Edith Stein compreende que “por trás de todo ato pedagógico, há uma concepção antropológica.” (SBERGA, 2014, p.136). A compreensão desta realidade faz-se necessária para que haja sintonia entre a estrutura pedagógica e a antropológica. Portanto para Stein (2000) 6
, citada por Sberga (2014, p.137), “a pedagogia constrói castelos na areia se não encontra uma resposta à pergunta ‘quem é o homem?’”.
Tanto para Wojtyla, quanto para Stein, a ação educativa deve pautar-se sobre uma compreensão integral do ser humano. Assim, todas as suas dimensões devem ser levadas em conta: “As condições com as quais o ser humano nasce são físicas, psíquicas e espirituais, e nenhuma pode ser ignorada no processo formativo, já que todas são potencialidades que podem e devem ser gradualmente atualizadas.” (SBERGA, 2014, p.153).
João Paulo II (1983) compreende que a tarefa educativa perpassa toda a vida do ser humano. Todos os momentos podem configurar-se como oportunidades rumo ao desenvolvimento integral da pessoa, que encontra sua primeira comunidade educativa na própria família. Neste sentido, o autor compreende que a experiência básica da educação origina-se na família, ambiente de formação dos homens por excelência:
O direito-dever educativo dos pais qualifica-se como essencial, ligado como está à transmissão da vida humana; como original e primário, em relação ao dever de educar dos outros, pela unidade da relação de amor que subsiste entre pais e filhos; como insubstituível e inalienável e, portanto, não delegável totalmente a outros ou por outros usurpável. (JOÃO PAULO II, 2012, p.65)
Todos os demais ambientes e comunidades da sociedade que desenvolvem ações educativas colocam-se, no pensamento de Wojtyla, como colaboradores e prolongadores daquela primeira ação educativa e formadora do seio familiar, cada qual nas competências que lhe são próprias. Assim, um primeiro princípio de seu pensamento é que os pressupostos da educação desenvolvida nas instituições jamais devem suprimir a tarefa educativa da família, mas sim com ela dialogar e articular-se.
Como objetivo de toda ação educativa está a formação do ser humano enquanto pessoa, em sua ampla e multifacetada totalidade:
Educar de maneira autêntica é a tarefa [...] que ajude o educando a descobrir e a fazer próprio, progressivamente, um sentido unitário das coisas, uma global aproximação da realidade, uma proposta de valores para a própria vida, vista na sua integridade, a partir da liberdade e da verdade. (JOÃO PAULO II, 1983, n.p)
Segundo Wojtyla, quando a educação ausenta de si este princípio ela se degrada, pois incorre no risco de tornar-se mera instrução. Isto se dá “porque a simples acumulação fragmentária de técnicas, métodos e informações não pode satisfazer a fome e sede de verdade do homem; em vez de atuar em favor do que o homem deve ‘ser’, ela trabalha então para o que serve ao homem no âmbito do ‘ter’, da ‘posse’” (JOÃO PAULO II, 1983, n.p). O autor destaca ainda que nestas condições o “educando fica assim diante de uma contraditória heterogeneidade de coisas, confuso, indeciso e indefeso diante de possíveis manipulações políticas e ideológicas.” (JOÃO PAULO II, 1983, n.p).
Compreendendo a pessoa em seu princípio de relacionalidade, Wojtyla também entende que não é possível conceber uma plena educação dos sujeitos sem que esta leve em conta seu desenvolvimento social, ou seja, sua dimensão de participação. Portanto, a ação educativa também consiste:
em que o homem se torne, cada vez mais, homem, que ele possa "ser" mais e não unicamente que ele possa "ter" mais, e que por consequência, através de tudo o que ele "tem", tudo o que ele "possui", ele saiba cada vez mais plenamente "ser" homem. Para isto é preciso que o homem saiba "ser mais" não só "com os outros" mas também "pelos outros". A educação tem importância fundamental para a formação das relações inter-humanas e sociais. (JOÃO PAULO II, 1980a, n.p)
A partir disto, o autor ressalta o princípio do dom de si. João Paulo II (1980b) entende que o dom de si compreende ao mesmo tempo a doação de si e a aceitação do outro como dom, desenvolvendo-se plenamente o princípio da participação na relação com o próximo. Neste sentido, faz-se necessário consolidar uma educação orientada para esta perspectiva, a qual forma os sujeitos para a relação em sociedade.
Para tanto, faz-se necessário também o desenvolvimento da formação da pessoa humana em sua experiência interior. Só se doa aquele que se possui. Portanto, os processos de autoconhecimento, autoposse e autogoverno relacionam-se diretamente com a proposta da formação dos sujeitos para sua sociabilidade. Conforme aponta João Paulo II, “a
formação da consciência está estritamente ligada à obra educativa, que ajuda o homem a ser mais homem […], orienta-o para um crescente respeito pela vida, forma-o nas justas relações entre as pessoas.” (JOÃO PAULO II, 1995, n.p).
O docente, em meio a estes pressupostos, é entendido por João Paulo II (1994) como aquele que ‘gera’ esta pessoa do educando. Para isto, faz-se necessário um sólido compromisso do educador, de modo que sua prática docente venha a contribuir com o desenvolvimento dos sujeitos em sua integralidade.
O papel dos educadores é de fundamental importância, e sua função é de corresponsabilidade na formação dos educandos, uma tarefa que exige humildade do educador e ciência para constatar que a individualidade é algo de misterioso, de surpreendente e imprevisível, o que demonstra a impossibilidade do conhecimento de cada educando na sua inteireza. (SBERGA, 2014, p.177)
Stein, conforme aponta Sberga (2014), entende que o educador age sobre o educando de três modos. Estes são: a sua palavra que ensina; sua ação pedagógica; e seu próprio exemplo. Embora cada um deles aja sobre os discentes de um modo, Stein entende que há um alcance mais sólido neste último, pois ao perpassar a vida do docente, os teores e valores manifestam-se com maior clareza e domínio. Neste sentido, Chesterton aponta que:
Não podemos ensinar cidadania se não somos cidadãos. Não podemos libertar outros se já nos esquecemos da ânsia de liberdade. A educação só é verdadeira quando em situação de transmissão. E como poderemos transmitir uma verdade que jamais nos passou pelas mãos? [...] E como poderíamos simplesmente ensinar a outros um ideal de humanidade se é tão vão e desesperado tentarmos encontrar um para nós próprios? (CHESTERTON, 2013, p.156)
Embora o papel do educador seja indispensável, Stein entende que se faz necessário que o educando desenvolva-se e coloque-se como sujeito de sua formação.
Enquanto pessoa livre, ele [o ser humano] tem o poder para tomar decisões e do poder nasce a possibilidade do dever [...] Dessa forma, o ser humano, que é consciente de si mesmo, é um ser livre e espiritual e tem o dever de desenvolver sua natureza, a fim de aperfeiçoá-la plenamente enquanto pessoa humana. (SBERGA, 2014, p.208)
O papel da educação, nesta perspectiva, visa favorecer ao ser humano o protagonismo de sua ação enquanto pessoa, para que ele possa, como sujeito de sua ação, vivenciar os pressupostos da dignidade da pessoa humana. Assim sendo,
Toda formação deve levar a uma autoformação. Duas vias que devem convergir par a um mesmo núcleo, para a interioridade mais genuína do indivíduo. Portanto, o processo formativo, para ser real e eficaz, precisa atingir a ‘alma da alma’ do ser humano, e é a partir daí que a pessoa pode decidir, livremente, pela busca da sua felicidade. (SBERGA, 2014, p.211)
A partir dos pressupostos abordados, vê-se que as concepções de Wojtyla e Stein sobre a educação relacionam-se profundamente com a promoção da pessoa humana. Os processos educativos, portanto, constituem-se como um dos elementos necessários para a edificação de uma sociedade fundamentada sobre a expressão e vivência da dignidade da pessoa humana.