As pessoas com UV, como os pacientes de qualquer outra lesão crônica, requerem uma assistência de qualidade com visão integral do ser humano, dentro do seu contexto socioeconômico e cultural, além da atuação de equipe multidisciplinar capacitada, considerando a complexidade e dinamicidade que envolvem o processo de cicatrização dessas lesões (AGUIAR et al., 2005; BORGES; CALIRI; HAAS, 2007; DEODATO; TORRES, 2008; DANTAS et al., 2013).
A assistência a estes indivíduos, bem como o manejo e o tratamento específico da UV, requerem da equipe multidisciplinar envolvida e um conjunto de estratégias que possibilitem a identificação de caminhos para o alcance precoce dos objetivos propostos na assistência, o que é possível através da sistematização da assistência prestada aos portadores dessas lesões (CASTRO E SILVA et al., 2005).
A primeira etapa da sistematização da assistência corresponde à avaliação do cliente com enfoque familiar, levando em consideração os aspectos clínicos individuais, através da anamnese e exame físico, e os aspectos sociais, culturais e econômicos dentro do contexto familiar, pois é nele que se insere o indivíduo (NUNES 2006; YAMADA; SANTOS, 2009).
A avaliação do cliente e das condições da úlcera é a primeira e mais importante etapa da assistência, pois é onde se capturam informações que subsidiarão a formulação de um diagnóstico correto e a implementação de ações coerentes com a realidade do serviço de saúde e do usuário (DEODATO; TORRES, 2008).
Para Yamada e Santos (2009), nessa avaliação devem ser abordados aspectos como a história e o exame subjetivo do cliente; condições gerais do paciente, exames laboratoriais e doenças associadas; avaliação e classificação adequada da lesão; e as expectativas do cliente e da família quanto à aderência ao tratamento, as possibilidades econômico-financeiras de manutenção, bem como a disponibilidade de realização de curativos por ele próprio e por familiares.
Após uma anamnese rigorosa e exame físico detalhado para exclusão de problemas relacionados à cicatrização, o próximo passo consiste na investigação laboratorial com a realização de exames como hemograma, hemoglobina, leucócitos, plaquetas, bioquímica (triglicérides e colesterol), glicemia de jejum, dosagens de proteínas (total e frações) e níveis de albumina e transferrina (AGUIAR et al., 2005; BORGES; CALIRI; HAAS, 2007; DADALTI-GRANJA et al., 2005).
Corroborando, Aguiar et al. (2005), Borges, Caliri e Hass (2007) e Yamada e Santos (2009) enfatizam que o diagnóstico da UV é eminentemente clínico e deve ser dado a partir da história clínica completa, que requer exame físico, avaliação da lesão e realização de exames, entre eles hemograma completo, glicemia em jejum, albumina sérica, cultura de exsudato e medição do ITB.
Desse modo, após o levantamento das condições de vida e de saúde do indivíduo, parte-se para a segunda etapa da sistematização da assistência, em que serão elaborados o diagnóstico do processo saúde/doença, das necessidades de atenção à saúde, bem como o diagnóstico da lesão, essencial ao planejamento das condutas ou ações a serem implementadas.
Logo que estabelecido o diagnóstico, iniciam-se, então, o planejamento da assistência (terceira etapa) e a implementação das ações (quarta etapa). Estas devem contemplar: evolução clínica contínua com avaliação das características da lesão (localização anatômica, evolução, área, tipo de cicatrização, fase do processo cicatricial, tipo do exsudato, característica do leito, característica perilesional e presença de sinais de infecção); prescrição de terapia tópica e sistêmica; escolha do tipo de cobertura e curativo; tratamento contínuo; documentação (registro no prontuário e registros fotográficos); mensuração; e estímulo ao autocuidado por meio de orientações e treinamentos (BORGES; CALIRI; HAAS, 2007; DADALTI-GRANJA et al., 2005).
Uma vez implementada a assistência, baseada em protocolos, a quinta etapa será a avaliação, que é o processo de determinar a extensão em que os objetivos foram conseguidos. Para alguns autores, a avaliação deve ser realizada com intervalos regulares conforme a
necessidade de cada caso, levando em consideração a efetividade das intervenções, condutas e tratamento; a identificação dos fatores locais, sistêmicos, familiares, sociais e estruturais do serviço/domicílio que possam estar intervindo no tratamento; a reavaliação dos produtos, coberturas e tipo de técnicas de curativo; além da reavaliação e replanejamento da assistência de acordo com a necessidade (DANTAS et al., 2013; TORRES et al., 2007).
Cabe lembrar que a documentação dos achados clínicos é fundamental para o acompanhamento da UV e serve de instrumento legal e de divulgação entre os vários profissionais envolvidos com a assistência ao portador da úlcera. O registro deve ser feito tanto na primeira avaliação quanto nas subsequentes, abrangendo vários aspectos: história clínica completa e exame físico; história da úlcera (ano em que a 1ª úlcera ocorreu, local da UV, recidivas, tratamentos, entre outros); presença de edema, eczema, tecido de granulação, epitelização, tecido necrótico, odor; tamanho da UV; e exames solicitados (AGUIAR et al., 2005; YAMADA; SANTOS, 2009). Inexistindo a documentação ou sendo ela incompleta, a evolução clínica dos usuários acontece de maneira assistemática, o que pode tornar a assistência não resolutiva.
Aguiar et al. (2005), Belo Horizonte (2010) e Borges, Caliri e Hass (2007) afirmam, ainda, que a qualidade da assistência aos portadores de úlceras vasculares nos serviços de saúde está relacionada ao diagnóstico clínico precoce, sistematização da assistência, uso de protocolos, tratamento sistêmico e local das lesões, com acompanhamento, evolução e avaliação sistematizada de acordo com cada momento e/ou intercorrências na evolução do processo cicatricial, exigindo abordagem interdisciplinar e níveis de complexidade.
Nesse contexto, o enfermeiro tem sido tradicionalmente o profissional responsável pela avaliação da lesão e prescrição do tratamento adequado, além da orientação e supervisão da equipe de enfermagem na execução do curativo (FERREIRA; BOGAMIL; TORMENA, 2008).
Dessa forma, a Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE) mostra-se necessária no sentido de instrumentalizar o trabalho desse profissional, possibilitando a aplicação de conhecimentos com base em evidências científicas e o estabelecimento de fundamentos para a tomada de decisão, bem como o registro adequado da assistência prestada.
Portanto, é de fundamental importância que os profissionais que cuidam de portadores de UV se apropriem desses conhecimentos, para que possam fundamentar suas ações cientificamente e provocar modificações juntos aos gestores no sentido de organizar e
garantir uma assistência de qualidade, contribuindo significativamente para a melhoria da qualidade de vida dos portadores de UV.
A partir do diagnóstico, o enfermeiro constrói planos de cuidados cujos objetivos são proporcionar condições que minimizem o tempo de cicatrização da ferida, reduzam os riscos de infecções, com prevenção de recidivas, garantam a segurança e conforto do paciente, dentre outros (FERREIRA; BOGAMIL; TORMENA, 2008).
Cabe ao enfermeiro estabelecer comunicação terapêutica com o cliente visando à valorização das queixas apresentadas e ao respeito à particularidade de cada indivíduo. Vale ressaltar a importância do uso de uma comunicação verbal familiar à linguagem do paciente, para que o mesmo possa compreender as informações que lhes são transmitidas e, assim, comprometer-se com sua saúde, possibilitando o cumprimento das ações que lhe são delegadas a fim de garantir o sucesso do tratamento (FERREIRA; BOGAMIL; TORMENA, 2008).
Por meio de uma avaliação rigorosa e frequente o enfermeiro acompanha a evolução das várias etapas da ferida e faz a opção pelo melhor curativo a ser utilizado nas diversas etapas. Durante todo o tratamento são feitas inúmeras avaliações pelo enfermeiro responsável, que decide o que vai ser utilizado. Os enfermeiros estão gradualmente identificando e organizando uma abordagem sistemática e terapêutica para a pele e cuidados com feridas, como uma atividade autônoma da enfermagem (FERREIRA; BOGAMIL; TORMENA, 2008).