo conjunto de mundos possíveis que podem ser gerados, logicamente, e testados com os elementos observáveis, conduzidos por hipóteses fundamentadas.

Dessa maneira, o autor reflete que a imaginação paradigmática ou intuição é a capacidade de enxergar conexões formais possíveis, antes que se possa ser provada de qualquer modo formal. Ela também busca transcender o particular, procurando, cada vez mais, a abstração, e ao fim renuncia, por princípio, a qualquer valor explicativo que se refira ao particular.

Bruner (op. cit., p.13), partindo para a vertente do pensamento narrativo, afirma que “embora seja verdadeiro que o mundo de uma história, para atingir a verossimilhança, deva se ajustar aos cânones da consistência lógica, ele pode usar transgressões desta coerência para estabelecer a base do drama”. Por exemplo, o que ocorre nos romances de Kafka, em que a arbitrariedade não lógica na ordem social fornece o motor do drama.

Como ilustração, citamos a história de “Alice no país das maravilhas” (CARROL, 2002), onde encontramos o realismo mágico, em que o fantástico, o abstrato, se fundem com o mundo real e concreto. Alice, a protagonista da história, é uma menina que vive as aventuras mais alucinantes num espaço onírico, surreal. Os personagens com quem se depara em seu universo maravilhoso da narrativa são, em sua maioria, animais personificados ou, ainda, objetos com formas humanas e seres fantásticos. Desses encontros originam-se diálogos e situações que se caracterizam pelo

nonsense, pelo inusitado, isto é, o quase absurdo. É aqui que verificamos a transgressão

à coerência de raciocínio linear, comum, a que estamos acostumados, dando lugar a uma lógica invertida, às avessas, construída a partir da subversão das formas linguísticas.

Então, Bruner enfatiza que a aplicação imaginativa do pensamento narrativo nos conduz a histórias boas, dramas envolventes, relatos históricos - embora não, necessariamente, verdadeiros. Sendo assim, o pensamento narrativo trata de ações e intenções humanas e das vicissitudes e consequências que marcam seu curso.

O autor, neste caso, chega à seguinte reflexão: que a história tem que construir dois panoramas simultaneamente: “o panorama da ação, onde os constituintes são os argumentos da ação - agente, objetivo, situação, instrumento; e o panorama da consciência - o que os envolvidos na ação sabem, pensam, sentem, ou não sabem, não pensam e não sentem” (op. cit., p.15).

Vale mencionar, aqui, que diferentemente de Bruner, não consideramos que estas duas manifestações humanas, o pensamento paradigmático e o pensamento narrativo, sejam independentes, pois eles estão inter-relacionados, na medida em que o argumento, o posicionamento do narrador, pode existir dentro da narrativa, tornando-a mais interessante para o interlocutor.

Assim, um argumento bem formulado (pensamento paradigmático) dentro de uma boa história (pensamento narrativo) pode ser usado como meio para convencer o outro. E o sujeito se utiliza da memória para se posicionar, explicar, justificar e, consequentemente, narrar, especialmente em situação de interação com o outro (adulto). Tendo em vista que a narrativa trata das vicissitudes, eventualidades, das intenções humanas, uma maneira de ver é que as narrativas naturais começam com uma condição estável, canônica, que é rompida, resultando em uma crise, e solucionada por uma compensação, sendo que a repetição do ciclo é uma possibilidade em aberto, e tudo isso só é possível pelos mecanismos de funcionamento da memória. O autor fala também da paisagem dual da narrativa, dos eventos e das ações em um “mundo real”, que supomos verdadeiro, ocorrem concomitantemente com eventos mentais na consciência do protagonista. O casamento da visão interior e da realidade exterior é, além do mais, uma clássica condição humana.

Benzer Belgeler