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12. IN NO EVENT UNLESS REQUIRED BY APPLICABLE LAW OR AGREED TO IN WRITING WILL ANY COPYRIGHT

O casamento entre as primeiras gerações das famílias imigrantes seguia o modelo do casamento tradicional japonês, o miai. O miai, o matrimônio arranjado, era uma aliança selada entre os chefes das famílias por meio de uma jovem nikkey, nascida em uma das

famílias, a qual iria contribuir para a perpetuação de outra família patrilinear45. De acordo com Vieira (1973:145), o arranjo era traçado pelo nakodo46, um intermediário oficial reconhecido pelo grupo, o nakodo percorria as colônias em busca de jovens para selar alianças com outras famílias nikkey. Os dados dos jovens eram apresentados pelo nakodo às famílias que selavam o miai. Os jovens eram apresentados e tinham um tempo para conversarem e se conhecerem antes do casamento. A cerimônia do casamento era precedida pela troca de presentes entre as duas famílias: o yuino, presente de noivado entregue à família da noiva, depois do encontro formal (miai). A festa de casamento era o ponto alto de todo o processo cerimonial, a festa era celebrada na casa do noivo com a cerimônia san-san-kudo (literalmente 3, 3,9), na qual o noivo e depois a noiva bebiam saque em três recipientes rituais, seguidos pelos pais dos noivos e demais parentes por ordem de proximidade do parentesco selando a aliança entre as duas famílias.

Vieira (1970) apontou que até a data da sua pesquisa o nakodo era uma figura importante na colônia e continuava intervindo nos arranjos matrimoniais. Mas o papel social do nakodo também podia ser desempenhado por um parente ou um amigo da família ou intermediado por um “padrinho” desde que se tratasse de uma figura de prestígio na colônia e fora dela, a exemplo de um líder político, que manteria relações paternalistas com o casal facilitando o seu relacionamento deles para com a sociedade abrangente. Depois de o miai ser acertado entre os chefes das famílias, os jovens teriam um tempo para conversarem e se conhecerem. O casamento só se concretizaria se a moça aceitasse o noivo e acaso ela não o aceitasse, uma nova busca seria iniciada, mas, evidentemente, no interior do próprio grupo.

Como fora citado em Cardoso (1998), as relações hierárquicas geracionais eram concebidas como virtude para os membros da família. Dessa maneira, fica claro compreender as conversas que tive com issei e nissei mais velhos e a recorrência do casamento por miai como um destino "natural" no interior das famílias nikkey. Quando perguntei aos issei sobre a obrigação do miai, eles enfatizaram não a "obrigação", mas o senso coletivo de que como o casamento ocorria entre japoneses as chances de o matrimônio dar certo eram maiores, visto

45 É importante ressaltar que no contexto da pesquisa, majoritariamente na geração issei, o miai entre japoneses

ocorria entre japoneses e não entre japoneses e okinawanos. Como foi traçado no capítulo anterior, havia distinções e preconceitos no interior da imigração que dividia os imigrantes entre naichijin e okinawajin. Em Vieira (1970) há relatos de dois casos de jovens japonesas que lutaram contra as suas famílias pelo direito de se casarem com jovens okinawanos. Após a relutância das jovens em se casarem com japoneses, as suas famílias aceitaram o casamento com okinawanos.

46 Intermediário oficial que percorria as colônias e era incumbido de estabelecer contato entre as famílias nikkey,

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que as uniões ocorriam entre iguais. É interessante notar o significado de resignação compreendido como valor coletivo, o indivíduo e seu desejo pessoal não se sobreporia a ordem familiar, uma vez que a lógica familiar estava imbuída da obediência como virtude máxima desse núcleo familiar. E nesse ponto, as uniões teriam mais chance de êxito, uma vez que ela era feira no interior do grupo imigrante onde os sujeitos se orientariam pelas mesmas lógicas culturais e de parentesco trazendo mais equilíbrio e harmonia na família.

Contudo, quando do trabalho voluntário na IMeL, me chamou a atenção a distensão entre o discurso e a realidade quando da sinceridade de algumas mulheres em idade mais avançada ao responderam sobre o miai. Os significados da resignação na velhice eram revistos também como obrigação e, em tom um pouco desiludido, o entendimento da aceitação sob o ponto de vista do presente evidenciava que a resistência no passado seria desnecessária diante do fato de que os homens eram "todos iguais".

"Não ia adiantar discutir, vai casar com esse ou aquele, no final homem é tudo igual." (Satiko, issei, aposentada, viúva)

No entanto, na mesma mesa de conversa, outras senhoras narraram que tal resignação do passado contou com histórias de uniões felizes entre eles (issei), uma vez que eles concebiam a construção do relacionamento como um processo a ser desenvolvido depois do matrimônio por meio da convivência real e cotidiana. Ou seja, um amor que se dava por um processo de construção distinto da concepção de amor romântico que prevaleceria no Ocidente naquele contexto.

Majoritariamente entre os issei o miai foi seguido. E entre muitos dos nissei mais velhos que conversei no Nikkey Clube e na IMeL houve dois arranjos de casamentos com

nikkey: os nissei que se casaram por miai e os nissei que se casaram com japoneses porque frequentavam algum kaikan e conheceram os seus respectivos companheiros lá. O casamento entre nikkey sem a imposição do miai pode ser compreendido em Sakurai (1993,2008) que enfatizou no surgimento das associações o projeto de um espaço para a sociabilidade, para a preservação da cultura e, evidentemente, para os arranjos matrimoniais. Desse modo, compreende-se que o kaikan nasce como um prolongamento da casa e manifesta os desejos de coletividade das famílias.

1) Há issei e nissei que se casaram por miai, de acordo com a resignação aos costumes e dizem ter construído o amor e vivido bem porque o casamento foi entre japoneses, ou seja, entre iguais.

2) Há casos que os issei se casaram por miai, mas dizem ter vivido um casamento infeliz porque não puderam escolher o parceiro.

3) E casos de casamentos com brasileiros que causaram o rompimento dos laços familiares, casos mais raros entre os issei. Esses casos eu não conheci diretamente, mas somente por meio de narrativas dos informantes.

No primeiro caso de arranjo matrimonial há o caso da senhora Fumiko (80 anos,

issei e viúva), disse ter se casado por miai e ter vivido um bom casamento com o seu falecido esposo. A senhora Fumiko disse não ver o seu miai como obrigação, pois ela teria gostado do seu esposo quando o conheceu. Segundo ela, o fato de seu esposo possuir as qualidades

japonesas de trabalhador, honesto e persistente faziam dele um bom marido com quem ela viveria feliz. Ainda, de acordo com o seu relato, o fato de eles compartilharem os mesmos códigos culturais japoneses também tiveram peso para a estabilidade do casamento e para a construção da família. Eles tiveram dois filhos, sendo o mais velho casado com uma nikkey e o mais novo casado com brasileira. Para a senhora Fumiko, os dois filhos fizeram bons casamentos independente de suas noras serem nikkey ou não e isso se devia ao fato de suas noras serem boas esposas, boas noras e boas mães, serem educadas, honestas e trabalhadoras. Nesse sentido, para a senhora Fumiko não haveria distinções étnicas entre as noras porque elas possuiriam as mesmas qualidades. Mas aqui vale ressaltar a conversão cristã protestante da senhora Fumiko, pois toda a sua fala era marcada pela visão da insensatez de se fazer distinções entre as pessoas. Para ela o que havia era "a igualdade de todos perante Deus". Isso significa dizer que, não havia como determinar se a não distinção sempre fora operante vida dessa senhora ou se ela seria fruto da conversão cristã. De qualquer forma, segundo Fumiko, a imposição do miai para os seus filhos não estava nos planos dela e seu esposo, uma vez que eles pensavam que a escolha dos cônjuges deveria caber aos filhos de acordo com os gostos e as inclinações sociais deles.

No segundo caso de arranjo matrimonial há o exemplo da senhora Mieko (issei, 80 anos, viúva, do lar). A senhora Mieko relatou ter casado por miai, porém ela disse ter sido infeliz porque o seu marido não era um homem fiel. Em sua narrativa, me chamou a atenção o

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lugar do miai e a oposição entre o amor e a família. A senhora Mieko relatou ter sido apaixonada toda a sua vida por outro nikkei. Ela disse:

"Quando eu era moça eu conheci um rapaz, ele era japonês, o moço mais lindo da colônia, todas as minhas amigas da colônia achavam ele lindo. Nós éramos apaixonados. Ele era o meu amor. Mas a minha mamãe não queria que eu namorasse com ele. Ela não deixou eu casar com ele porque a profissão dele não era estável. Ele trabalhava com cinematógrafo viajando nas colônias exibindo filmes. Eu aceitei a decisão da mamãe, daí fez o miai e eu casei com o meu marido, mas eu não fui feliz. O meu marido não era fiel, ia nos bailes, dançava apertando as mulheres, me traiu. Só Deus sabe o que eu passei. Eu me casei como a mamãe quis, eu respeitei o meu marido, mas não esqueci aquele moço. Depois que eu fiquei viúva, a minha família e as amigas diziam que eu tinha que me casar de novo, mas eu só ia casar se fosse com ele. Daí uma amiga disse para a gente procurar na internet, eu pensei: Nossa, será? E se ele estiver viúvo também a gente pode casar! Então a gente procurou e eu descobri que ele trabalhou como fotógrafo, tinha casado, morou em Curitiba, mas já tinha morrido. Nossa, eu fiquei tão triste porque seria a chance, né, porque se fosse para eu casar de novo, eu só ia casar com ele.” (Senhora Mieko)

A história da senhora Mieko revela a resignação aos valores familiares entre os

issei e como o miai era encarado como a via para o matrimônio e a perpetuação da unidade familiar. Mas a virtude da resignação lhe impôs um casamento com sofrimentos contrariando e tensionando o discurso de equilíbrio e êxito quando do casamento entre iguais. A história real de Mieko mostra as fissuras contidas no discurso do grupo de que o casamento de êxito e sem problemas só ocorreria desde quando entre japoneses. Provavelmente há muitas histórias como a da senhora Mieko, mas ela foi a única interlocutora que falou abertamente sobre as tristezas do seu miai. De qualquer maneira, ela traz à tona a distância que pode haver entre o discurso e a vida, o dito e os dados. A história de Mieko expressa o peso da concepção de parentesco e da continuidade do núcleo familiar na sua geração sendo a devoção e a hierarquia familiar os valores centrais das famílias nipônicas.

Nesse momento, não haveria lugar para o amor romântico e para o indivíduo mesmo quando entre nikkey. O casamento arranjado, miai-kekkon, contrapunha-se ao casamento por amor, renai-kekkon. Oposição de regras matrimoniais que expressariam a oposição da família, da aliança e do ritual cerimonial em face ao indivíduo, o conflito familiar e ausência de cerimônia. Esse tipo de oposição de modelo matrimonial era correntemente representado pelo casamento entre japoneses (miai-kekkon) e pelo casamento entre japoneses e brasileiros (renai-kekkon). Sendo o último arranjo, o casamento por amor, concebido como o centro dos conflitos e rompimentos familiares.

O que chama grande atenção na história da senhora Mieko era o fato de o miai não abrir brechas para as escolhas individuais, a escolha passava pelo chefe, passava pela família. A senhora Mieko expôs o filtro irredutível do miai para o matrimônio por amor mesmo quando entre nikkey. O caso de Mieko ilustra firmemente a hierarquia da família e das regras do miai para com os seus membros, pois para casar ser nikkey não era a condição única. Mas era tão somente a primeira condição e, no fundo, essa decisão dependeria da família dos jovens mesmo quando envolvendo uma história somente entre japoneses. Mas o amor romântico, ele não participava desse arranjo. A família era a condição para o arranjo matrimonial, a pessoa era a extensão da sua família. A pessoa que tivesse o desejo de fazer valer a sua vontade impondo a escolha do amor romântico sobre a família teria duas opções: abandonar o desejo e seguir o coletivo ou fazer o valer o seu desejo, abandonar e ser abandonado pelo coletivo. O indivíduo e o amor romântico eram os opostos da família e da perpetuação de seu nome e valores. O indivíduo e o amor romântico não participavam dos projetos da família na geração dos issei mesmo quando se tratasse de uma história vivida entre nikkey. O amor romântico deveria ser abandonado em nome da honra e da ordem hierárquica familiar.

Como será visto, entre os nissei o casamento por miai ou escolher individualmente um parceiro nikkey era recorrente. No entanto, a partir dessa geração já era possível observar o casamento com brasileiros e as histórias de rompimento dos laços familiares. Mas se do ponto de vista da família nikkey, o casamento com brasileiros significava um rompimento profundo e violento na ordem familiar, há que ser considerado que do ponto de vista do nikkey que escolheu individualmente o seu parceiro afetivo brasileiro, tal escolha significou o florescimento do indivíduo e a possibilidade de viver novas experiências e realidades afora das experiências ditas previstas e familiares. Mas para sobrepor o indivíduo no seio da família e da "colônia" foi necessário a morte simbólica da ordem hierárquica e coletiva da família, evidentemente que a um preço alto envolvendo o rompimento das relações familiares e também a deserdação daqueles que escolheram esse caminho.

Benzer Belgeler