Grosso modo, entende-se como língua materna a língua adquirida no seio familiar, comumente a língua oficial do país em que se vive; e como segunda língua, a língua adquirida fora do âmbito familiar, comumente a que se aprendeu em aulas de língua estrangeira, na escola ou em curso de idiomas ou na permanência em outros países. Assim, também na escola “tem-se assumido como língua materna aquela em que a criança foi alfabetizada, língua que coincide, em muitos casos, embora nem sempre, com o registro oficial – padrão – do país em questão [...]” (CORACINI, 2003, p. 145).
Esse conceito de língua materna, em princípio, não parece gerar conflitos, principalmente em países que adotam uma única língua como seu idioma oficial, como é o caso do Brasil. Há de se ressaltar, porém, que, em algumas regiões do Brasil, principalmente nas regiões Sul e Sudeste, ainda22 existem comunidades de descendências italiana, japonesa, judaica e alemã que cultivam a língua de seus antepassados no berço familiar, empregando o português somente quando a situação social o exige, como em instituições públicas ou eventos sociais. Dessa forma, nessas regiões, não se pode falar de língua portuguesa como língua materna, uma vez que ela é adquirida apenas na escola. Ou seja, a língua portuguesa, de fato, é uma segunda língua para os brasileiros dessas comunidades.
No campo da Lingüística, entretanto, a terminologia língua materna é empregada também como oposição à norma lingüística ensinada nas escolas. Esse emprego ocorre em razão das diferenças entre a norma a ser adquirida e aquela efetivamente empregada pelo aluno. Assim,
22
Empregamos o operador argumentativo “ainda” por entendermos que essas comunidades estão se esvaziando, devido a migrações para grandes centros urbanos, ou devido à influência dos meios de comunicação e midiáticos.
a norma ensinada na escola seria uma espécie de segunda língua paro o aluno. A terminologia
variante materna e variante não-materna também é empregada como sinônimo para língua materna e língua não-materna nesse contexto.
O reconhecimento da distância entre as variedades de prestígio e as estigmatizadas pressupõe a necessidade do processo de ensino-aprendizagem para a aquisição daquelas. Esse processo de aprendizado exige esforço e empenho, como qualquer outra disciplina escolar, pois é um processo de aperfeiçoamento, como ocorre com outras atividades humanas (ROCHA, 2002a).
O emprego da terminologia “língua materna” e “língua padrão” para a norma aprendida no cotidiano e a aprendida na escola, respectivamente, não se dá em referência a sistemas lingüísticos distintos. A adoção dessa terminologia, na Lingüística, pode ser entendida como uma forma de enfatizar a distância entre uma e outra variedade. Scherre (2005, p. 95) entende que o ensino de gramática normativa representa o ensino de uma segunda língua, pois esta seria o reflexo de um “outro estado da língua, com um outro conjunto de relações”. Ou seja, ele representa uma segunda língua, mas trata-se de uma única língua. Esse, porém, não é o entendimento de Perini (2005, p. 36), pois, segundo o lingüista, “há duas línguas diferentes no Brasil.” Uma língua seria a que se escreve, o português; outra seria a que se fala, o vernáculo, e que não teria nome.
Entendendo que a variação lingüística é característica intrínseca a línguas vivas ágrafas e não- ágrafas, pensamos não se poder afirmar que, para a maioria da população brasileira, a variante padrão aprendida na escola seja uma verdadeira segunda língua23. As variantes do português
23
Ressaltamos para o fato de alguns países adotarem uma ou mais línguas oficiais e para os países que sofreram o processo de colonização. Nesses casos, as crianças aprendem uma segunda língua na escola, uma vez que se trata de sistemas lingüísticos diferentes – em nota anterior reportamos para tais casos no Brasil.
28
em nosso país são intercambiáveis e também em relação ao padrão escrito24 da língua, o que as faz pertencentes à mesma língua e, não, a uma segunda língua.
Isso também pode ser verdadeiro em relação à variante portuguesa e à brasileira da língua portuguesa. Bagno (2002c, p. 167), entendendo que as diferenças entre o português falado em Portugal e o falado no Brasil seriam maiores que as semelhanças, afirma que “todos eles [lingüistas] são unânimes em afirmar que no Brasil, definitivamente, se fala uma língua diferente da falada em Portugal”. Na escrita, porém, cabe lembrar, que a gramática é a mesma: flexões, classes de palavras, formação de palavras e, principalmente, sintaxe.
Entendemos que a distância entre a norma padrão ensinada nas escolas e as normas estigmatizadas, faladas principalmente pelas camadas mais iletradas da sociedade, não impede a compreensão de outra variante. As incompreensões, quando ocorrem, se devem muito mais à restrição vocabular e ao desconhecimento de dados referenciais – concernentes ao conhecimento de mundo e à diferença cultural – que à distância entre uma variante e outra. As incompreensões são muito mais conseqüências da falta de leitura ou mesmo da dificuldade de acesso aos bens culturais que à intercambialidade entre as variantes da mesma língua, no caso, da portuguesa. Nesse sentido, Leão (1997, p. 25), falando sobre a unidade da língua portuguesa e a dificuldade no entendimento de textos, afirma: “O problema, pois, está no saber ler. Não desloquemos para as variedades na língua portuguesa uma culpa que, na realidade é do analfabetismo”.
Por entendermos que as variantes trazidas pelos alunos e aquela exigida na escola formam um
continuum, e pertencem, portanto, ao mesmo sistema lingüístico, não adotaremos a
terminologia língua materna em referência às variantes (estigmatizadas ou não) aprendidas fora do âmbito escolar. Entendemos como língua materna, todas as realizações lingüísticas da
24
língua portuguesa. Estas realizações compõem as diversas variantes lingüísticas inerentes ao nosso idioma. Assim, quando nos referimos à língua materna, entendemos a língua portuguesa e não alguma variante específica do nosso idioma.