Estudar eu não gostava. Agora já to sentindo falta de novo!
Eu tava na 8ª (quando recebeu a medida de Internação)... aí, eu conclui lá, terminei lá. Fiz uma prova e aí eles falaram assim: que não ia dar pra passar eu de ano porque eu não tinha ficado três meses (estudando) na UI. Mas só que quando você chega lá eles falam que você começa a estudar pra não perder o ano. Praticamente é uma mentira que eles falam só pra você ficar comportado lá dentro.
Desde quando eu saí passou uns dois meses e eu não tava com muita vontade não. Aí foi passando e eu comecei a sentir falta!(...) Eu aprontava bastante na escola.
Brincava muito no intervalo. Eu gostava muito assim de brincar! Na sala de aula eu era um pouquinho mais quieto, mas rolava a brincadeira também! E ficava à tarde, porque lá na escola eu quase não fazia lição, ficava mais conversando. Conversando lá com as meninas, que elas sentava junto!
Agora eu quero continuar só pra... no futuro, né?! Ter alguma coisa, terminar tudinho, fazer um curso. Pra ver se arruma um serviço melhor!(...) Ver se tem alguma outra coisa pra mim!
Outro dia ele (o educador) tava falando comigo dos cursos, que ele ia ver se arrumava um curso pra mim lá no SENAI. Falou que não dava porque tinha acabado já a inscrição. Aí ia ver se arrumava pago lá, pra mim pagar, mas também não deu!
Podemos observar, no que diz respeito à escola, dois sentidos diferentes na fala de E.: a escola como ambiente de socialização, de encontros; e como espaço para a educação formal. Nos trechos em que afirma sentir falta da escola, fala, na maioria das vezes, do lugar social que a instituição ocupava em sua vida. Refere-se à escola como o espaço para brincar, encontrar colegas, conversar e aprontar, do qual, atualmente, sente falta.
Por outro lado, E. reconhece na educação formal parte do caminho para “arrumar um serviço melhor” e, mesmo dizendo que não gosta de estudar, vem tentando buscar alternativas para dar continuidade aos estudos e se profissionalizar na área em que já está atuando.
Ainda no que diz respeito à sua educação, conta que seu afastamento da escola ocorreu devido à internação na Febem, pois enquanto cursava a 8ª série recebeu a primeira medida. Sob responsabilidade do Estado, não conseguiu dar continuidade ao último ano do Ensino Fundamental II: E. foi preso em agosto de 2007 e passou os três meses que se seguiram – e que faltavam para concluir a 8ª série – sem estudar. Atualmente, um ano após o ocorrido, continua afastado da escola.
Foco: Trabalho
Do trabalho com o pai:
Ele falava e eu ficava sentado lá. Ficava sentado lá, cochilava, ia pro quarto lá, ficava dormindo! Aí ele precisava de mim e eu num tava lá pra ajudar ele! “Você quer vir pra trabalhar ou pra dormir?”
Do trabalho Atual:
No meu trabalho, eu gosto de brincar um pouco. Às vezes eu levo até uma bronca do patrão.
Eu gostava muito de jogar bola, antes!(...) O serviço atrapalhou!
É chato lá. O cheiro da tinta também é muito forte. Quando vai lá pra estufa, pra lavar tela, é muito forte o cheiro! Ontem eu fui até no hospital.
De dia de domingo, às vezes, quando eu to lá no serviço, nóis começa a toca um samba, de vez em quando. Quando não tem nada pra fazer!
Agora que eu já aprendi lá pretendo dar continuidade, né!? Ver se eu consigo alguma coisa pra mim, agora!
Ah, eu quero ter as minhas coisas, né?! Agora eu consigo meu dinheiro só. Dinheiro pra sair, roupa, carro, moto!
Eu ganho às vezes meio período pra assinar (para ir ao Núcleo assinar a LA). Eu venho de manhã. Aí à tarde dá uma preguiça de ir trabalhar!
No começo, quando eu era ajudante eu brincava muito. Ficava lá, brincando, escutando uma música. Eu parava lá na mesa e ficava olhando pra cara dos funcionários. Agora que eu não sou mais ajudante eu fiquei mais responsável, né?!
Um dos primeiros pontos que E. aborda espontaneamente durante a entrevista é sua relação com o trabalho. Diz que gosta de brincar um pouco nele e que, às vezes, leva bronca do patrão. Antes de receber a medida de Internação, trabalhava com seu pai.
O adolescente conta que sua postura naquele antigo trabalho era motivo constante para que seu pai chamasse sua atenção. Ele relata uma postura de displicência: cochilava durante o serviço e diversas vezes não estava presente quando precisavam de sua ajuda.
Atualmente E. trabalha em período integral em uma gráfica. Confessa que não gosta do que faz: o cheiro de tinta o incomoda e o longo expediente o impede de jogar futebol. Conta que ainda brinca e se diverte com os outros funcionários, mas que isso acontece, principalmente, quando não há nenhum trabalho à ser feito.
Ele relaciona essa mudança de postura ao seu crescimento profissional quando afirma que agora que não é mais ajudante, ficou mais responsável. Por outro lado, a preguiça que sente em alguns dias – e que provoca faltas “não
justificáveis”, principalmente, aos olhos de seu pai – ainda aparece na contramão dessas mudanças.
O adolescente também pontua que pretende dar continuidade ao que já aprendeu na prática. Conta que arrumar um emprego também lhe abriu a possibilidade de receber algum dinheiro que lhe possibilite adquirir os bens materiais que deseja, preencher seu tempo e afastar-se de amizades não aprovadas por seu pai.
Foco: Amigos
Não tenho muito mais não!
Tinha (antes da Internação)! Todo dia ligava gente lá em casa atrás de mim!
Porque eu saí, né, da FEBEM?! Boas amizades não tinha muitas, tava
conversando com muita gente que meu pai não gostava. (...) Sentamos e eu falei: “Ta bom! O senhor não quer as minhas amizades, eu vou arrumar um emprego. As minhas amizades vai ser só os meus primos, o M., que trabalha lá comigo, o meu cunhado e a T. (namorada)”. E... é assim que vai!
Ta melhor, né?! Menos preocupação! Melhor!
No começo, lá (na Febem), a amizade.... Tudo normal! (...) Você chega lá, parece que... Todo mundo trata você como se você tivesse na sua casa! Aí depois começa a ter uma briga com um aqui, com outro ali. Aí começa a gerar a confusão!
Não é bem amigo, né?! Eu conversava com uns ali dentro (da Febem), mas era meio naquelas... “será que o que ele ta me falando é verdade?”
Porque cê nunca me viu na vida e já vai me tratar desse jeito? Como? Não dá! Aí, lá, tipo, alguma coisa que você falava assim, as pessoas (os adolescentes) interpretavam errado. Aí eu ficava mais quieto na minha, lá.
Nos relatos de E. podemos verificar como suas relações de amizade se modificaram no decorrer da experiência de ser apreendido cometendo um ato infracional, passar pela medida de internação e, finalmente, voltar à liberdade.
Conta que tinha muitos amigos antes de sua ida para a Febem e que era muito requisitado por eles. No entanto, afirma que não eram “boas amizades”(sic.) e que não agradavam seu pai. De acordo com seus relatos se relacionava com muitos adolescentes envolvidos com atos infracionais que,
frequentemente, convidavam-no para fazer parte de outros roubos, mesmo quando já estava cumprindo a medida de LA.
Diante dessa situação, algum tempo após sua saída da Febem, reduziu significativamente seu círculo de amizades, mantendo relação de proximidade apenas com algumas pessoas. Ao ser indagado sobre como se sentia frente a tais mudanças, afirma que desta forma é melhor, pois há menos preocupações. Quanto ao relacionamento com outros adolescentes no interior da Fundação, ressalta o sentimento de desconfiança que o permeava. Diz também que, com o passar do tempo, a tensão devido ao rompimento de algumas relações começa a se instalar.