Tradicionalmente, a metonímia foi contabilizada pela noção de contiguidade (cf. JAKOBSON 1956; ULLMANN 1957, p. 231-234). Nesta pesquisa a contiguidade será abordada em um sentido amplo, que inclui não só o contato espacial, mas também a temporalidade, a proximidade, as relações causais, a relação parte-todo, e assim por diante. Na abordagem da Semântica Cognitiva, a metonímia utiliza a noção de contiguidade apenas marginalmente (cf. CROFT 2002; DIRVEN 2002; RADDEN / KÖVECSES 1999:19). Isto acontece quase sempre em simultâneo com outras noções que são muito mais centrais para a abordagem cognitiva, como domínio, Modelo Cognitivo Idealizado (ICM), 'Cena', 'cenário', 'script' e 'frame' (cf. TAYLOR 1995, p. 90; CROFT 2002; RADDEN / KÖVECSES 1999, p. 21; RUIZ DE MENDOZA IBÁÑEZ 2000, p. 113 – 115).
Na teoria contemporânea da metáfora, a metonímia é hierarquicamente dependente da metáfora. Na retórica clássica, a metáfora e a metonímia estão entre as principais figuras. Já na teoria tradicional, a metonímia é conceituada como a substituição de um nome por outro em virtude de haver entre eles algum relacionamento. Um dos exemplos do processo metonímico é quando se usa o autor pela obra como em “Ler Machado de Assis”
ou em “Ter um Picasso em casa.” De acordo com a Linguística Cognitiva, assim como a metáfora, a metonímia é também uma figura de pensamento. Ela se processa quando utilizamos uma palavra em lugar de outra para designar algum objeto ou aspecto que mantém com o termo escolhido uma relação de contiguidade, de inclusão, de implicação ou de interdependência. Esses tipos resultam, por vezes, de relações de contiguidade entre esquemas imagéticos, por exemplo, "parte-todo","percurso-lugar", "origem-percurso-destino", "contêiner". O trecho a seguir, retirado de um de nossos corpora evidencia isso.
CORPUS 1:
558. ANA LÍVIA: A insegurança mesmo assim, 559. ANA LÍVIA: você chega em um ponto 560. ANA LÍVIA: que hoje em dia
561. ANA LÍVIA: você quem tem que
562. ANA LÍVIA: colocar grade na sua casa toda, 563. ANA LÍVIA: porque você não se sente mais 564. ANA LÍVIA: segura,
565. ANA LÍVIA: você vai sair de casa 566. ANA LÍVIA: tem que sair com o carro 567. ANA LÍVIA: com a porta fechada
567. ANA LÍVIA: porque você não se sente mais seguro.
Conforme a participante do grupo focal, Ana Lívia, estar segura implica estar dentro de algo como uma casa e caso saiamos de casa teremos que sair com o carro com a porta fechada para nos sentirmos seguro. A segurança, nesse trecho, é conceitualizada como extensão do esquema imagético de contêiner. Mas o que interessa para nossa pesquisa não são os esquemas imagéticos, mas a relação de causa e efeito que predomina no excerto e que e confirma a primazia da metonímia sobre a metáfora, pois trancar-se em casa ou sair com o carro com a porta toda trancada é um efeito da violência, assim como a própria insegurança é um efeito da violência, e dessa relação de causa e efeito emerge a metáfora SEGURANÇA É ENCLAUSURAMENTO. Portanto, essa metáfora subjaz à metonímia através de uma relação de causa e efeito.
Tem-se também metonímias nos deslocamentos que ocorrem entre entidades que compõem um mesmo Modelo Cognitivo Ideal, um elemento substituindo o todo. Lakoff
(1980, p. 94-96) prefere chamar de conceitos metonímicos, pois, para o autor, assim como as metáforas, as metonímias não são ocorrências casuais ou aleatórias, são sistemáticas e recorrentes em nossa cultura. Os conceitos metonímicos por ele citados são os seguintes:
1. parte pelo todo:
Ex: não ponha seu traseiro aqui8.
2. Produtor pelo produto:
Ex: ele comprou um Ford; eu odeio ler Heidegger. 3. Objeto pelo usuário:
Ex: os ônibus estão em greve. 4. Controlador pelo controlado:
Ex: um Mercedes bateu na minha traseira. 5. Instituição pelos responsáveis:
Ex: o senado acha que o aborto é imoral. 6. Lugar pela instituição:
Ex: a Casa Branca não está se pronunciando. 7. Lugar pelo evento:
Ex: não deixemos que a Tailândia se torne um outro Vietnã.
Dando seguimento a esta linha de raciocínio temos Radden e Kövecses (1999) que sugerem um estudo conceptual da metonímia como processo cognitivo. Consoante os autores, a metonímia é um fenômeno conceptual, um processo cognitivo que opera em um Modelo Cognitivo Idealizado. Como fenômeno conceptual eles advogam que a metonímia não pode ser considerada apenas como substituição do nome de uma coisa por outra, mas um fenômeno conceptual, como a metáfora, que faz parte de nossa forma diária de pensamento, fundamentada em nossa experiência, estruturando nossos pensamentos e ações.
Paiva (2010) vai além e advoga que, na produção de sentido, o processo metonímico “está presente não apenas no pensamento, mas também na ação, seja este materializado em gestos, textos escritos ou imagéticos, e sons.” (PAIVA, 2010, p. 16). Este conceito de metonímia defendido por Paiva (2010) é o que resolvemos adotar para nossa pesquisa, pois durante o processo de conceitualização da violência, tentaremos mostrar que as ideias em torno desse termo se dão de forma fractal, ou seja, é entendida como mudança de escala. A violência, portanto, será um termo visto em dimensão fractalizada, sem perdermos, contudo, a noção de todo. O excerto acima é bom exemplo dessa dimensão fractal, pois Ana Lívia, para referir-se à violência, fala de insegurança, uma dimensão da imagem de violência. Insegurança remete a medo, medo, por sua vez, remete ao final de um processo, à ação violenta. A concepção de metonímia de Paiva (2010) é bastante interessante, pois é um conceito amplo de metonímia que não se prende apenas ao enunciado em si, mas uma série de fatores contextuais que contribuem para dar sentido ao texto. È a metonímia no sentido lato sensu do termo. Nesta dissertação, tentaremos estabelecer uma ligação com esse conceito ao longo de nossas análises que envolverem relações metonímicas em nível de contexto.
No próximo capítulo, explicitaremos o caráter metodológico da pesquisa para coleta dos corpora e análise dos dados.