Lastimo não poder desculpar-te da demora em responder-me; quaisquer que fossem os teus negócios de advogado, não acredito que te não pudessem dar um quarto de hora para escrever a um amigo – e não acredito porque a tua car- ta encontrou-me rodeado de livros, en controu- me estudando para um concurso, en controu-me meditando sobre a melhor maneira de desenvol- ver uma tese... e no entanto foi lida com a maior satisfação e respondo-a de pronto. e queres sa- ber onde me encontrou? entre as constelações, perdido entre os mundos, no ponto culminante da astronomia, no vasto desenrolar das leis ma- ravilhosas de newton... no entanto desci logo à terra e não lastimei o fato porque realmen- te nada se perde abandonando uma estrela para abraçar um amigo.
(trecho de uma carta de euclides da Cunha [1997, p.45-6] para reinaldo Porchat. 21.4.1893)
entre as 23 notas para pesquisa, apontadas por neves (1988) no texto “Para uma teoria da carta”, encontra-se:
Quanto ao estatuto da carta: qual poder tem de falar pela pessoa; de ratificar seu nome, suas posições, suas ações? a isto se articula a questão da permanência, da vigência legítima da carta: ela só poderia ser desmentida pelo autor (e – em que circunstâncias – por outra carta). a carta “dura” enquanto não for legitimamente contradita, seja pelo modo acima exposto, seja por uma verificação instrumen- tada por um experto – em caso de dúvida quanto à autenticidade, autoria etc.
Como estatuto, neves faz referência à autenticidade, à autoria. sobre o estatuto da carta, referindo-se à sua importância, inclusive literária, diz-nos Walnice galvão (1998):
Podemos ter nas cartas: 1) elementos preciosos para a recons- tituição de percursos de vida; 2) fontes de ideias e de teorias não comprometidas pela forma estética; 3) em certos casos ainda, como os de Madame de sévigné e de sóror Mariana alcoforado, um esta- tuto exclusivo devido à qualidade impecável de escrita. tais são os pesos que as cartas podem assumir dentro dos estudos literários. as cartas são inestimáveis para os estudos literários, nos diz Walnice galvão no ensaio “À margem da carta”, e traz, como exemplos, as missivas escritas por Fernando Pessoa a Mário de sá-Carneiro, discutindo projetos estéticos, ou a adolfo Casais Monteiro, explicando a origem e a personalidade de cada um de seus heterônimos; as escritas por Proust, que já chegam a 22 volumes edi- tados e ainda não esgotadas; as de Mário de andrade, que se contam aos milhares, incomparáveis em importância crítica e originalidade.
Quase sempre, diz galvão (1998),
chega-se até as cartas, enquanto tarefa de pesquisa, praticamente por acaso. e um acaso que logo se metamorfoseia em necessidade. ao interesse, digamos, malsão, pela petite histoire, ou seja, pela bisbilhotice, pelo diz-que-diz-que, pelo avesso da obra e de seu autor, vem somar-se o prazer dúbio do voyeur, este sim indubitável.
observa-se que o resgate da epistolografia costuma ser, menos que uma especialidade, uma decorrência de outro trabalho.
assim foi que, segundo galvão, as cartas de euclides da Cunha foram surgindo paralelamente ao preparo da edição crítica de Os ser-
tões e surpreenderam por serem tantas ainda inéditas ou por outras
terem sido transcritas por fragmentos. decorrente de outro trabalho e de todo um rigor na compilação de documentos novos e conheci- dos, surgiu um livro de 464 páginas que consolida a Correspondência
de Euclides da Cunha (1997), dando a público 398 cartas, das quais
107 são inéditas.
em um outro ensaio, “remendando 1897”, galvão (1998) retoma as cartas anteriores à notoriedade de euclides da Cunha tra- zida pela publicação de Os sertões em 1902. retoma especialmente as cartas escritas em 1897, ano da estada de euclides em Canudos, onde recolheu vasto material para sua obra Os sertões. no decorrer dos anos seguintes, a correspondência recolhida é escassa, voltando com intensidade após a publicação e a aceitação pública do livro.
no âmbito deste trabalho, retomo a leitura das cartas escritas antes da notoriedade; entre essas, destacam-se as que foram escri- tas a reinaldo Porchat, para quem é destinado um número maior de cartas (37 cartas antes de 1902); também são as de circulação mais restrita, conforme as fontes indicadas por galvão. Porchat é, em número, o segundo correspondente de euclides da Cunha; o primeiro é Francisco de escobar, também amigo.
Para além das preocupações estatutárias e sem entrar em critérios de amizade, da leitura das cartas destinadas a Porchat (o trecho em epígrafe foi extraído de uma delas) ficam-nos algumas imagens não tão presentes quando escreve para outros correspondentes. aqui trago alguns trechos dessas cartas:
assim como mudaste o dia da tua correspondência, mudo eu o da minha; nada de sextas-feiras! escrever-te-ei doravante nos sábados, dias mais alegres e próprios às prosas agradáveis com bons companheiros ausentes. 13.8.1892. (Cunha, 1997, p.34)
eu vou por aqui arrastando a vida, acumulando diuturnamente energias que me bastam, para suportar a dura tarefa de uma posição, ou que cheguem para eficazmente agirem sobre a retorta do trabalho honrado, segundo a vetusta chapa. Por isso mesmo que me preo- cupo – não vivo; as horas absorvidas na luta de todos os momentos, passam-me breves e esquecidas e, sem exagero, posso dizer-te que só compreendo que existo quando um ou outro quarto de hora feliz, como este por exemplo em que te escrevo, me faz tornar à feição verdadeiramente atraente da vida. 20.8.1892. (ibidem. p.36)
respondo com a maior satisfação a melhor carta entre todas as que me tens escrito [...]. respeito tanto a tua alegria que serei bre- víssimo, não querendo roubar-te o tempo melhor da vida. não te direi que recebi com imensa alegria a agradável notícia porque não te faço a injustiça de supor que isso seja necessário. dir-te-ei porém o seguinte: recebi tua carta com o meu pequenino solon [filho] ao colo e ao lê-la acudiu-me ao espírito a idealização de uma amizade futura entre ele e o teu, amizade tão sólida que pudesse recordar a velha amizade dos pais. acredito que não podia ter melhor pensa- mento para corresponder à boa notícia que me deste. 23.5.1893. (ibidem, p.49)
infelizmente não poderei longamente responder a tua carta, que acabo de ler e que com certeza hei de reler muitas vezes. ela me foi altamente consoladora; abri-a como quem abre uma janela à entrada de manhã claríssima na câmara de um doente. envio ao distinto amigo o agradecimento mais sincero pelas suas consoladoras pala- vras. [...] Lamentei que por excesso de delicadeza te ocupasses na tua carta muito pouco de tua pessoa; deves entretanto saber que ligo algum interesse à fortuna dos amigos; assim, pois quando responde- res a esta não te esqueças de dar-me mais amplas notícias do digno amigo reinaldo Porchat [destinatário]. 2.12.1893. (ibidem, p.53-4) nos trechos citados, uma correspondência vai se efetivando e vão-se apontando indícios de que uma amizade se conquista: euclides escreve, segue o outro na mudança do dia da correspon- dência, demarca como hora feliz e quer que o outro escreva também.
das imagens fica-nos o encurtar distâncias quando se desce das constelações para abraçar um amigo; ou quando dispensa palavras que traduzam alegria e com palavras constrói um gesto e idealiza uma relação futura (para os filhos de ambos) com base numa relação presente; ou ainda quando abre uma janela à entrada de uma manhã claríssima e chama o amigo a dar notícias, a falar de si também.
no rol das imagens ficam também registros que vão dando pistas do dia a dia, da vida que vai penetrando e fazendo a escrita.
Para além do acaso que leva à descoberta de outras cartas, muitas vezes inéditas, para além da escolha dos assuntos – ou da ordem/ desordem em que são postos – que são tratados pelo correspondente, ou à escolha dos trechos aqui trazidos, não são acasos as maneiras de estreitamento das relações entre os interlocutores.