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Em 1972, é publicado, na International Review of Applied Linguistics (Revista Internacional de Linguística Aplicada), o artigo Interlanguage (Interlíngua), do linguista Larry Selinker. Importante marco dos estudos sobre Interlíngua, o terceiro modelo da Linguística Contrastiva. Este modelo vinha sendo desenvolvido por esse linguista pelo menos desde 1969, foi batizado por ele em 1972 e foi definido como um sistema linguístico temporário em língua estrangeira, construído e usado pelo estudante dessa língua, na tentativa de produzir um discurso espontâneo nela. A interlíngua, também chamada de dialeto idiossincrático ou dialeto de transição, preserva características da língua materna e evolui, acompanhando o processo de domínio crescente da língua alvo pelo aluno. Em 1992, é publicada a obra Rediscovering Interlanguage (Redescobrindo Interlíngua), em que Selinker revê sua teoria.

Analisemos a seguir um exemplo de manifestação de interlíngua. Imaginemos que um indivíduo, cuja língua materna é o português, estivesse aprendendo a língua italiana e, ao tentar se expressar neste idioma, falasse o seguinte:

 Noi siomos brasiliani.

A expressão siomos torna o enunciado agramatical, porque ela não existe; porém, é possível verificarmos que o termo tem características morfológicas de um verbo. Entendemos que o estudante tentou dizer em italiano Noi siamo brasiliani, que em português significa Nós somos brasileiros. O termo agramatical siomos se assemelha tanto a siamo, do italiano, quanto a somos, do português. Fica claro que o indivíduo que produz sistematicamente o enunciado acima ainda

não aprendeu ainda a forma correta do verbo essere flexionado na 1ª pessoa do plural do presente do indicativo.

Outros linguistas vinham estudando a interlíngua, atribuindo-lhe outros nomes. William Nemser destacou a natureza transitória e dinâmica desse sistema linguístico e o denominou "sistema aproximativo". Jack Richards o chamou de “competência transitória”. Dulay e Burt o identificaram pela expressão “hipótese de construção criativa”.

Stephen Pit Corder, que desenvolveu o modelo de Análise de Erros, também tratou desse terceiro modelo da Linguística Contrastiva, porque esses dois modelos estão mais interligados em termos teóricos, do que a Análise de Erros e a Análise Contrastiva. Corder escreveu artigos e livros sobre o sistema. Inicialmente chamava-o de “dialeto idiossincrático”.

É importante esclarecer que o termo “interlíngua” também foi usado anos antes com outro significado. Referia-se a uma língua auxiliar internacional elaborada em 1951 por Alexander Gode32, da International Auxiliary Language Association (Associação Internacional de língua Auxiliar). Essa língua foi construída, durante mais de duas décadas de estudos linguísticos, a partir de vasto vocabulário considerado comum a línguas de grande difusão mundial: inglês, francês, italiano e espanhol/português33. Muitas dessas palavras também eram de origem greco- romana. As obras básicas sobre essa interlíngua são Interlingua: English Dictionary (Interlíngua: Dicionário de Inglês), com 27.000 palavras, e Interlingua Grammar (Gramática de Interlíngua), ambas publicadas em 1951. Essa interlíngua nada tem a ver com a interlíngua proposta por Larry Selinker.

Ligado à Linguística Contrastiva, Selinker procurou elaborar uma teoria psicolinguística da aprendizagem de línguas estrangeiras. Ele afirmou que a mente do ser humano tem dois importantes tipos de estruturas: a estrutura latente da linguagem e a estrutura psicológica latente. A primeira está relacionada à capacidade genética de aquisição da língua materna. Adja Balbino Durão (2004) diz que, segundo Selinker, esta “é a contrapartida biológica da gramática universal que a criança transforma na gramática de uma língua particular”. A estrutura psicológica latente é a que permite o desenvolvimento da interlíngua. Durante o processo de aprendizagem da LE, esta estrutura mental promove “identificações entre-línguas” (interlingual

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Alexander Gottfried Friedrich Gode-von-Aesch, ou simplesmente Alexander Gode (1906-1970).

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identifications) de modo dinâmico. Isso ajuda o aprendiz a entender a língua estrangeira e tentar se comunicar através dela. Adja Balbino Durão (2004) apresenta mais detalhes:

A estrutura psicológica latente, de acordo com esse autor [Selinker], contém cinco processos psicológicos centrais e quatro secundários que interferem na produção linguística desses estudantes. Entre os processos centrais, estão: a) a transferência de elementos da LM para a LE; b) a transferência de instrução; c) o uso de estratégias de aprendizagem; d) o uso de estratégias de comunicação e e) a generalização de regras. E entre os secundários, estão: f) a pronúncia ortográfica; g) a pronúncia cognata (ou afim); h) a aprendizagem de holofrases e i) a hipercorreção.

A interlíngua possui algumas características que merecem destaque: tendência à evolução constante; é permeável, ou seja, recebe elementos da LE; é sistemática; fossiliza algumas estruturas; pode ser afetada pelo chamado fenômeno plateau (DURÃO, 2004).

Os fenômenos de fossilização e plateau estão interligados. O termo “fossilização” foi tomado por empréstimo do campo da Paleontologia e significa a cessação de progresso do processo de aprendizagem em LE. Refere-se também ao uso de formas linguísticas dessa língua as quais já foram erradicadas por falantes nativos. Há ainda a fossilização de erros, que ocorre, por exemplo, quando o aprendiz fica muito tempo sem contato com a LE. É, na verdade, uma ameaça constante ao domínio da LE por parte do estudante. Acredita-se ainda que, quanto mais próximas forem a LE e a língua materna, maior será a probabilidade de a interlíngua se fixar, pois os erros tendem a passar despercebidos. A fossilização é matéria de investigação de muitos pesquisadores.

É importante destacar que Selinker considera a fossilização irreversível. Outros linguistas, como Adja Durão, Hylenstam, Johnson, Martin Peris e Prada Creo, porém, acreditam que para “desfossilizar” erros é preciso motivação por parte do aluno e estudo das formas adequadas da LE, de modo que substituam as formas que indicavam fossilização (DURÃO, 2004).

O fenômeno plateau ocorre quando o aprendiz julga já ter alcançado um bom nível de domínio da LE por conseguir satisfazer suas necessidades comunicativas; ele deixa de investir no aperfeiçoamento desse domínio, porque acha que atingiu um nível suficiente de competência linguística em relação à LE.

Em relação ao valor da interlíngua, para Adja Balbino Durão (2004), a contribuição desse modelo no campo da didática é a da maior relevância:

[...] ao introduzir elementos como o tratamento dos erros, a tentativa de identificação das operações cognitivas subjacentes às produções linguísticas e das estratégias de aprendizagem e de comunicação, assim como a noção de fossilização e do fenômeno ‘plateau’ como componentes do processo de ensino/aprendizagem, modificou a própria postura dos docentes em relação à produção, à expressão e à recepção linguística de seus aprendizes.

A interlíngua é considerada de ocorrência inevitável no processo de aprendizagem de qualquer língua estrangeira. Pode se manifestar durante todas as fases do estudo da LE, embora seja mais comum no seu início, e tende a desaparecer quando o aprendiz alcança um nível alto de domínio do idioma estrangeiro. Vale destacar ainda que quanto mais próxima for a LE da língua materna, mais chance de a interlíngua se manifestar.

Benzer Belgeler