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G- Görev Belges

3- Esasa Uygulanacak Hukukun Tespit

Quanto mais o enfoque das narrativas se aproxima da temática geral sobre a violência contra criança, dentre elas o abuso sexual, maior é a possibilidade de identificar nos textos elementos que possibilitem pensar que o problema tem que ser jogado no espaço público para que se produzam soluções que beneficiem individualmente as crianças. É nesse sentido que algumas matérias referidas acima podem ser entendidas como identificadas como o movimento proposto pelo Jornalismo Cívico. Tanto na Zero Hora quanto na Gazeta do Povo foi possível identificar reportagens que não traziam apenas notícias, mas sim caminhos para

melhorar a vida pública. O jornal paranaense parece ter assumido mais ostensivamente a tarefa proposta no conceito de agenda-setting (TRAQUINA, 2001), que é de enquadrar o discurso relacionado aos direitos da infância, especialmente o relacionado à proteção contra crimes sexuais. A estratégia, que passa por construir consensos, incluindo a conceituação utilizada para descrever e tipificar o crime de abuso sexual ficou evidenciada nos trechos das narrativas acima.

É possível perceber também que o caminho para que o problema seja debatido com mais complexidade passa pelas significações produzidas pelos diferentes atores sociais que figuram nas narrativas, especialistas, componentes da rede que prestam assistência às crianças e adolescentes. Este povoamento do espaço público remete a Bauman, e indica um passo em direção contrária ao aprofundamento da individualização. Este seria um item a mais para pontuar diferenças entre as narrativas do jornal paranaense e do jornal gaúcho. As notícias sobre abuso sexual publicadas pela GP no período pesquisado apresentam uma variedade maior de atores sociais. Frigerio e Oro (1992) vão classificar estes especialistas como reclamadores. São eles os principais responsáveis por construir marcos interpretativos72 que vão ajudar a transformar temas em categorias,

problematizando conceitos que aos olhos do imaginário são naturalizados – como ocorre com os fatos que envolvem violência interpessoal. Mas há que se ponderar que os reclamadores são construídos pelo meio, ou seja, os espaços públicos estão contidos na mídia, mas não se reduzem a ela. São necessários discursos públicos para que seus interlocutores estejam nas narrativas jornalísticas.

Alguns autores têm se preocupado em mostrar que por trás destas tensões público/privado se insere o debate sobre direitos humanos. E Santos (2000) acredita

72 Frigerio e Oro (1998) pesquisaram como o assassinato de uma criança num ritual religioso foi

tratado pelos jornais do Brasil e da Argentina, já que houve a participação de um argentino no crime. Apesar de o caso ter acontecido no sul do Brasil, o fato tomou conta de todos os meios nacionais argentinos que se ocuparam do tema da seita, abrindo espaço para o fenômeno identificado como pânico moral. Já no Brasil o fenômeno teria sido identificado apenas localmente, no estado do Paraná. O termômetro para identificar a criação deste fenômeno foram os jornais impressos dos dois países. Segundo Frigerio e Oro (1998) uma das razões é que não houve no Brasil um “marco interpretativo” que descrevesse de maneira mais detalhada a natureza do perigo, tampouco uma tipificação das categorias de pessoas que participariam dos rituais satânicos ou de magia negra, assim como as medidas a tomar para coibir a ameaça. Além da ausência de reclamadores, outro fator que faz com que os marcos interpretativos sejam mais ou menos aceitos pelos periodistas são os temas culturais próprios de cada sociedade. Os autores ponderam que a imagem da sociedade argentina como racional e moderna, onde as religiões mágicas, ou encantadas não têm lugar, fazem parte do sistema cultural do país.

que esta discussão hoje pressupõe entender que o Estado migrou de posição em relação há algumas décadas. Na primeira geração de direitos humanos (cívicos e políticos) o Estado era considerado o principal violador potencial dos direitos humanos, já na segunda e terceira gerações, “dos direitos econômicos e sociais e direitos culturais, da qualidade de vida, etc.” (SANTOS, 2000, p. 21) se pressupõe que o Estado é a principal garantia dos direitos humanos. O que leva qualquer discussão com este enfoque para uma cobrança por parte do poder público.

Corrêa (2001) diz que fazer a opção por tratar a violência sexual contra a infância sob o enfoque dos direitos humanos, e não apenas sob a ótica da saúde pública, ou do problema social, é lutar pela garantia da segurança pessoal e integridade, premissa que inscreveu a violência de gênero no marco dos direitos humanos de terceira geração:

Lutar pela possibilidade de viver uma vida sem medo da violência sexual, seja na esfera privada, seja na esfera pública, é uma prerrogativa inegociável da condição de pessoa, é pré-requisito do direito a ter direitos. (CORRÊA, 2001, p. 74)

Mas Soares lembra que não há como obrigar ou constranger alguém a participar desta luta com o argumento que os direitos humanos têm que ser aceitos por serem mais justos ou moralmente justificados. Caso contrário, corre-se o risco de cometer o que se combate, qual seja a arrogância, o etnocentrismo, o autoritarismo. De qualquer maneira, a saída não é recolher-se, aceitar a condição com passividade. Pelo contrário:

Eles [direitos humanos] podem ser aceitos se conseguirmos sensibilizar nossos interlocutores de outras sociedades e de outras culturas com manifestações capazes de produzir identificações, modulando outros valores e conceitos, afetos e imaginações coletivas, de modo que o repertório de imagens, sentimentos, vocabulários morais e valores que denominamos direitos humanos, passível de reconstrução crítica se dissemine, e amplie as chances de solidariedade, fraternidade e justiça. (SOARES, 2002, p. 78)

Benzer Belgeler