• Sonuç bulunamadı

A sequência que inicia O País de São Saruê utiliza três elementos: letreiros, filmagens de paisagem e a música tema do filme. Os letreiros são alternados com planos que mostram um açude sertanejo no qual aves de arribação pousam e voam, em bando, daquele lugar. Outros planos mostram a paisagem sertaneja, seu céu e sua terra. Somos apresentados rapidamente ao espaço sertanejo que será melhor desenvolvido durante todo o filme.

A música tema possui voz e violão em estilo regional. Ela fala sobre um reino desencantado e de um gavião que levou a riqueza de um lugar, deixando apenas as ―costelas‖ do Eldorado. A riqueza é referida como o algodão, ouro, prata, diamantes. À alegria de alguns é relacionada à tristeza de outros. Além de reforçar o caráter regional das imagens, pela estética da música, sua letra introduz temas que serão desenvolvidos pelo documentário: apropriação da riqueza por uns, a riqueza na região seja por uma elite local ou pelo imperialismo. As metáforas, no entanto, ficam mais claras ao final do filme, após os temas serem desenvolvidos. Essa canção abre e conclui o documentário, por isso, voltaremos mais detalhadamente na conclusão da análise.

O terceiro elemento são os letreiros. Apresentados em estética de xilogravura, ou seja, com caráter regional, eles introduzem mais explicitamente os temas e trazem informações históricas sobre a região. Esse letreiro é um dos elementos mais literalmente históricos. Ele apresenta a versão historiográfica para a gênese da região, para em seguida, na próxima sequência, fazê-lo de maneira poética. Os dois primeiros parágrafos dos letreiros afirmam:

retirantes que muitas vêzes interromperam suas tarefas para nos ajudar a realizá- lo.

Nos vales dos rios de Peixe e Piranhas, no extremo oeste da Paraíba, Nordeste do Brasil, espalha-se por cerca de 20 municípios, numa área superior a oito mil quilômetros quadrados, uma população estimada em 500 mil viventes. (O País de São Saruê, Sequência 1, 3’55’’).

Já nos referimos no primeiro parágrafo ao caráter ―de baixo‖ do documentário no capítulo anterior. O segundo parágrafo oferece dados bem diretos e objetivos sobre o espaço das filmagens: sua localização, ―vales dos rios de Peixe e Piranhas, no extremo oeste da Paraíba, Nordeste do Brasil‖, o tamanho do espaço e a quantidade de sua população. Eles mostram a população indicada pelo documentário, pois em vinte municípios se espalham 500 mil pessoas. No parágrafo seguinte são inseridos dados mais históricos e interpretativos:

Ricos e pobres, são todos descendentes de colonos portugueses aí chegados no século XVII e de índios que, durante a conquista, formaram a Confederação dos Cariris e foram dizimados pelos bandeirantes, perdendo suas terras, transformadas em datas e sesmarias. (CARVALHO, O País de São Saruê, 1971, Sequência 1, 4’14’’).

Somos apresentados à origem étnica e cultural da população: colonos portugueses e os indígenas. Ao mesmo tempo, já é exibido o conflito entre esses dois grupos, presente na dualidade entre os termos colonos e índios, e reforçado pela afirmação que os últimos formaram a Confederação dos Cariris para se defender dos bandeirantes, mas que perderam suas terras. Apresenta-se a origem da população e da questão agrária. A ocupação do território a época da América Portuguesa em torno do médio e baixo São Francisco e suas áreas vizinhas foi realizado a partir da economia colonial. Houve, assim, uma separação entre litoral e interior, naquele predominando a cultura da cana de açúcar, pela proximidade com os cursos fluviais e dos portos de embarque; e neste a pecuária cujo caráter expansivo se adaptou às regiões interioranas. 89

A Paraíba da segunda metade do século XVII era povoada majoritariamente por índios (MELLO, 2013, p. 79) de diversos grupos entre os quais se destacam os tupis, cariris e tarairiús. Na região das filmagens indicada no letreiro, havia os dois últimos grupos de indígenas. Cariri era um termo para designar inúmeras tribos e algumas estiveram às margens do rio do Peixe; outro grupo, os tarairiús, também constava na região representada no filme, no rio Piranhas (MELLO, 2013, p. 71-72). Para José Octávio de Arruda Mello foram os tarairiús os responsáveis pela

89 Chamamos de América Portuguesa ao cenário histórico habitado por indígenas e ocupado pelos colonos principalmente de origem portuguesa durante o período colonial. O Brasil nação é uma construção posterior, ocorrida com a vinda da família real e a mudança de status administrativo-político de colônia para Império. Com vista a tal discussão já realizada pela historiografia, buscamos respeitá-la fazendo essa distinção em nosso texto. Da mesma maneira se faz necessário distinguir o que chamamos hoje de Nordeste, que é uma criação, uma territorialização do século XX, mas que não existia à época de ocupação do sertão.

chamada Confederação dos Cariris, a reação indígena na defesa de suas terras. Isso gerou a Guerra dos Bárbaros de 1680 a 1730. Dizimados, o autor afirma que os sobreviventes na maioria foram para o Ceará e o Rio Grande do Norte, havendo na Paraíba menor contribuição indígena à civilização sertaneja que nesses estados (p. 78).

Pedro Puntoni problematiza a ideia de uma Confederação dos Cariris e o próprio termo tapuia, indicando que foi um termo bastante vulgarizado em manuais escolares que assumem uma percepção de que ―os tapuias do semi-árido se resumiam em um só grupo étnico, o dos cariris‖ (2002, p. 78). Indica que Irineu Joffily divulgou essa ideia e que ela foi partilhada pelo historiador Capistrano de Abreu (p. 78-79). Sabemos que Capítulos de História Colonial (1907), escrita pelo último, foi uma das leituras reconhecidas por Vladimir Carvalho para o entendimento do sertão. O livro indica os conflitos entre colonos e indígenas no processo de colonização e ocupação do território sertanejo. Podemos identificar, assim, como um discurso parte de uma cultura histórica e historiográfica, mais tarde problematizada por autores como Puntoni.90

Segundo Capistrano de Abreu, havia uma maior parte de tronco Cariri entre as tribos. Elas tiveram conflitos por não ceder suas terras ou por assaltos ao gado dos colonos. Capistrano de Abreu afirma que estes conflitos foram menos sanguinolentos que os anteriores das bandeiras, pois havia menor necessidade de braços para o trabalho e também não havia tanta repugnância a tal trabalho, bem como existência de terras devolutas para onde os indígenas podiam migrar. Mas ainda afirma que ―Entretanto, muitos foram escravizados, refugiaram-se outros em aldeias dirigidas por missionários, acostaram-se outros à sombra de homens poderosos, cujas lutas esposaram e cujos ódios serviram‖ (2000, p.152).

Parece significativo que uma cultura histórica/historiográfica valorizava esse levante como um elemento que demonstrava a ação de enfrentamento dos indígenas. Vladimir Carvalho, nas leituras de Capistrano de Abreu, parece ter abraçado essa ideia, servindo-se da representação

90 O sertão foi explorado primeiramente pelas entradas das bandeiras em busca de ouro e pedras preciosas ou na caça de mão de obra indígena que se extinguia no litoral. Durante muito tempo permaneceu uma visão romântica do bandeirante; no entanto autores como Capistrano de Abreu foram críticos dessa visão mostrando a violência sofrida pelos indígenas que tiveram suas terras espoliadas. Todavia, também os indígenas foram alvos de mitificações. Cristina Pompa, baseada em Pedro Puntoni, indica que a Confederação dos Cariris era mais produto do olhar europeu, constando por isso na documentação colonial e chegando à historiografia indígena. Houve um esforço do governo geral em formalizar a repressão aos diversos grupos indígenas chamados de Tapuias – que também podem ser identificados com os chamados Cariris – que entravam em contato e conflito com as fronteiras, causando problemas ao desenvolvimento da economia colonial. Os indígenas tiveram comportamentos diversos, saqueando, atacando colonos em vinganças, fazendo alianças diversas ou tentando conviver com eles. Embora os combates possam ser vistos como reações e resistências, segundo Pompa, parece que não podemos fornecer o caráter de um levante de índios contra os colonos (POMPA, 2003, p. 270-71). Neste sentido, ambos os autores divergem sobre este aspecto da Confederação Cariri. A ideia divulgada por Irineu Joffily e abraçada por Capistrano de Abreu e outros autores, no entanto também teve outras versões. Puntoni aponta que Câmara Cascudo se referia à confederação dos cariris como um termo romântico, afirmando que não houvera plano comum ou unidade de chefia, preferindo chamá-la de Guerra dos Índios (2002, p. 79). Ressalta a arbitrariedade das fontes que nos permitem apenas conhecer o olhar do conquistador, devido a lacuna de fontes que com a visão dos indígenas.

de um espaço permeado de conflitos e injustiças já no século XVII. O povo pobre e explorado sertanejo da década de 1960 nas suas filmagens possui sua origem nos subjugados índios do século XVII. A seleção desse conteúdo e a busca nos ―de baixo‖ como temas da exploração do homem pelo homem ou de resistências populares demonstram as intencionalidades políticas do documentarista e sua intersecção com a historiografia e a cultura histórica disponíveis.

A apresentação do indígena não apenas indica um aspecto da origem étnica do sertanejo, mas também as raízes da questão agrária do sertão. O documentário indica que as terras indígenas foram transformadas em datas e sesmarias nesse processo de ocupação territorial, ou seja, desapropriadas de seus donos originais. Este é o mal original ou o ovo da serpente, dos conflitos agrários na região para o documentário.

Sabemos que Capistrano de Abreu foi uma influência da historiografia para Vladimir Carvalho. Este autor que, para muitos, inaugura uma escrita propriamente historiográfica no Brasil, não poderia fugir a sua historicidade, possuindo influências de um evolucionismo social. Por isso, o autor ao falar sobre os animais sertanejos em sua relação com o indígena afirma que:

Estes animais nem um pareceu próprio ao indígena para colaborar na evolução social, dando leite, fornecendo vestimenta ou auxiliando o transporte; apenas domesticou um ou outro, os mimbabas da língua geral (…) De caça e principalmente de pesca era composta sua alimentação animal. Possuía agricultura incipiente, de mandioca, de milho, de várias frutas. Como eram-lhe desconhecidos os metais, o fogo, produzido pelo atrito, fazia quase todos os ofícios do ferro. A plantação e colheita, a cozinha, a louça, as bebidas fermentadas competiam às mulheres; encarregavam-se os homens das derrubadas, das pescarias, das caçadas e da guerra (ABREU, 2000, p. 39). Capistrano de Abreu, pelo citado, baseia sua leitura do indígena ao molde europeu de vida e de civilização. Para a evolução social do indígena haveria a necessidade de haver um entorno semelhante ao europeu para desenvolver uma cultura semelhante. Ele se encaixa bem com algumas ideias de Euclides da Cunha, também detentor de certo determinismo do social pelo ambiental. Ambos os autores poderiam ser articulados com o entendimento do marxismo popularizado na década de 1950/1960 sobre o mundo social. A evolução social, de certa maneira, para aquele marxismo, consistia na passagem do estado primitivo ao capitalismo e depois ao socialismo. O Nordeste era o espaço do atraso no qual permaneciam relações e práticas arcaicas em obstáculo para a concretização do capitalismo no Brasil e, consequentemente, do socialismo.

Capistrano de Abreu reconhece a presença dos índios Cariris na população brasileira e sertaneja e atribui a eles características que podemos relacionar às que comumente se combinam com o imaginário sobre o sertanejo:

Se agora examinarmos do meio sobre esses povos naturais, não se afigura a indolência o seu principal característico. Indolente o indígena era sem dúvida, mas também capaz de grandes esforços, podia dar e deu muito de si. O principal efeito dos fatores antropogeográficos foi dispensar a cooperação. (…)

A mesma ausência de cooperação, a mesma incapacidade de ação incorporada e inteligente, limitada apenas pela divisão do trabalho e suas consequências, parece terem os indígenas legado aos seus sucessores (ABREU, 2000, p. 41). Da indolência ao grande esforço. Essa representação do indígena Cariri, ou também do tapuia já existia à época da colonização. Ela se combina ao sertanejo de antíteses de Euclides da Cunha que o define exatamente como um homem inerte, mas capaz de grandes proezas físicas. Teria o sertanejo em O País de São Saruê tais características? Este capítulo responde esta questão.

Retomando o letreiro que abre o filme, esta é a última parte:

A criação do gado e o rude trato da terra emprestaram a esses vales uma feição cultural marcante e idêntica à que em geral se observa em todo o sertão nordestino. (...) também nessas paragens uma minoria detém a posse da terra e dos bens que o esforço do homem retira dela. O resultado é a injustiça e a humilhação. Por isso qualquer semelhança com a história de outros sertões não é mera coincidência, mas semelhança mesmo (CARVALHO, O País de São Saruê, 1971, Sequência 1, 4’35’’).

Reconhecendo na pecuária sertaneja a origem de sua feição cultural, afirma que essa não é uma particularidade da área das filmagens, mas de todo o sertão. Vladimir Carvalho indica que a temática apresentada e filmada, em uma realidade particular (paraibana), possui um caráter geral, caracterizando todo o sertão. Explicita o problema da luta de classes: a ―minoria [que] detém a posse da terra e dos bens que o esforço do homem retira dela‖. Essa referência se aproxima da construção em oposição básica da teoria marxista e sua oposição de classes entre os que possuem meios de produção e os que necessitam vender sua força de trabalho. Assim, um exemplo dessa construção é a descrição de Engels em Princípios do comunismo (1847) que daria origem ao

Manifesto Comunista (1848); o autor indica justamente um processo em que os proletários sempre

existiram, mas que foi intensificado com a Revolução Industrial. Opõe no capitalismo

a classe dos grandes capitalistas, que, em todos os países civilizados, já estão de posse exclusiva de todos os meios de subsistência, das matérias-primas e dos instrumentos (máquinas, fábricas etc.), necessários à produção dos meios de existência. Essa é a classe dos burgueses, isto é, a burguesia (...) [e em seguida] a classe dos despossuídos, dos que, em virtude do desapossamento, são obrigados a vender seu trabalho aos burgueses para receber, em troca, os meios necessários à sua subsistência. Essa é chamada classe dos proletários, isto é, o proletariado (2005, p. 44).

As riquezas são produzidas pelo proletariado que vende sua força de trabalho para os donos de terras que se apropriam dessa riqueza gerada. O documentário afirma que o resultado

desse fenômeno social é a injustiça e humilhação, qualificando-a e posicionando-se frente ao conflito, para por fim ressaltar o caráter geral que objetiva seu documentário: ―qualquer semelhança com a história de outros sertões não é mera coincidência, mas semelhança mesmo.‖. Daí duas conclusões essenciais: a centralidade da questão agrária e da luta de classes para as relações que são exibidas no documentário; e de que o sertão particular filmado por Vladimir Carvalho foi apresentado para afirmar uma tese mais geral sobre o problema da terra em todo o sertão brasileiro. O sertão de Vladimir Carvalho se exibe especialmente nas relações de trabalho e nos conflitos de classe apresentados nas próximas sequências do documentário nas quais essa temática foi desenvolvida.

Benzer Belgeler