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2.10. İletişimi Kolaylaştıran Etkenler

2.10.3. Dinleme

2.10.3.1. Etkin Dinleme

Na seção acima, discutiu-se que a música sertaneja é um gênero em que toda a cadeia produtiva, isto é, produção, circulação e consumo, é profundamente implicada pelo deslocamento de artistas e potenciais consumidores do campo para a cidade. São Paulo passou a ser o destino inicial, como apontam os relatos, de qualquer um que tivesse o sonho de se tornar artista. Esse cenário, entretanto, começou a mudar a partir dos anos 2000, como se verá. Outras cidades, como Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, e Goiânia, em Goiás, passaram a reunir as condições técnicas necessárias para que o registro e circulação da música sertaneja se dessem localmente e se transformaram, de certo modo, no novo destino para os aspirantes a ídolos do seguimento sertanejo.

A partir da década de 2000, a música sertaneja entra numa nova fase de transformações e algumas duplas e artistas solo começam a compor o quadro do que veio a ser chamado de sertanejo universitário. O sertanejo romântico continuou a lançar discos, mas começou a disputar espaço nas prateleiras das lojas, na programação do rádio e, mais recentemente, na internet, com um produto voltado para uma parcela bem mais jovem da população que, como se verá, quase não mantém vínculo com as raízes da música rural. Trata-se de um público que frequenta os festivais e as baladas sertanejas realizadas por todo o país ao som de músicas que tratam do consumo de bebidas alcóolicas, carros importados e sexo casual.

A letra de uma das músicas que marcam esta fase, intitulada Mulherada na lancha, faz referência a várias marcas de bebida ao falar sobre o consumo de álcool por mulheres nas baladas, um dos muitos sinônimos empregados para festa: “Pega o Black, traz o Jhonnie, abre o Blue Label e tome”. É interpretada pelo paraense Israel Novaes, e foi gravada por ele no seu primeiro DVD, de 2013 – gravado em Goiânia. Na oportunidade, Israel usava uma camisa xadrez e uma calça preta de couro. Um aspecto merece destaque: a presença de um trio de metais (trombone, sax e trompete), de uma sanfona e de uma percussão, o que aponta para mudanças significativas que, neste caso, correspondem à incorporação de uma sonoridade típica do forró moderno na música sertaneja atual.

Figura 8 – Israel Novaes canta Mulherada na lancha

Fonte: Canal de Israel Novaes no YouTube.

A natureza, as características e os principais representantes do chamado sertanejo universitário serão apresentados aqui, com base em um dos únicos relatos publicados em livro sobre essa vertente da música sertaneja. De acordo com Alonso (2015), o sertanejo universitário nasceu, provavelmente, em 2005, com o disco Palavras de amor, da dupla César Menotti & Fabiano. Entretanto, esse autor reconhece a importância de um disco lançado dois anos antes, pela dupla João Bosco & Vinícius, intitulado Acústico no bar, embora faça a ressalva de que a qualidade de gravação é baixa.

Esta tese toma esse disco de 2003, mesmo admitindo que a argumentação de Alonso é apropriada, como o marco do início do sertanejo universitário. Por três razões: João Bosco & Vinícius eram, em 2003, estudantes universitários; o CD evidencia uma relativa independência da estrutura que uma gravadora disponibilizaria no que diz respeito à gravação; e constitui um registro mais ou menos fiel do que os frequentadores dos bares de Campo Grande, – também universitários –, ouviam durante as apresentações da dupla.

Figura 9 – Disco que marca o início do sertanejo universitário

Fonte: Internet.

De qualquer forma, trata-se de um desdobramento da música sertaneja, que, assim como esta, tem sido alvo de muitas críticas por parte dos defensores de uma música genuína e de uma cultura autêntica. Essas críticas, entretanto, como observa Alonso, muitas vezes partiam de pessoas que, em outro momento, também foram consideradas “mercadológicas”.

Boa parte dos artistas que compõe essa vertente da música sertaneja contemporânea iniciou a carreira no contexto universitário. Alonso (2015, 377) pontua:

Jorge estudava Direito e Mateus, Agronomia. Maria Cecília e Rodolfo se conheceram nos bancos acadêmicos da faculdade de Zootecnia. O Sorocaba, da dupla Fernando & Sorocaba, estudou Agronomia. João Carreiro e Capataz são formados em Administração e Direito, respetivamente. Mariano estudava Zootecnia e Munhoz, Administração Rural. De forma que os cantores rurais, parcialmente, mudaram de estirpe. Agora são de fato, em sua maioria, universitários.

Uma das principais características do sertanejo universitário, sugere o autor, é a preferência dos artistas pela gravação de discos no formato ao vivo ou acústico, incluindo a regravação de “clássicos” da música sertaneja. Cantar ao vivo seria, para quem começou a difundir sua música através da internet, essencial. Mantém o contato direto com o público, aspecto que remete ao início de carreira.

Alonso (2015, p. 395) enumera três linhas estéticas e temáticas que definiriam o sertanejo universitário: 1) uma poética amorosa otimista, “na qual os amantes querem efetivar seus sentimentos amorosos, e o tom da canção é esperançoso”; 2) uma poética da farra, em que

“as canções favorecem encontros fortuitos e breves em festas ou no dia a dia; e 3) uma poética da indiferença, em que “não se sofre mais por amor e parte-se para outros relacionamentos aparentemente sem culpa”.

Essas linhas estéticas e temáticas constituem uma diferença fundamental em relação à música sertaneja das décadas de anteriores. O autor afirma que:

Somadas as três propostas, percebe-se que, ao menos tematicamente, houve uma mudança de 180 graus no sertanejo universitário. Se os sucessos de Milionário & José Rico, Zezé di Camargo & Luciano, Chitãozinho & Xororó e Leandro & Leonardo eram basicamente canções “de corno”, que cantavam a distância da pessoa amada e a impossibilidade da realização amorosa, o atual sertanejo universitário subverteu essa lógica. Hoje se busca a concretização do amor; há um hedonismo individualista que faz com que o sujeito não sofra se a relação amorosa não se concretizar.

As mudanças, entretanto, não dizem respeito apenas à temática das músicas. Há transformações significativas no aspecto visual, em comparação ao modo como as duplas sertanejas eram representadas no passado, por exemplo, nas capas de discos. Esses elementos gráficos são adequados, se pensados como parte de uma proposta mais ampla de representação da vertente contemporânea da música sertaneja como jovem, urbana e conectada.

Figura 10 – Disco da dupla Jorge & Mateus lançado em 2015

Fonte: Internet.

A sonoridade do sertanejo universitário também é diferente, em relação a momentos anteriores do gênero musical. Pelos instrumentos musicais, o som se tornou mais acústico,

afirma Alonso. Os vocais teriam ficado mais graves, em decorrência da diminuição gradual do vibrato. E as fronteiras entre os gêneros musicais são esmaecidas. O sucesso dessa vertente poderia ser explicado, nesse sentido, pela aproximação do gênero com ritmos populares, como os que procedem do funk, do forró, do axé, do pagode e do arrocha.

A mídia dá uma atenção significativa ao sertanejo universitário, principalmente em função de um interesse da Som Livre, gravadora que pertence ao Grupo Globo, pelo gênero musical. No que diz respeito à produção fonográfica brasileira, a Som Livre, fundada em 1969, é responsável, em primeiro lugar, pela produção e distribuição de discos das trilhas sonoras das novelas produzidas pela TV Globo. Nos últimos anos, entretanto, a gravadora passou a agregar ao seu catálogo de artistas, cantores de gêneros musicais como a música religiosa e a música sertaneja. Em uma consulta realizada em julho de 2015 no site da gravadora, verificou-se que mais de trinta porcento do atual cast é composto por artistas ligados ao segmento sertanejo56.

Em julho de 2015, o programa Profissão Repórter, da TV Globo, abordou a questão dos custos para a fabricação de um novo artista sertanejo. O programa começa reforçando que a trajetória dos artistas sertanejos é mais ou menos parecida: alguns anos trabalhando na noite, em bares, tentando conseguir a atenção dos consumidores. Um dos artistas entrevistados, o cantor sertanejo Jeferson Moraes, afirmou que Goiânia é a capital do sertanejo. Esse depoimento reforça a ideia de que o eixo Rio-São Paulo, pelo menos no que diz respeito à produção de música sertaneja, não é mais hegemônico.

Informações não oficiais, apresentadas por um dos repórteres do programa, dão conta de que o lançamento de um novo cantor sertanejo, incluindo sessões de gravação, cuidados com a aparência e divulgação, pode chegar a três milhões de reais. O repórter alerta, entretanto, que, diante das câmeras, ninguém fala abertamente sobre valores.

O capítulo a seguir é fruto de uma tentativa de compreender um dos muitos deslocamentos da música sertaneja pelo território brasileiro. Trata do cenário da música sertaneja em São Luís, formado por artistas que tentam ganhar a vida nos bares e casas de show da capital maranhense. Discute-se a constituição da identidade desses artistas, alguns dos modos como eles são representados pela mídia local e também o consumo que eles fazem da música sertaneja num contexto mais amplo. Interessa compreender o lugar da mídia na formação da identidade desses artistas e o modo como eles se colocam em relação às marcas de gênero da música sertaneja. É um capítulo empírico, que inclui a apresentação da metodologia utilizada na coleta dos dados expostos.

56 Uma lista dos artistas que compõem o cast da Som Livre pode ser acessada no site oficial da gravadora, no

Benzer Belgeler