2.3. SANAT,DĠL-EDEBĠYAT VE MĠTOLOJĠ
3.1.1. Evrenle Ġlgili Mitolojik Unsurlar ve DönüĢümleri
Para entendereapreciarcompletamente asdiferençase semelhançasentre o romance e o filme Vidas secas,devemos examinar a forma pelas quais suas respectivas mensagens são transmitidas.Uma das áreas nas quais o filme é imaginativamente“fiel”ao romance dizrespeito ao ponto devista.101O romance de
Graciliano Ramosé contado de um ponto de vista subjetivo na terceira pessoa.Ele usa um estilo indireto livre,isto é,um modo de discurso que começa na terceira pessoa (“elepensou”)edepoissemodula a umaapresentação maisou menosdireta, masaindana terceira pessoa,dospensamentosesentimentosdeum personagem.O discurso de Vidassecasé altamente subjetivado,no sentido de que a maioria do materialverbaléarticulada do ponto devista dospersonagens.Cinco doscapítulos levam o nome do personagem cuja perspectiva os domina,outros quatro são dominadospor Fabiano.Ao mesmo tempo,dentro de algunscapítulosé possível perceberum tipo dehierarquiadeperspectivas,começando com Fabiano epassando porSinháVitória,osmeninose,àsvezes,acachorraBaleia.
O romance Vidassecasse caracteriza poruma intensa empatia imaginativa pela qualo autorseprojeta em personagensbem diferentesdelemesmo.Num ápice criativo,o narradoratémesmo psicologizaacadelaBaleia,chegando ao ponto delhe
darvisõesdeum paraíso canino.No entanto,o narradornão selimitaestritamenteà consciência de suaspersonagens,ele a incluie a transcende.Porexemplo,ele faz alusõesquesem dúvida estariam além do entendimento deseuspersonagens(como a comparação de Fabiano de simesmo com um “judeu errante”102),ou detalha a
confusão dos personagens (a tentativa semi-cômica de Fabiano de inventar uma mentira apropriada para Sinhá Vitória sobre o dinheiro que perdeu num jogo de cartas),ao mesmo tempo em que deixa claro que o narradornão compartilha essa confusão.
No filme,o monólogo interiorno estilo indireto livre desaparece,cedendo lugara diálogosdiretoseesparsos.A luta interna deFabiano com a linguagem,por exemplo,não existe;o querecebemoséo fatodesua incapacidadedecomunicação. A falta decomunicação verbalentreFabiano eSinhá Vitória étambém relatada por meio de uma “conversa”,durante a qualeles estão sentados ao redor do fogo, escutando achuva cairefalando simultaneamentesem escutarum ao outro.Porém, Nelson Pereira dos Santos distribui igualmente as formas subjetivas entre os personagens.Fabiano,Sinhá Vitória,osgarotose a cachorra são todossubjetivados pelo filme.Essa subjetivação opera em diversosregistroscinematográficos.O filme explora,classicamente,o campo/contra-campo,que alterna a pessoa que vê com o quea pessoa presumivelmente vê.Essa técnica éusada com osquatro protagonistas humanos e com a cachorra.Uma sequência alterna planos de Baleia olhando e arfando com planosdo preácorrendo parao mato.
O filme também subjetiviza o olhar dos personagens por meio de movimentosdecâmera:travellings103com acâmera namão evocam aexperiência de
cruzar o sertão;um movimento vertiginoso sugere a tontura e queda do menino
102 RAMOS,1938:p.24.
maisnovo.Outrastécnicasenvolvem exposição (um plano do solcega e tonteia o personagem),foco (a visão deBaleia fica fora defoco depoisdeFabiano lhedarum tiro),e ângulo (o menino maisvelho inclina sua cabeça para vera casa,e a câmera também seinclina).Também valeapenanotarqueacâmera,em muitascenas,filma a cachorra eosmeninosem seu próprio nível.A fotografia deLuisCarlosBarreto é seca e áspera como o sertão.Defato,écomum dizerqueele“inventou”um tipo de luz apropriado ao cinema brasileiro.Em resumo,o estilo de Graciliano Ramos,um estilo idealmente feito para exprimir estados psicológicos, sensação física e experiênciaconcreta,étraduzido com sucesso parao filme.
“V
AMOSREPARTIROBOI”
Com o intuito de desenvolver ainda mais as relações livro-filme e seus diálogoscom o processo adaptativo,propomosuma sucintaeesquematizada análise do discurso fílmico de Vidassecasfeita a partirdo método de “decupagem clássica do cinema”desenvolvido pelo cineastanorte-americano David Wark Griffith.104
S
Sinopsedo filme:
Famíliaderetirantes,pressionadospelaseca,atravessam o sertão em buscademeios de sobrevivência.O vaqueiro Fabiano,sua mulhersinha Vitória,osdoisfilhose a cachorra Baleia fogem da seca que assola o sertão brasileiro.Durante quase dois anos,elesconseguem seassentarem um povoado,atéqueFabiano serevoltacontrao dono da fazenda em que trabalha e com o soldado da região,sendo espancado e preso.Elenão vêmaisperspectivaem permanecernaquelelugar.
a)Tema:
-O filme traz como temática a luta pela sobrevivência e ascondiçõesprecáriasde existênciano nordestebrasileiro,principalmente,pelaseca.
-O temaéconstruído em torno dospersonagensprincipais,Fabiano esinhaVitória. Contudo,o ambiente nordestino é mostrado de forma com que este espaço seja o elemento aestruturaro enredo.
b
b)Narrativa:
-O discurso fílmico éconstruído atravésdeumanarrativalinear,aqualéconstituída majoritariamentede:Plano Geral(PG)ePlano Conjunto (PC),osquaistêm função descritiva;Plano Médio (PM) e Plano Americano (PA),que têm tem função narrativa;Primeiro Plano (PP)e Plano Detalhe (PD),osquaistêm a finalidade de expressaraemoção dospersonagens.105
- Na construção do discurso fílmico os diálogos são coesos,com pouca fala.É privilegiadaaimagem,éaimagem quefala,queevidencia,quejustifica.
c)Enquadramento:
- Predominam enquadramentos de Plano Gerale Plano Conjunto,até porque o espaço fílmico é construído de forma a mostrar o tempo todo à seca nordestina, evidenciada pelasárvoressecas,solforte,o chão rachado,a areia da margem do rio que secou.Enfim,todos estes elementos que compõem o “espaço”,no filme,são enquadradosem conjunto com aspersonagens.
d)Movimentação decâmera:
- Percebe-se que é utilizada predominantemente a câmera fixa,que evidencia o movimento pró-fílmico (movimentação dosatoresem relação ao posicionamento da câmera).
- Movimentos de plano e contra-plano no caso dos diálogos,por exemplo:de Fabiano esinha Vitória,cenasdeexteriorquando estão à procura deum lugarpara viver;cenas de interior da fazenda onde trabalham;sequência onde Fabiano vai receberseu salário eo patrão lheengananascontas.
-Em algumascenasacontece o movimento de câmera na mão como no caso da
sequência onde andam na areia da margem do rio que secou – percebe-se tal movimento como uma subjetiva do olhar de Fabiano e sinha Vitória que olham desnorteadospara frenteepara osladosem busca deum lugarpara seabrigarem – estemovimento éfílmico,ou seja acâmera semovimenta deacordo com a ação dos personagens.
-Ocorrem váriosmovimentosdetravelling,como porexemplo,nasequênciafinaldo filmeondeFabiano,sinha Vitória eosdoismeninosestão indo a busca deum lugar melhorpara viver.Este movimento é fílmico – a câmera que se movimenta com a ação dospersonagens.
e
e)Angulação decâmera:
-A angulação decâmeraépredominantementenormal(plana).
-Na sequência da prisão de Fabiano percebe-se que é utilizada ora CAM alta para evidenciarFabiano sendo humilhado,apanhando,machucado no chão e ora CAM baixaparaevidenciaro poderdospoliciasqueo espancaram.
- Outro exemplo dessa angulação é na sequência em que Fabiano vaimatar a cachorra.A CAM alta mostra Baleia indefesa parecendo perceber o que irá acontecer,eaCAM baixamostrando Fabiano como senhordasituação.
f)Fotografia:
-Nafotografiapredominaaluzcontrastada. -A luznaturaléutilizadasem filtros.
-Enfatizam-seoscontrastesluzesombra,claro eescuro.
g)Espaço:
subsistênciadesseambienteparacriaracenografiaeparadarsignificação àação das personagens.
- O espaço interage na construção narrativa do filme,como por exemplo,as sequênciasquemostram asárvoressecas,aterraárida,o solescaldante,o rio seco.
h
h)Trilha sonora emusical:
-O som extra-diegético deum carro deboipermeia a cena iniciale a cena finaldo filme,representando a aspereza e a monotonia do cotidiano e a circularidade da narrativa.
-Em uma dascenas,o carro de boiaparece (o som torna-se diegético),levando Fabiano ao encontro do patrão,numasequênciatambém carregadadesignificado. -Rarasvezesocorremúsica,como nafestadenataledo bumbameu boi.
i)Campo efora decampo:
-Nanarrativaprevalecem assequênciasdecampo.
-O fora decampo ocorreraramente,porexemplo,na sequência ondeSinhá Vitória está em um quarto com seusdoisfilhosescondendo-ospara quenão vejam Fabiano matarBaleia.Ouvem o som do tiro (foradecampo)ecomeçam achorar.
I
NFERNO INTERMIDIÁTICODe posse de um esquema técnico-narrativo proporcionado pela decupagem,é possível esmiuçar o filme enquanto adaptação de uma narrativa literária, corroborando grande parte dasteoriase ideiasjá apresentadasneste ensaio.Para tanto,nosvaleremosdeum trecho análogo do romanceedo filmeno qualo menino maisvelho,ouvindo a reza da senhora que ao benzerascostasde seu paiFabiano falava “saipro inferno”,ficou curioso para sabero quesignifica talpalavra.Antesde proceder à análise do discurso fílmico específico da referida sequência, transcrevemospartesdo capítulo “O menino maisvelho”,do romance Vidassecasde Graciliano Ramos,ondeessefato énarrado entreaspáginas81 a87:
Deu-seaquillo porquesinha Victoria não conversou um instantecom o menino maisvelho.Elle nunca tinha ouvido falarem inferno.Extranhando a linguagem de sinha Terta,pediu informações.Sinha Victoria,distrahida,alludiu vagamentea certo lugarruim demais,ecomo o filho exigisseumadescripção,encolheoshombros.
O menino foiá sala interrogar o pae,encontrou-o sentado no chão,com as pernasabertas,desenrolando um meio desola.
– Botao péaqui.
A ordem secumpriu eFabiano tomou medida da alpercata:deu um traço com a ponta da faca atrazdo calcanhar,outro adiantedo dedo grande.Riscou em seguida a fórmado calçado ebateu palmas:
– Arreda.
O pequeno afastou-se um pouco,mas ficou por alirondando e timidamente arriscou a pergunta.Não obteveresposta,voltou á cozinha,foipendurar-seá saia da mãe:
– Como é?
SinhaVictoriafalou em espetosquentesefogueiras. – A senhoraviu?
AhisinhaVictoriasezangou,achou-o insolenteeapplicou-lheum cocorote. O menino saiu indignado com a injustiça,atravessou o terreiro,escondeu-se debaixo dascatingueirasmurchas,nabeiradalagoavazia.
A cachorra Baleia acompanhou-o naquella hora difficil.Repousava junto á trempe,cochilando no calor,áesperadum osso.[...]Elletinha querido quea palavra virasse coisa e ficara desapontado quando a mãe se referira a um lugarruim,com espetos e fogueiras.Por isso resingara,esperando que ella fizesse o inferno transformar-se.
Todos os lugares conhecidos eram bons:o chiqueiro das cabras,o curral,o barreiro,o pateo,o bebedouro – mundo onde existiam seres reaes,a familia do vaqueiro eosbichosdafazenda.Alem haviaumaserradistanteeazulada,um monte que a cachorra visitava,caçando preás,veredas quasiimperceptiveis na catinga, moitasecapõesdemato,impenetraveisbancosdemacambira– eahifervilhava uma população depedrasvivaseplantasqueprocediam como gente.[...]Como não sabia falardireito,o menino balbuciavaexpressõescomplicadas,repetiaassyllabas,imitava osberrosdosanimaes,o barulho do vento,o som dosgalhosquerangiam nacatinga, roçando-se.Agora tinha tido a idéa de aprender uma palavra,com certeza importanteporquefiguravanaconversadesinhaTerta.Iadecoral-aetransmittil-aao irmão e á cachorra.Baleia permanecia indifferente,mas o irmão se admiraria, invejoso.
– Inferno,inferno.
Não acreditava que um nome tão bonito servisse para designar coisa ruim.E resolvera discutircom sinha Victoria.Se ella houvesse dito que tinha ido ao inferno, bem.Sinha Victoria impunha-se,auctoridade visivele poderosa.Se houvesse feito menção de qualquerauctoridade invisivele maispoderosa,muito bem.Mastentara convencel-o dando-lheum cocorote,eisto lhe'parecia absurdo.Achava aspancadas naturaesquando aspessoasgrandessezangavam,pensavaatéqueazangadellaseraa causa unica dos cascudos e puxavantes de orelhas.Esta convicção tornava-o desconfiado,fazia-o observar os paes antes de se dirigir a elles.Animara-se a
interrogar sinha Victoria porque ella estava bem disposta. Explicou isto á cachorrinhacom abundanciadegritosegestos.106
a
a)Narrativa:
-A narrativa destassequênciasem cenasinteriores(dentro da casa)é construída com o predomínio dePlano Médio (PM)edePrimeiro Plano (PP).Nassequências dascenasexterioresdacasatambém háo predomínio dePM,PP ePG.
-Essesreferidosplanossão construídosatravésde determinadosenquadramentos, angulações,fotografia,emovimentação decâmera.
b)Enquadramentos:
(Figura1)107
Plano Médio,CAM fixa,enquadrando o menino a meio corpo apoiado na porta e olhando avelhaquevaiembora.
(Figura2)
Plano Médio enquadramento da mãe que está mexendo no fogão e o menino que
106 RAMOS,1938,pp.81-82-84-85-86-87.
chegaatéelaparaperguntaro queéinferno,eelarespondendo queéum lugarruim.
(Figura3)
Plano Conjunto enquadrando a porta que separa a cozinha do quarto.O paiestá sentado no chão,medindo o pé do menino maisnovo para fazernovosparesde alpercatas.
(Figura4)
Plano Médio do menino maisvelho,chegando atéo paiquetambém fazamedidade seuspés.
(Figura5)
Plano Médio,quando o menino indagao paisobreo queéo inferno.Como o painão lherespondevoltaatéacozinhaeseaproximadamãeparaindagá-la.
(Figura6)
Primeiro Plano do menino,perguntando asuamãe,novamente,o queéinferno.
(Figura7)
Primeiro Plano da mãe,respondendo queéum lugarpara ondevão oscondenados, cheio defogueira,com espeto quente.
(Figura8)
Primeiro Plano do menino queperguntaparaamãeseelajáfoiláou sejáviu.
(Figura9)
(Figura10)
Plano Geraldo exteriorda casa e o menino saindo chorando e ficando parado por algunssegundosno pátio.
(Figura11)
Plano Geraldo andardo menino em direção aumaárvore.
(Figura12)
(Figura13)
Foradecampo – vozem offdo menino quechamabaleia.
(Figura14)
Plano Médio parao menino acariciando aBaleia.
(Figura15)
Primeiro Plano do menino quando fala:“inferno”(eolhaparasuacasa).
(Figura16)
(Figura17)
Primeiro Plano do menino quando fala:“espeto quente”(olhaao redordesuacasa).
(Figura18)
CAM subjetivado olhardo menino:Plano Geralparamorrosao redordacasa.
(Figura19)
Primeiro Plano do olhardo menino paravacasediz:“lugarruim”.
(Figura20)
CAM subjetivado olhardo menino:enquadrando em Plano Geral/Plano Conjunto o pátio easvacasmagras,praticamenteem couro eosso.
(Figura21)
Plano Médio quando o menino abaixaacabeçaediz:“lugarruim”(como setudo que aCAM subjetivaacabou demostrar– acasa,asterrassecas– fosseesselugarruim).
(Figura22)
Plano Médio do menino queolhaparao céu,senteo calordo solediz:“lugarruim”.
(Figura23)
CAM subjetiva do olhar do menino para o céu,CAM baixa enquadrando galhos secosdaárvore,o soleosraiosfortes/quentes.
(Figura24)
Plano Médio do menino deitando-se,ficando atordoado com o sol.
(Figura25)
Plano Médio:olhando novamenteparacasa.
(Figura26)
CAM subjetiva do olhardo menino deitado no chão:enquadramento da casa.Fora decampo:vozem offdo menino queao olharparasuacasadiz:“condenados”.
(Figura27)
Baleiaediz:“ondeéquetem espeto quente?”
(Figura28)
Plano Médio do menino acariciando Baleia,repeteváriasvezes:“inferno,inferno...”, como aevidenciarqueo inferno éo lugarondemora.
c
c)Movimento da Câmera: