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4. Escape From Tomorrow
O Aurélio (1999, p. 1455) define as organizações não governamentais como “qualquer organização que não integra o Estado nem está diretamente ligada ao governo, e cujas atividades, de natureza não empresarial, estão voltadas para a esfera pública”.
Hardt e Negri (2005, p. 333) consideram que o termo ONG não recebeu uma definição rigorosa, mas que pode ser definida como “qualquer organização que pretenda representar o povo e trabalhar em seu interesse, à parte das estruturas de estado (e geralmente contra elas)”. Conforme os autores, as ONGs seriam sinônimo de “organizações do povo”, uma vez que o “interesse do Povo” pode ser definido como distinto do interesse do Estado.
Acioli (2008, p.8-25) esclarece que:
A denominação organização não-governamental começa a aparecer em documentos da ONU desde a segunda metade da década de 1940, do século XX, no pós-guerra.
Neste momento o termo era utilizado se referindo às organizações internacionais, que se destacaram a ponto de possuírem direito a uma presença formal na ONU, contudo não representavam governos. Nos anos sessenta, a ONU incentivou o aumento de programas de cooperação internacional, que financiava entidades para ajudar países subdesenvolvidos. Com isso, proporcionou o surgimento de “vários tipos de associações que em muito se diferenciavam das organizações governamentais”.
Para a autora, o surgimento das ONGs se deu num contexto em que havia a combinação de duas tendências diametralmente opostas. Uma voltada para o pensamento de esquerda com repercussão a partir da década de 60 e a outra decorrente da política neoliberal do Estado mínimo. A corrente de esquerda sugeria novos caminhos para a participação política e uma renovação das formas tradicionais de organização. Construíam-se em áreas específicas como: afirmação de grupos étnicos, defesa de causas ecológicas e expansão dos direitos fundamentais como saúde e educação; atuavam prestando assessoria a grupos populares organizados. A segunda corrente estaria ligada à doutrina neoliberal, na qual “são identificadas políticas no sentido de obter uma mínima participação do Estado na Economia, redução da participação do governo no mercado de trabalho, política de privatização de empresas estatais, e uma diminuição do tamanho do Estado” (ACIOLI, 2008, p. 8-25).
Hardt e Negri (2005, p. 334) chamam a atenção para o fato de que alguns críticos consideram que, como as ONGs estão fora do poder do Estado e geralmente estão em conflito com este, “são compatíveis com o projeto neoliberal de capital global e o ajudam”. Para os autores:
[...], pode ser verdade que as atividades de muitas ONGs sirvam para promover o projeto neoliberal de capital global, mas é preciso ter o cuidado de assinalar que isso não define, adequada e categoricamente, as atividades das ONGs. O fato de ser não governamental, ou mesmo de se opor aos poderes dos Estados-nação, não basta para pôr essas organizações do lado dos interesses do capital.
Landim (apud Oliveira, M.1998, p. 340) argumenta que “a gênese do que viriam a ser as ONGs brasileiras se confunde com a história da chamada ‘educação popular”. De acordo com ela:
Os atores fundadores deste tipo de organização eram os professores religiosos, trabalhadores sociais que, em sua grande maioria, haviam participado antes de 1964 dos programas de alfabetização de adultos inspirados por Paulo Freire, dos movimentos de cultura popular promovidos por organizações estudantis e governos estaduais assim como dos projetos de educação e desenvolvimento comunitário apoiados pela igreja católica.
Landim (2002, p. 216) também explica que o reconhecimento e a visibilidade social desse nome foram construídos durante a década de 80, “a partir de todo um investimento, por um conjunto específico de agentes e entidades, na afirmação de uma identidade comum e na produção de concepções, práticas e instâncias específicas de legitimidade”.
Coutinho (2004) esclarece:
No Brasil, a expressão se referia, principalmente, às organizações de cooperação
internacional, formada por igrejas (católica e protestante) tais como o Comité Catholique Contre la Faim et pour le Développement (CCFD), francesa; o Serviço das Igrejas Evangélicas da Alemanha para o Desenvolvimento (EED), alemão; Organização Interclesiástica para a Cooperação ao Desenvolvimento (ICCO) e a Organização para a Cooperação Internacional de Desenvolvimento (NOVIB), holandesas; OXFAM, inglesa. Essas organizações priorizavam a ajuda às organizações e movimentos sociais nos países do sul, com o intuito de
consolidarem a democracia. É neste contexto que os centros de assessoria a movimentos sociais e populares, na década de 1970, encontram nessas ONGs/agências internacionais uma fonte de financiamento para suas atividades: focada na politização, conscientização; formação política. Essa conjuntura muda, já a partir do final da década de 1980: momento em que há uma verdadeira explosão das ONGs. E, começa a mudar também o foco das suas atividades: já não mais tão comprometidas com os movimentos sociais. Ao contrário, elas crescem num momento de descenso destes.
Gohn (1997, p. 297) chama atenção para o fato de que as parcerias existentes entre essas organizações e o poder público, na maioria dos casos, deixavam este com “o controle dos processos deflagrados enquanto avalista dos recursos econômico-monetários”. Esse é um problema que se apresenta hoje (será abordado em capítulo posterior). Conforme verificado, as parcerias firmadas entre as organizações qualificadas como organização da sociedade civil de interesse público e os parceiros públicos, com exceções pontuais, eram todas comandadas pelo parceiro público. Este, além de entrar com os recursos financeiros, tinha total ingerência sobre a execução das atividades “propostas” nos respectivos termos de parceira.
Coutinho (2004) lembra a questão acerca do financiamento dessas organizações. Para ela, “quando não estão na folha de pagamento do Estado local, as suas financiadoras (as agências internacionais) estão”. Conclui:
Quanto mais dependente do financiamento institucional, mais limitada é a atuação das ONGs, que se deparam com um duplo dilema: se aceitam o financiamento, muito dificilmente não sucumbem à lógica do seu patrocinador; se permanecem autônomas, mais dificuldades terão para manter suas atividades. Portanto, a tendência de atuação sobre determinados temas das ONGs nacionais segue a lógica do financiamento das ONGs financiadoras.
Gohn, (1997, p. 313) ressalta a dificuldade de obtenção de recursos financeiros que não estejam vinculados a políticas públicas, haja vista a escassez, “agora”, dos financiamentos
internacionais. No seu entender, a questão financeira é um ponto crucial da complexa relação dos movimentos sociais com o Estado. Não obstante reivindicar e apregoar autonomia e independência em relação ao Estado, na prática esse isolamento nunca existiu. Tal assertiva decorre da própria concepção do sistema capitalista. Nesse sistema, “os fundos públicos são pressuposto tanto da acumulação do capital como da reprodução da força de trabalho. E este padrão de financiamento altera a natureza dos conflitos sociais, que passam a girar fundamentalmente em torno do Estado. É tarefaquase impossível atender às demandas que os movimentos populares reivindicam fora da esfera de apoio financeiro estatal”.
Abranches (2004) critica as ONGs que dependem exclusivamente do orçamento governamental. Para ele, as organizações não governamentais têm sua importância no contexto da democracia desde que a sua criação e sustento se ampare sob determinadas regras. Uma delas é, justamente, a independência em relação aos governos. Corroborando com o entendimento de Coutinho, prega que “nenhuma organização da sociedade pode ter autonomia política e ideológica se não for financeiramente independente”.