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Neste estudo, realizou-se uma avaliação dos impactos do Programa Bolsa- Família sobre as famílias beneficiárias do Programa, na cidade de Bambuí, MG, questionando as possibilidades de o PBF ter caráter emancipatório e de inclusão social das suas famílias beneficiárias e quais as especificidades da pobreza em um contexto de uma cidade rural.

Para a consecução do primeiro objetivo específico, identificaram-se aspectos para a caracterização da cidade de Bambuí, MG, em termos de uma cidade rural, conforme os critérios de José Eli da Veiga. Apurou-se, nesse sentido, que a cidade estaria localizada fora de aglomerações metropolitanas, possuindo menos de 50 mil habitantes, além de ter menos de 80 habitantes por km², onde entre 15% e 50% dos seus habitantes viviam em comunidades rurais, sendo, ainda, considerado um município de pequeno porte. Também, a comparação entre o tamanho de sua extensão territorial e a sua área de perímetro urbano (9% em relação à extensão total), além de que a atividade produtiva local aponta que o recente crescimento econômico está voltado para a exploração produtiva de seus recursos naturais, em atividades agrícolas, da pecuária e de extração mineral. Todos esses critérios identificam, de forma inequívoca, no sentido de que a realidade do município de Bambuí a caracteriza como uma cidade rural.

Para a consecução do segundo objetivo específico, contextualizou-se o histórico do Programa Bolsa-Família, tanto nacionalmente quanto de sua implementação na cidade de Bambuí, inclusive quanto às suas limitações no município, buscando referenciais documentais e mediante a realização de entrevista com o Gestor municipal para buscar subsídios que objetivassem um melhor

detalhamento desde a sua implementação até a ocasião da pesquisa. Deficiências estruturais acompanham as ações de efetivação do Programa desde a sua implementação em Bambuí, MG, não se conseguindo sanar todas as deficiências para melhor agilização do Programa Bolsa-Família, no município. Há déficit em relação a alguns indicadores, como nos índices de validade dos cadastros e atualização cadastral, inclusive de preenchimento errôneo de cadastros e ainda persistem alguns entraves, como a forma de acompanhamento às famílias; deficiências de articulação nas áreas da saúde, da educação e da assistência social; e inexistência também de articulação intersetorial.

Ainda, a inexistência de ações e programas complementares que apoiassem os objetivos do Programa Bolsa-Família no município, para a inclusão dos beneficiários no mercado de trabalho, como estratégia de “Porta de Saída” nas situações de desemprego ou subemprego, resulta na permanência das famílias por muito tempo no Programa, somente chegando a sair quando os filhos completam a idade-limite. Notou- se que, da forma como ocorre o PBF no município de Bambuí, haveria apenas a transferência direta de renda, assistencialista, e sem trazer efetivamente beneficio e distanciando-se dos objetivos do próprio Programa.

Buscou-se, através do terceiro objetivo específico, identificar o perfil socioeconômico das famílias beneficiárias do PBF no município de Bambuí, comparativamente aos períodos anterior e posterior ao ingresso no Programa Bolsa- Família. Nesse sentido, foram relacionados aspectos de características gerais da família, condições gerais de moradia; segregação socioespacial e acessos a bens e serviços pela família; e condições materiais da família. Mediante a mensuração por critérios objetivos, observou-se que a renda proporcionada pelo Programa possibilitou pequenas melhorias no âmbito residencial das famílias pesquisadas, trazendo consigo traços de pequenas conquistas no âmbito doméstico, mediante a aquisição de bens duráveis de menor valor e se traduzindo em reforço para a renda familiar.

Apurou-se que vêm crescendo, entre as famílias beneficiárias, novos arranjos familiares. Assim, mostrou-se crescimento no número de famílias monoparentais, comprovando-se estudos em que se afirma que esse tipo de arranjo estaria se naturalizando nas famílias em estado de vulnerabilidade social, como é o caso das

fundamental, de modo significativo, em razão do cumprimento da condicionalidade específica. Os resultados de representatividade no trabalho em atividade rural entre as beneficiárias e seus cônjuges foram significativos, o que confirma a vocação do município de Bambuí como cidade rural. Apurou-se, entretanto, decréscimo nos níveis de emprego entre as beneficiárias, em face do ingresso no Programa, afirmando-se o cuidado com os familiares como o maior motivo de desemprego entre elas, trazendo consigo, via de consequência, queda na renda familiar. A renda per

capita apurada após a inserção das famílias beneficiárias no PBF esteve abaixo do

nível de pobreza absoluta, em R$70,00 por pessoa, mensalmente.

Pretendeu-se, através do quarto objetivo específico, analisar a realidade das famílias beneficiárias do PBF, em termos de empoderamento e de inclusão social, antes e depois do recebimento dos recursos do Programa, a partir de indicadores objetivos. Ações efetivas, a exemplo do cumprimento de condicionalidades, trouxeram melhorias na questão da educação familiar e da saúde. Na questão educacional, todas as crianças e adolescentes em idade escolar estariam frequentes, resultado do cumprimento de condicionalidade específica. Essa situação levou, consequentemente, à melhoria dos níveis educacionais subsequentes, pela permanência dos familiares nos estudos. Além disso, essa situação trouxe repercussão em melhores condições de emprego e salário para os familiares, conforme apurado. Na questão da saúde, a obrigação de acompanhamento da saúde familiar trouxe o reconhecimento unânime como ponto positivo do Programa. Porém, a ausência de ações e programas complementares, como o fornecimento de cursos de geração de renda e emprego, capacitação profissional e de aperfeiçoamento, além de outros, como relatado pelas beneficiárias e reafirmado pela Gestora municipal, evidenciava a permanência das famílias na situação de vulnerabilidade social.

Além das áreas da saúde e da educação, resultados discretos de maior acesso a serviços públicos se deram quanto à visitação e aumento de frequência ao acesso jurídico público gratuito, na busca de informações e cadastramento na Prefeitura e uso de tecnologias de mídia: Internet e telefonia celular móvel. Ao analisar os valores globais, comparativamente ao tempo gasto conforme variáveis de tempo, notou-se que, após o ingresso no Programa, foi verificada discreta melhoria para diminuir o tempo gasto aos acessos, persistindo a caminhada como o meio de locomoção mais utilizado pelas famílias beneficiárias. Apurou-se que a admissão no

Programa Bolsa-Família não trouxe nenhum sintoma de empoderamento às beneficiárias, quanto ao modo de sua participação, enquanto detentoras de opiniões e de efetiva participação em acessos sociais, em ação transformadora de sua realidade e enquanto inserção social. Aliás, houve decréscimo de sua participação após o ingresso, motivado por mudança de domicílio, causando distanciamento aos indicadores sociais.

No quinto objetivo específico, buscou-se analisar, nas percepções do Gestor municipal e das famílias beneficiárias do PBF, as mudanças trazidas pelo Programa em relação aos indicadores de empoderamento e inclusão social. Nesse sentido, para o Gestor municipal, empreende-se que não houve a criação de situações de empoderamento e de inclusão social para as famílias beneficiárias, em face da inexistência de ações e programas complementares que apoiassem os objetivos do Programa Bolsa-Família. O simples aumento da renda ou da possibilidade de uma autonomia de gasto pelas famílias beneficiárias quanto ao direcionamento familiar dos valores recebidos pelo beneficio, por si só não revelam as condições de superação de situações de pobreza, de inclusão social ou de empoderamento das famílias beneficiárias. Foram notadas limitações práticas, como já afirmadas, como a ausência de intersetorialidade e de uma efetiva propositura de ações e programas complementares, o que proporciona a estagnação quanto à criação de situações de empoderamento e de inclusão social.

Na percepção das famílias beneficiárias do PBF, pelo cumprimento das condicionalidades puderam estar mais conscientes quanto a acessos a direitos universais, individuais e coletivos. Além disso, o maior aspecto positivo foi o ingresso da renda no lar, possibilitando, assim, maior aquisição de gêneros alimentícios, o que evidencia a tentativa de cumprir o objetivo de erradicar a fome e a desnutrição nessas famílias. Porém, houve aspectos negativos que trariam limitações ao sucesso do Programa nas famílias beneficiárias. Questões relativamente aos baixos valores do recurso, constantes erros de cadastramento pessoal e pagamento indevido foram os maiores relatos. Como visto, o baixo valor remuneratório, impossibilitando maiores pretensões no lar ligadas às condições mínimas de sobrevivência digna e de qualidade de vida, como habitação, vestuário, alimentação, educação e saúde, em razão da inexistência de fornecimento de

saúde da mulher, compromete o sucesso do PBF nas famílias beneficiárias. Além disso, fatores externos como maior periferização residencial e de segregação social, pela ausência de melhor fornecimento de atendimento público às suas necessidades cotidianas, determinam a permanência familiar na condição de vulneráveis socialmente, como já ocorria anteriormente ao ingresso ao Programa.

Para a consecução do último objetivo específico, buscou-se analisar a eficácia do Programa Bolsa-Família, na percepção do Gestor municipal e das famílias beneficiárias, em Bambuí, em termos de uma cidade rural. Para o Gestor municipal, a renda do beneficio do Programa trouxe, para o município, os benefícios de gerar renda a quem não a possuía ou a quem recebia renda baixa, no caso as famílias beneficiárias, contribuindo para a diminuição do ciclo de pobreza no município, além de possibilitar maior circulação de dinheiro, injetado no comércio da cidade. Também, o cumprimento de condicionalidades possibilita melhoria na qualidade da sua saúde e educação nas famílias beneficiárias, proporcionando repercussões sociais indiretas, como a recepção de melhores condições de emprego e de salário, na cidade. Como visto, em razão do seu pequeno porte econômico, conforme dados deste estudo, a injeção dos valores do beneficio possibilita incipiente redução no mapa da pobreza do município, além de incrementar, mesmo que de forma não tanto significativa, a economia local.

Para a família beneficiária, entretanto, tinha-se, em geral, a percepção de que o Programa Bolsa-Família compartilhava a política do favor, em evidente aspecto de uso do Estado em favor do interesse particular das famílias. Mantinha-se, enquanto consciência popular, em correlação de direitos pelo uso de bens do Estado a seu favor. Isso se daria, de forma muito latente, no município de Bambuí, MG, pois haveria situação de intimidade com o Gestor público, que usa a máscara de provedor e de protetor dos mais vulneráveis, com a gestão do recurso financeiro e material público, direcionado àqueles dependentes do favor político e de práticas clientelistas.

Esta situação foi proporcionada em face do pequeno porte do município, onde há a facilidade do relacionamento “patrão/cliente” como relação da base patrimonial.39. Resultado dessa percepção é o alto número de famílias que, primeiramente, procuravam a Assistência Social do município, em busca de auxílio

39 Como cita Martins (1994), em cidades maiores ou em grandes metrópoles, onde se encontram maiores contingentes populacionais e de eleitores, resta a dificuldade ou a impossibilidade econômica

extraordinário para fins privados: material de construção, favores de emprego, auxílio financeiro para pagamento de despesas pessoais. Tal comportamento demonstra um nítido aspecto de clientelismo, muito mais evidenciado numa cidade pequena, onde o sujeito pode, em todo momento, confrontar-se com os políticos locais, não se permitindo, assim, uma nítida distinção entre o público e o privado. Nesse esquema de trocas, como visto, as famílias beneficiárias estariam recebendo benefícios econômicos por favores políticos. Essa situação era naturalizada no contexto do estudo, demonstrando que, não obstante uma latente modernização das atividades econômicas no município, persistem ainda os velhos mecanismos de aliciamento eleitoral, muito evidente em municípios pequenos, de características rurais e interioranas do Brasil, o que reafirma a realimentação do clientelismo político.

Notou-se ainda que, sendo uma cidade de pequeno porte, onde, conforme a fala de uma entrevistada, “todos conhecem todos”, persistiram situações de ausência de empoderamento e de inclusão social perversa, uma vez que a sua condição social, mesmo com o ingresso no PBF, era impedimento a maiores acessos ao crédito, ao comércio e ao uso político de voz e voto. Na questão da pobreza, enquanto ausência de acesso a bens, serviços e renda, tem-se que, numa mesma crítica condição, com mínimas alterações de sua realidade vivenciada no cotidiano, o que determina a sua condição de vulnerabilidade social, tem-se que o Programa Bolsa-Família, por si só, não consegue alterar a realidade das famílias, apenas com a simples transferência de renda. Em razão das condicionalidades, foi possibilitada a melhoria de indicadores na saúde e na educação. Essas situações relativamente a aspectos de fratura social e de segregação trazem limitações ao empoderamento, à autonomia e à inclusão social da beneficiária e de sua família. A falta de um efetivo apoio estatal mediante a formação de políticas complementares e de melhor acompanhamento dessas famílias consubstancia a permanência de grande parcela dessas famílias na condição de vulnerabilidade até então verificada.

O Programa Bolsa-Família, enquanto política de transferência de renda, se efetivamente contemplado de ações e programas complementares, especialmente de capacitação e formação profissional e de geração de renda, possibilitaria, de forma efetiva, a redução de níveis de pobreza e de desigualdade social, conforme amplos

Bambuí, MG, se efetivamente lastrear em ações e programas complementares que possibilitem a autonomia e emancipação das famílias beneficiárias.

Benzer Belgeler