Se, por um lado, a utilização de meios ou instrumentos capazes de produzir um risco impõe àqueles a quem deles aproveita, a obrigação de suportar os prejuízos que se causam, prescindindo da existência ou inexistência de culpa; por outro, adverte-se que o sistema de responsabilidade objetiva complementa-se, em determinados casos, com a implantação de um seguro obrigatório, para o qual as próprias vítimas do dano cooperam para atenuar o mesmo, evitando assim que a carga reparatória incida exclusivamente sobre o patrimônio do responsável, o que poderia colocá-lo em situação de impossibilidade de poder fazer frente a todas as conseqüências do evento danoso. Assim é acertado falar-se em uma socialização da responsabilidade, em que se dilui o risco na medida mais ampla possível.58
O seguro obrigatório, como óbvio, não tem condições de dosar os prêmios de acordo com os riscos representados por cada um dos segurados, individualmente
57 Luiz Roldão de Freitas Gomes. Elementos. cit., p. 27-28.
considerados, resultando que os mais diligentes deverão pagar maiores prêmios, para que se possibilite a cobertura dos danos causados pelos mais descuidados.
Como deixou-se assentado linhas atrás, pode-se mencionar, como hipótese de coletivização de riscos presente no cotidiano, o dever de reparação por danos à pessoa decorrente de acidente de trânsito, que é suportado por todos os proprietários de veículo automotor, a cargo do seguro obrigatório. Também constitui-se em coletivização de riscos a manutenção, por toda a sociedade, da Seguridade Social, mediante contribuição compulsória, a fim de acobertar todo aquele que se encontra em situações de contingência, previamente definidas em lei.
No que tange à previdência social, salientam Castro e Lazzari59, a ação estatal justifica-se a partir da constatação de que as relações contratuais de trabalho estabelecem, via de regra, cláusulas para vigorarem enquanto o trabalhador as pode cumprir. A ausência de cláusula contratual para a hipótese de cair o trabalhador na impossibilidade de prestar os serviços contratados, por força de algum acidente que ocasionou sua incapacidade laborativa temporária ou permanente, confere-lhe a possibilidade, sempre presente, de vir a ser colocado à margem da sociedade como um ser inútil, fazendo com que seja ignorado pelos detentores dos meios de produção, sem nenhum direito a receber daquele que contratava sua mão-de-obra. Daí, forçoso é afirmar a necessidade da intervenção estatal no domínio econômico, pois cabe-lhe fazer frente às falhas do mercado, naquilo que concerne aos ingressos jubilatórios, vale dizer, com o escopo de garantir um regime isonômico para todos os trabalhadores.
Prosseguem os ilustres previdenciaristas60, consignando que a prestação de benefícios previdenciários decorrentes de acidentes de trabalho segue a regra do risco social, segundo a qual é devido o benefício, independentemente da existência de dolo ou culpa da vítima ou de quem quer que seja, ou mesmo independentemente de casos fortuitos ou de força maior. Isso significa que, mesmo quando o segurado tenha agido dolosamente com a intenção de auto lesar-se, ainda assim fará jus à percepção do seguro previdenciário.
Em caso de seguros obrigatórios, conforme dispõe o art. 788 do Código Civil, a indenização por sinistro será paga pelo segurador, diretamente ao terceiro prejudicado. Segundo a teoria do risco social, a sociedade arca com os encargos do indivíduo incapacitado, independentemente de quem causou o infortúnio.
59 Carlos Alberto Pereira de Castro e João Batista Lazzari. Manual. cit., parte 1, n. 2.1. 60 Carlos Alberto Pereira de Castro e João Batista Lazzari. Manual. cit., parte 4, n. 7.2.
Assim tem-se que, segundo o parágrafo único do art. 788 do Código Civil, o segurado somente será citado para integrar o contraditório, caso o segurador alegue exceção de contrato não cumprido.
Além do seguro automobilístico previsto pela Lei n. 6.194, de 19.12.1974, a outras hipóteses também se aplica esta modalidade de seguro, como por exemplo, ao turismo aéreo, ao seguro locatício contra reclamações de vizinhos, ao seguro de responsabilidade profissional, como a do médico, a do arquiteto e a do engenheiro.
A grande resistência de aceitação dessa espécie de seguro no ordenamento brasileiro deu-se, principalmente, por prever o art. 1.436 do anterior Código Civil que nulo seria o contrato de seguro, quando o risco, de que se ocupasse, se filiasse a atos ilícitos do segurado, do beneficiado pelo seguro, ou dos representantes e prepostos, quer de um, quer do outro. Para os defensores dessa corrente, tal entendimento era corroborado com o disposto no inciso II do art. 145 daquele Código, o qual fulminava de nulidade o ato jurídico quando fosse ilícito seu objeto.
Todavia, sobre tal aspecto já chamava atenção o eminente Aguiar Dias61, no sentido de que, embora a primeira impressão oferecida pelo dispositivo fosse a de que não seria possível estipular-se seguro de responsabilidade civil por ato ilícito, não se poderia deduzir a impossibilidade do seguro de responsabilidade civil, porque o art. 1.436, combinado com a disposição geral do art. 145, II, todos do Código anterior, por si sós, não repercutiriam na ilicitude do contrato de seguro, além do que o seguro de responsabilidade não visa a objeto ilícito ou impossível, mesmo porque pode inclusive ser considerado como forma de garantia de reparação do dano objetivo, a que se não pode caber qualquer daquelas qualificações. Assim, devidamente compreendida a expressão “ato ilícito” constante do texto legal, o seguro de responsabilidade civil somente não será possível se tiver por objeto o dolo do segurado.
Não só no ordenamento brasileiro, como também em vários outros alienígenas, é assente o princípio segundo o qual não pode ser objeto de contrato de seguro o ato doloso, por contrariar a moral e a ordem pública.
Avulta de importância a noção de seguro obrigatório diante de danos à coletividade, tais como os danos ambientais, – explica Roldão62 – em face da acentuada
61 José de Aguiar Dias. Da responsabilidade. v. 2. cit., p. 979-983. 62 Luiz Roldão de Freitas Gomes. Elementos. cit., p. 86-87.
dificuldade quando se tem em vista a necessidade de demonstração do nexo de causalidade. Ocorre que, em sede de agressões ao meio ambiente, os danos dos particulares não pressupõe, necessariamente, relação entre vítima e agente, de modo a processar-se indiretamente por meio do ambiente. Adicione-se a isto que o problema da causalidade, muitas vezes, é de intrincada prova, em regra de difícil produção, e considerando-se que as vítimas, geralmente, são pessoas mal preparadas técnica e culturalmente, ou ainda não dispõem de recursos suficientes para tanto.
Neste diapasão, vêm os tribunais franceses assentando a relação de causalidade em um conjunto de presunções graves, precisas e concordantes, estabelecidas negativamente, por não ter havido, no momento do dano, outro fato capaz de explicá-lo. Por isso entendem, doutrina e jurisprudência francesas, que a constituição de fundos destinados à indenizações de vítimas, bem como o seguro obrigatório, seriam soluções aptas a conceder à sociedade o ressarcimento devido.