3.6. İşyeri Şiddetinin Önlenmesi
3.6.4. Etkinliğinin İzlenmesi
Antes de apontar quaisquer mudanças na prisão e na própria organização formal a partir da presença das facções criminosas nos presídios, três esclarecimentos são necessários. Primeiro
154 é necessário explicitar os critérios utilizados para delinear o objeto; segundo, demarcar o momento em que surgem essas organizações e problematizar as conseqüências e os limites dessa escolha; e, por último, contextualizar esse momento, relacionando-o com as mudanças que ocorriam no âmbito social mais amplo.
Para viabilizar essa breve análise das facções nesta pesquisa, três serão os recortes que delinearão o objeto: quantitativo, espacial e temporal. As referências se limitarão a apenas duas facções criminosas formadas nos Estados do Rio de Janeiro e São Paulo: Comando Vermelho e Primeiro Comando da Capital, respectivamente.
Não se pretende com essa delimitação realizar uma análise minuciosa dessas duas organizações, tampouco desenvolver uma teoria aplicável a todas as organizações criminosas que atuam nas prisões brasileiras. Primeiro porque um recorte aprofundado sobre o funcionamento de uma organização criminosa seria tema para uma pesquisa específica, que tivesse o estudo da facção como seu objeto (o que não é o caso do presente trabalho). E, depois, cada facção tem uma história particular e características próprias, por isso o risco de se falar em “a facção”.
Utilizar-se-á a história e o discurso dessas duas organizações criminosas a título exemplificativo, ciente das limitações e dos riscos de realizar uma abordagem reducionista. Com isso, pretende-se apreender, ainda que superficialmente, algumas mudanças ocorridas no cotidiano prisional e na organização dos presos com a consolidação das facções nas prisões.
A afirmação dessas organizações nos Estados de São Paulo e no Rio de Janeiro se deu de formas diversas e em momentos distintos. Pode-se dizer que, no Rio de Janeiro, as facções surgem com a fundação do Comando Vermelho no presídio de Ilha Grande, após o contato com os presos políticos que ali estavam. Em São Paulo, somente tem-se a consolidação desse tipo de organização nos anos noventa, com a fundação do Primeiro Comando da Capital, após o massacre do Carandiru e a publicação da Lei dos Crimes Hediondos, no inicio dos anos 90.
155 A fundação do Primeiro Comando da Capital (PCC) em 1993 marca a mudança na forma em que os presos do sistema prisional paulista vinham se organizando. Como esta pesquisa (principalmente no capítulo anterior) se concentrou na análise no sistema prisional e na política penitenciaria paulista, optou-se por estabelecer o início dos anos noventa como marco temporal que divide o sistema prisional em antes e depois das facções.
A escolha desse determinado fato ou data como divisor de águas dentro da realidade prisional é meramente simbólica. As facções não poderiam ter se organizado do dia para noite. Além do mais, não se poderia tratar do surgimento das facções criminosas nas prisões como um fato isolado, desvinculado das características sociais, políticas e econômicas da sociedade e das escolhas político-criminais da época.
As diferenças sublinhadas entre um período e outro não podem ser tidas como conseqüência exclusiva do fortalecimento dessas organizações. É imprescindível que seja levado em conta o lapso temporal entre um período e outro, observando o impacto no âmbito prisional das condições (e da mudança das condições) históricas, políticas e econômicas da sociedade; e ainda, de que forma essas mudanças possibilitaram que as organizações crescessem e se estabilizassem.
O endurecimento da legislação penal a partir dos anos noventa teve grande impacto na realidade do cárcere. Como visto no capítulo anterior, a edição da Lei dos Crimes Hediondos em 1990 fez com que o número de presos e o grau de tensão nos presídios aumentassem. O incremento da pena instituído pela lei, e a vedação de progressão de regime para os
condenados por esses crimes, significaram mais presos por mais tempo em regime fechado, e sem perspectiva de sair dessa situação tão cedo.
Essencial à compreensão do ambiente prisional que originou as facções é atentar para o aumento quantitativo (quanto ao número) e qualitativo (quanto à rigidez disciplinar) dos presídios de segurança máxima e regimes de extremo rigor disciplinar, que vem ocorrendo no Estado de São Paulo desde os anos 90.
156
Além dessas mudanças no âmbito penal e prisional, as novidades na área da tecnologia da comunicação também afetaram a realidade prisional. A popularização da telefonia celular e sua entrada nos presídios possibilitaram a criação de uma rede de comunicação e controle capaz de transpor os muros. Os presos passaram a se comunicar mais facilmente, com maior liberdade e em “tempo real” 121, com outros presos que cumpriam pena em estabelecimentos diferentes e com as pessoas de fora da prisão.
O aperfeiçoamento na comunicação possibilitou que as organizações informais se fortalecessem internamente (devido ao aumento da coesão entre seus membros e da
centralização das suas decisões) e se espalhassem pelas unidades prisionais. Ao mesmo tempo em que a ampliação dos canais de comunicação dos presos com as pessoas do “mundão” permitiu que essas organizações se expandissem para fora dos espaços institucionais.
Ademais, o uso quase indiscriminado do celular pelos presos permitiu que eles cometessem crimes de dentro dos presídios (extorsão por telefone, tráfico de drogas etc) e comandassem ações criminosas em outros presídios (por exemplo, ordenando a aplicação de sanções aos que violaram as leis do mundo do crime). No depoimento para CPI- Tráfico de Armas, Marcola (suposto líder do PCC) responde ao Deputado Jõao Campos”:
“Deputado – (...) Quais são os diversos mecanismos de comunicação entre os presídios? Marcola – Telefone celular.
Deputado – Só?
Marcola – O senhor quer mais que isso?”
A própria forma de cometer crime mudou no decorrer desses anos: a ação criminosa praticada em grupo passou a ser mais planejada. O aperfeiçoamento na preparação e na realização de crimes sofisticados e de alta lucratividade só foi possível a partir do respaldo técnico e financeiro assegurado por uma organização. Além disso, o poder econômico das facções, ao
121 Excetuado o dia da visita, a única forma que o preso tinha para se comunicar diretamente com as pessoas de
fora do estabelecimento prisional era por meio de cartas. Há duas limitações neste tipo de comunicação: o lapso temporal que separa a fala dos interlocutores e a censura do conteúdo da mensagem.
157 corromper alguns agentes estatais, protege e liberta, ocasionalmente, seus membros das
malhas do sistema de justiça.