I. BÖLÜM
4.2. Evren ve Örneklem
Quando foi feito o primeiro contato com “I”, em abril de 2012, estava acontecendo um
tumulto na Passarela da Lagoinha. Ele estava apressado, fugindo dos policiais militares e dos fiscais da Prefeitura, quando parou para contar o que estava acontecendo. Mas, de repente, “I” foi abordado por um policial. Mas, ao contrário do se poderia imaginar, o que se presenciou
foi uma tentativa de se acalmar o “I”. O policial afirmou que não era preciso que ele corresse, pois ele o conhecia. Disse que ele era seu “protegido”. Foi assim, inesperadamente, que foi
feito também o primeiro contato com a Polícia Militar, que, dentre outras tarefas, dá suporte às operações de fiscalização da Prefeitura, para garantir a integridade física dos fiscais.
Foi durante uma rápida conversa com esse policial que abordava o “I” que se aventou
a possibilidade de um encontro. O policial deixou o seu número de telefone celular e se dispôs a contar e a explicar sobre o trabalho que desenvolve e, especialmente, sobre a complexa realidade daquela região.
Em dezembro de 2012, esse contato foi retomado. A reunião durou cerca de duas horas. O local de encontro foi a sede de uma companhia da Polícia Militar de Belo Horizonte. Um espaço muito mal conservado: as paredes estão com a pintura bastante deteriorada e os móveis estão bem envelhecidos. Tudo isso não dá uma boa impressão do local.
Participaram da conversa o soldado, presente no episódio citado na Passarela, que
curso de Administração de empresas e está há um ano na Companhia. A policial, também muito jovem, é bacharel em Direito e já tem dois anos de experiência junto à companhia.
Enquanto se aguardava a chegada da policial, a conversa começou com o soldado, que, inicialmente, tentou descrever sua percepção sobre a região central de Belo Horizonte, mais especificamente sobre os arredores da rodoviária. Ele descreveu a área central como sendo uma região onde se realizam pequenos furtos que, em geral, têm ligação com o consumo e/ou
o tráfico de drogas, conhecido como “tráfico formiguinha”, realizado por pequenos grupos
que operacionalizam o comércio de drogas, repassando sempre pequenas quantidades, mais ou menos até 3 kg. Mais tarde, noutro ponto da conversa, ele completa sua narrativa sobre o centro da cidade relatando sobre a atuação dos tampinheiros. Trata-se, segundo o policial, de estelionatários que, de forma muito organizada, enganam os que acham que estão lidando com
um “jogo de azar”. Após a manipulação das tampinhas (parecidas com forminhas de empadas), o “apostador” indica a que ele acredita que abriga a bolinha, colocada inicialmente
sob uma das tampinhas. O problema é que, em razão da agilidade do “tampinheiro”, debaixo de nenhuma das tampinhas a bolinha estará mais.
No centro, os furtos de celulares, correntinhas de ouro e outros pequenos objetos são freqüentes. Para ele, esses objetos são, em geral, revendidos para os ambulantes. Para facilitar a compreensão sobre essa conexão entre objetos com origem ilícita e ambulantes, ele deu um exemplo: numa loja do Shopping Oi, que vendia aparentemente aparelhos de som, foram encontrados cerca de 2.500 comprimidos de “Pramil”, medicamento similar ao “Viagra”. Todo esse medicamento seria repassado para ambulantes.
A partir da narrativa desse caso e de outros, o soldado argumenta, de forma coerente, que o combate ao trabalho dos camelôs e ambulantes diminui a criminalidade na região central. A relação é simples, caso se acabasse com o comércio ambulante no centro, boa parte
dos “cidadãos infratores”, termo usado pelo soldado, ficaria sem compradores (receptadores)
para seus produtos furtados.
Mas, apesar dessa constatação, o soldado faz questão de dizer que não é contra o cidadão honesto que trabalha na rua. O problema, segundo ele, é que é difícil saber quem está
ou não comercializando produtos que são frutos de “receptação”. Durante a entrevista, ele disse várias vezes: “a gente não sabe quem é o bom e quem é o ruim”. Numa da conversas
telefônicas para a marcação desse encontro, em outros termos confirmou essa mesma posição
sobre o assunto: “Ninguém tem estrela na testa”.
Mais ou menos nesse ponto da conversa, a policial chega e, muito interessada, após compreender melhor o objeto da pesquisa, começa a traçar um panorama da região central da
cidade antes da constituição dos shoppings populares. Diz que tem, na verdade, apenas uma relativa lembrança desse tempo. Mas, ela explica que após o agendamento da entrevista, conversou com um colega que conheceu bem o centro de Belo Horizonte naquele tempo.
As informações que levantou são várias. O Centro “era aquela muvuca”. As inúmeras barracas dos camelôs ficavam nos passeios e o transeunte tinha que andar pela rua. Esse ambiente favorecia a realização de furtos e roubos, pois dificultava a visualização e a perseguição policial aos infratores, que se escondiam entre as barracas ou, até mesmo, contavam com a ajuda dos camelôs para a ocultação dos produtos. Era também mais
expressiva a presença dos “olheiros” e dos “antenas”, pessoas que passavam informações aos
seus comparsas, por exemplo, a respeito da presença dos policiais e/ou de vítimas potenciais. As queixas dos cidadãos consumidores também eram consideráveis. As mais freqüentes estavam relacionadas à má qualidade dos produtos vendidos pelos camelôs, que se recusavam a trocá-los após a consumação da venda.
Diante desse cenário, a policial defende que, efetivamente, o comércio dos camelôs tinha que ser remanejado, ou seja, ser retirado dos passeios da área central. No seu ponto de vista, o problema foi a alternativa criada pela Prefeitura: os shoppings populares.
Objetivamente, ela diz: “shopping popular não é popular”. Ela explica: No Shopping
Oi, uma loja, também chamada de boxe, de 4 metros quadrados, é alugada por cerca de 4 mil reais mensais. No Shopping Xavantes, esse custo chega a ser de 6 mil reais. Por causa dessa realidade, os dois policiais afirmaram que o trabalhador de rua não tem condições de ocupar e manter suas atividades nesses shoppings. Diante dessa constatação, o que fazem os antigos
camelôs? Voltam para as ruas. E o que fazem os policiais? “A gente dá apoio aos fiscais da prefeitura”. “Aí a gente vai de acordo com o Código de Posturas”. Mas isso não é feito de
forma acrítica. Pensando a respeito, disse a policial: “acho que é uma higienização”. Por causa
disso, ela diz que faz o trabalho de acompanhar a fiscalização da Prefeitura “mesmo com dó
no coração”. E ainda reforça: “eu faço com coração partido”. Assim, como diz o soldado: “os
bons e os ruins todos vão”.
Mas, e a tal "vista grossa” que fazem os fiscais? O mesmo não pode ocorrer em
relação aos policiais? Imediatamente, respondem que sim. O soldado explica como isso
acontece. “Às vezes, a gente avisa que vem a fiscalização” ou “a gente chega fazendo barulho”. Quando a fiscalização será na Passarela, a preocupação do soldado é “I”. Ele disse: “eu já ia primeiro pra ver o “I”, pra não judiarem do “I”".