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Se para White (2001), as narrativas históricas “são ficções verbais cujos conteúdos são tanto inventados quanto descobertos e cujas formas têm mais em comum com os seus equivalentes na literatura do que com os seus correspondentes nas ciências” (WHITE, 2001, p. 98, grifo do autor), isso nos faz pensar sobre o que esse estudioso entende por ficção. A carga pejorativa que muitas vezes é atribuída ao termo não é aqui colocada. A ficção, por esse ângulo, é pensada no sentido de uma invenção, de uma criação. Um sentido de construção de algo pelo homem e não com a ideia de falsidade ou de mentira.

Mas como falarmos do sujeito-autor Graciliano Ramos sem conhecermos um pouco do que já foi dito sobre ele? Como o escritor foi analisado por outros estudiosos? Qual a visão desses estudiosos sobre a sua obra? Tentaremos responder a essas indagações.

Sobre Graciliano Ramos, encontramos um significativo número de trabalhos publicados. Todavia, a análise de Vidas Secas, a partir da abordagem da AD, parece-nos inédito. Neste breve texto, seria pretensão nossa dar conta da totalidade das publicações a respeito de sua obra, mas enfocaremos algumas dessas produções. Nesse sentido, faremos breves comentários acerca de alguns trabalhos que tem o literato como objeto de pesquisa. Interessa-nos aqui o olhar de como esses estudiosos perceberam a obra do literato brasileiro, a fim de construirmos a nossa teia para compreensão do lugar social do qual falava Graciliano Ramos em sua forma-sujeito escritor. Então, vejamos.

Holanda (1992), comparando Vidas Secas, de Graciliano Ramos, e O Estrangeiro, de Albert Camus, considera que o literato brasileiro denuncia um sistema social de extrema desigualdade, uma dicotomia entre o mundo dos letrados e o mundo dos iletrados que estão à mercê daqueles que dominam a escrita. A personagem Fabiano é o retrato dessa desigualdade, da revolta e da consciência de si – aquele que não domina o signo da linguagem e vive sob o

signo do silêncio, aquele que é silenciado em um sistema social perverso, sistema que precisa ser apontado e denunciado.

Ao analisar essas duas grandes obras da literatura, Holanda (1992, p. 30) traz uma relevante contribuição para o entendimento da obra gracilianista. O autor observa: “o que Graciliano aqui acusa é o sistema social que embaça o espelho, impedindo, assim, ao indivíduo, a visão de si, reflexiva”. Podemos, assim, dizer que Graciliano acusava a ideologia do governo Vargas que dominava e embaçava esse espelho da realidade de dominação. Em Vidas Secas,

a despossessão de Fabiano é a mais completa: além da despossessão que a reificação reitera (é um “cabra”’, um “bicho”), e da despossessão da palavra, há mais: o desejo mesmo de Fabiano é um desejo “alheio” porque mediado pela figura de Seu Tomás. Não é genuíno, não tem origem nele, mas é feito por “procuração”. [...] Fabiano empresta um rosto anônimo à máscara social. (HOLANDA, 1992, p. 30).

Essa máscara social, observada por Holanda, pode ser analisada, na perspectiva de Pêcheux (1988), como produzida pela ideologia que fornece as evidências e disfarça o caráter material do sentido. O sentido assim é atravessado pela ideologia que se manifesta na escritura do sujeito-autor, pois, também, é por ela afetado.

Outro estudioso acerca de Graciliano Ramos, Miranda (2004), aponta que o literato constrói uma memória que se contrapõe à memória oficial, retrata circunstâncias até então pouco conhecidas. Parte de suas experiências para a denúncia em sua literatura. Não procura reificar essa conjuntura, mas se contrapor com o que lhe é possível – as palavras – dentro de uma relação de poder2

. Se, para Fabiano, as palavras lhe dariam status e poder, na escritura de Graciliano constituem o sentido de resistir, pois “não há dominação sem resistência: primado prático da luta de classes, que significa que é preciso ‘ousar se revoltar’” (PÊCHEUX, 1988, p. 304). A ousadia de Graciliano se materializa em seus escritos. Dessa forma, para Miranda,

2 Sobre as relações de poder, Michel Foucault aponta que “o poder é coextensivo ao corpo, não há entre as

malhas de sua rede, praias de liberdades elementares; [...] que elas não obedecem à forma única de interdição e do castigo, mas que são formas múltiplas; [...] que não há relações de poder sem resistências; que estas são tão mais reais e eficazes quanto mais se formem ali mesmo onde se exercem as relações de poder; [...]”. (FOUCAULT, 2003, p. 248-249.)

Narrar é agir. O significado do vivido toma forma de ações e através das ações compartilhadas, que se tornam o meio essencial para lançar os fundamentos de uma atuação autêntica que o futuro arrancado ao passado, na narrativa, deixa entrever. Trata-se de encontrar uma memória distinta da oficial, de opor a “tradição” sufocada à “história” triunfante e consolidada dos adversários que não cessam de vencer (MIRANDA, 2004, p. 64).

Desse modo, o estudioso vê em Graciliano Ramos, um contraponto à construção histórica pretendida pela memória oficial – a memória do governo Getúlio Vargas. A memória do período, registrada na obra gracilianista, especialmente em Vidas Secas, desvela uma sociedade com grandes contrastes e desigualdades sociais. Essa obra, então, encampa uma denúncia e uma acusação a esses desequilíbrios na sociedade das décadas de 1930 e 1940. Nessa direção, vemos que Graciliano se inscreve em uma formação discursiva de esquerda que é antagônica à formação discursiva na qual se inscreve o governo Vargas. Estão, assim, a nosso ver, delimitadas as condições de produção dos enunciados gracilianistas – inseridas no embate entre duas FDs antagônicas que lutam pelo espaço do poder e do dizer.

Para Dória (1993), Graciliano Ramos deve ser visto como um universalista, não como um regionalista, embora esteja colocado por muitos entre os escritores da década de 1930, do chamado regionalismo problemático. Dória afirma que este regionalismo problemático “consiste no tratamento da diversidade como elemento enriquecedor da percepção do todo, produzindo patamares superiores de identificação enquanto povo e nação” (DÓRIA, 1993, p. 30). A construção do local apenas se dá ao se particularizar o que é universal. Procura-se perceber a sociedade em seus aspectos gerais, a partir do aspecto particular.

Podemos enfatizar o olhar apontado por Dória pelas palavras do próprio Graciliano, ao se referir à cidade em que foi prefeito:

Palmeira é uma cidade essencialmente brasileira. Grande parte dos defeitos e das virtudes que no brasileiro se encontram, em geral, o palmeirense possui, em particular. Reproduz-se, entre nós, em ponto pequeno, o que o país em ponto grande produz [...] o que o Rio de Janeiro imita em grosso nós imitamos a retalho. Usamos fraque por cima da tanga, alpercatas e meias” (RAMOS, 2005b, p. 83-84).

Graciliano Ramos significa textualmente não haver a distinção entre a problemática regional e a nacional, exceto pela sua amplitude e especificidade, evidenciando o

universalismo dos seus escritos. Nessa direção, os sentidos que este enunciado carrega devem ser percebidos em um contexto nacional.

Na perspectiva de um autor memorialista e autobiográfico, Bulhões (1999) analisa Ramos (1993), tendo como ponto de partida a obra Infância (1945), em que retoma as lembranças de sua meninice em Alagoas, reelaborando e rememorando acontecimentos. A análise que Bulhões realiza sobre essa obra, coloca-a como um retrato de uma época, de sua aprendizagem e o seu contato com o mundo letrado, as suas angústias com o modelo que reprime e exclui os que não compreendem “esse mundo”.

Em outra análise, Coutinho (2001) menciona que Graciliano Ramos constrói uma obra literária em que se interagem o ficcional e o autobiográfico que gradativamente vai ganhando espaço em sua escrita. A obra gracilianista é “inquietante e de inquietação, denunciadora e angustiada”, nela, o local e as experiências vividas, são revisitadas em seus escritos, não apenas como forma de recordações e lembranças, mas como espaço de denúncia e inquietação acerca das relações estabelecidas e arraigadas em um espaço social de extrema desigualdade.

Já na leitura de Souza (2001), Graciliano Ramos desvela-se ao escrever suas reminiscências, visto que nelas os fatos não obedecem a limites e com a proximidade da velhice são recordadas, resumindo o passado e transmitindo experiências mediante a sua escritura. O seu “caráter ficcional grave não induz a questões metafísicas, mas, daquilo que absorveu com as experiências, seleciona sempre acontecimentos com os quais não está ligado pela cumplicidade” (SOUZA, 2001, p. 40). Dessa maneira, a autora sugere um Graciliano Ramos (re)inventor do passado, pois as suas lembranças registradas em algumas de suas obras remontam a um passado recriado pelas percepções e experiências do presente vivido.

A memória como um fenômeno social em Graciliano Ramos é a abordagem proposta por Lemos (2002). A autora analisa a obra gracilianista a partir do aporte teórico de Halbwachs (2006) sobre a memória coletiva. Estando, dessa forma, o ato de rememorar intrínseco e enraizado às experiências individuais inseridas no corpo social, “como membro de um grupo social e a partir dos lugares que ocupamos e deixamos de ocupar”.

Já Candido (2003), assegura que Graciliano Ramos se insere no movimento de ampliação da literatura brasileira após a Revolução de 1930. Naquele momento, segundo Candido (2003, p. 199-215), “houve uma ampliação e consolidação do romance [e a] radicalização posterior à Revolução daquele ano favoreceu a divulgação das conquistas da

vanguarda artística e literária dos anos 20”. Para o autor, ocorreu uma transformação do regionalismo, a partir do “romance do Nordeste”, ao extirpar o olhar paternalista, exótico e pitoresco que perpassava até então aqueles romances, substituindo esse paradigma por uma posição mais crítica e agressiva de acentuado realismo. Candido (2003) destaca Graciliano entre os grandes escritores da literatura brasileira.