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ERZİNCAN İL HALK KÜTÜPHANESİNDEKİ 1492 NUMARALI NAZİRE MECMUASININ TANITIM

A antropóloga norte-americana Davis-Floyd (2001) categoriza os paradigmas de cuidados em saúde que influenciam a assistência aos nascimentos na contemporaneidade em três modelos: tecnocrático, humanista e holístico. Segundo a autora, estes se diferem fundamentalmente entre si pela definição que adotam de corpo, e como enxergam a relação deste com a mente. As demais distinções decorrem, em boa parte, desse posicionamento. Na opinião da pesquisadora, os médicos que combinarem os elementos das três categorias têm melhores condições de criar um sistema obstétrico efetivo e adequado para o binômio mãe- bebê física e emocionalmente.

5.2.1 Tecnocrático

Paradigma hegemônico na biomedicina, o modelo tecnocrático de nascimento foi esculpido para atender, preferencialmente, a conveniência dos profissionais de saúde, sendo caracterizado pela institucionalização do parto, pela utilização acrítica de novas tecnologias e pela incorporação de grande número de intervenções, muitas das quais desnecessárias.

É o sistema de assistência ao parto que reflete os principais valores das sociedades ocidentais contemporâneas, as quais, regidas pelo sistema econômico neoliberal, visam, entre outros aspectos, o lucro econômico, estimulam o consumo, a racionalidade científica e a adoção de tecnologia de ponta (DAVIS-FLOYD, 1992, 2001; BAUMAN, 2001, 2008; SANTOS, 2002a, 2003, 2007, 2008, 2008a; GIDDENS,1991, 1994, 2000a, 2000b, 2002), conforme debatido a anteriori.

Em razão de apoiar-se nesses valores, a assistência obstétrica tem uma tendência a supervalorizar diagnósticos mecânicos, como por ultrassom e monitoramento eletrônico fetal. Ao médico, cabe fundamentalmente interpretar os resultados mediados pelas máquinas, considerados mais objetivos e confiáveis do que sua percepção pessoal. Tal prática facilita o distanciamento entre profissionais e pacientes, o qual é acentuado também pela premissa de

que o corpo é separado da mente, de que o corpo é como uma máquina e de que o paciente é como um objeto.

Para melhorar ou corrigir o mau funcionamento desse corpo-máquina maternal, a biomedicina cultua o uso de uma série de intervenções tecnológicas, com elevado valor simbólico por serem associadas à ideia de progresso e superioridade. Com a tecnologia, pode- se alcançar a desejada padronização na assistência aos nascimentos, subordinando necessidades e desejos individuais a práticas e rotinas institucionalizadas. Atualmente, por exemplo, na maioria dos hospitais modernos, corriqueiramente as mulheres grávidas são submetidas a anestesia peridural e episiotomia (JONES, 2009).

O louvor à tecnologia, fundamentado também no comprometimento da biomedicina com os interesses da indústria farmacêutica e de equipamentos médicos (DAVIS-FLOYD, 2001), ajuda a explicar por que a maioria dos procedimentos de rotina em obstetrícia continuam a ser usados até hoje, mesmo sem respaldo científico. A preferência pela tecnologia, em detrimento da medicina baseada em evidências, traz como consequência altas taxas de parto vaginal com episiotomia e de cesarianas. São dados que reforçam a ideia de que a medicina ocidental baseia-se muito mais no contexto cultural amplo do que na ciência, embora sustente um discurso de defesa pelo rigor científico. Trata-se de um intrigante paradoxo: ideologicamente, supervaloriza-se a ciência, mas, na prática, ignoram-se ou pouco se consideram seus resultados.

Por meio da tecnologia, a sociedade ocidental vem tentando buscar, desde a revolução industrial, formas de dominar a natureza e o nosso corpo, inquietando-se cada vez mais com aqueles aspectos que não consegue controlar. Essa caminhada levou à emergência de um fenômeno chamado de One-Two Punch13da intervenção tecnológica, segundo o qual o ocidente convenceu-se de que alterar um processo natural com a tecnologia pode deixá-lo melhor, mais previsível, mais controlável e, portanto, mais seguro (REYNOLDS, 1991).

Tal melhoria seria alcançada em duas etapas, o One-Punch14 e o Two-Punch15. Um exemplo de um processo natural que precisa de conserto poderia ser um rio em que o salmão precisa nadar correnteza acima para fazer a desova. Segundo propõe Reynolds (1991), o primeiro soco consistiria em construir uma represa com comportas no local, o que geraria como subproduto (do avanço tecnológico) a impossibilidade de o salmão nadar rio acima. O segundo soco arrumaria o problema criado pela tecnologia com mais tecnologia: um sistema

13Um-Dois Socos [Tradução livre da autora]. 14 Soco um [Tradução livre da autora]. 15

que iça o salmão da água e o libera correnteza abaixo depois de cumprida sua missão. O macete consiste em perceber que, na realidade, o Two-Punch é o cerne da questão, e não apenas um produto acidental do One-Punch, como pode parecer.

Para Davis-Floyd (2001), não é difícil ver como este fenômeno se aplica ao nascimento, um processo fisiológico incontrolável e caótico, que deve, portanto, ser melhorado pela tecnologia. Primeiro, o trabalho de parto e parto são divididos – desconstruídos – em segmentos identificáveis, sendo cada qual controlado pelo equivalente obstétrico das represas e comportas – por exemplo, monitoramento fetal eletrônico e uso de ocitocina. Quando o subproduto da reconstrução tecnológica do nascimento é um bebê em sofrimento, fruto de um trabalho de parto, agora, disfuncional, usa-se mais tecnologia para salvá-lo, entrando em cena a episiotomia, o fórceps e a cesariana. E, ao final, os médicos ainda são parabenizados pelo bom trabalho.

Em relação a isso, cabe salientar tratar-se de um modelo rigidamente hierárquico em termos de poder dos médicos. Uma das demonstrações simbólicas dessa supremacia, assevera Davis-Floyd (2001), é a manutenção da posição de litotomia nos nascimentos. Reconhecidamente pouco favorável, a mesma continua a ser adotada por pura conveniência, conforto e status do médico, que pode assistir ao nascimento de pé e com campo livre para manobras. “In the West, up is good and down is bad: the person who is on top has the status and the power, and rarely gives it up for the good of the laboring woman and child”16 (2001, p. 4).

Nos Estados Unidos e ao redor do mundo, esse modelo de assistência obstétrica vem sendo tema de discussão e debate, especialmente por parte daqueles que desejam humanizar a biomedicina, tornando-a mais relacional, orientada pelo senso de parceria e compaixão. Cada vez mais, essa abordagem vem ganhando suporte e apreço em diferentes países. Claramente menos radical que o modelo holístico, e mais empático que o tecnocrático, o paradigma humanista é o que tem mais potencial de abrir a assistência obstétrica ocidental para a possibilidade de uma reforma geral.

5.2.2 Humanista

Partindo da premissa de que corpo e mente estão conectados, o modelo humanista devota suprema importância para a influência de estados mentais e emocionais do corpo. A

16 No ocidente, em cima é bom e embaixo é ruim; a pessoa que esta por cima tem o status e o poder, e raramente

essência dessa abordagem, que enxerga o corpo como um organismo e supervaloriza as necessidades individuais em detrimento das institucionais, é o diálogo e o afeto entre grávida e cuida dor. Tem, também, como pilar, a compreensão de que os problemas de trabalho de parto podem ser melhor lidados com suporte emocional do que com intervenção tecnológica.

Trata-se, portanto, de um modelo que privilegia a autonomia e o bem-estar da parturiente e de seu bebê, buscando ser o menos invasivo possível. A assistência combina competência técnica com cuidados humanizados e se caracteriza pelo acompanhamento contínuo do processo de parturição e por centrar-se na parturiente, fazendo uso da tecnologia de forma apropriada. Nessa concepção, o parto também pode ocorrer em casas de parto ou ambulatórios, reservando-se os hospitais prioritariamente para casos de complicações comprovadas.

A presença de acompanhantes é incentivada e a parturiente pode escolher a posição que lhe é mais confortável para ter seu filho. Nesse modelo, a profissional de eleição é a parteira, responsável tanto pela atenção ao trabalho de parto como pela detecção precoce de problemas e pelo consequente encaminhamento para instituição com condições de atender.

Importante salientar que as parteiras são consideradas pela OMS (1996) como os provedores de cuidados primários de saúde mais apropriados para a assistência ao parto normal por uma série de razões, dentre as quais o maior apoio emocional que oferecem. Segundo Odent (2005a), a mulher em trabalho de parto tem necessidade de se sentir como se estivesse com sua mãe: em segurança, mas sem se sentir observada ou julgada. Nesse sentido, a parteira é vista como uma figura maternal, como alguém que substitui a mãe.

Ao buscar suavizar a abordagem tecnocrática, o paradigma humanista abarca desde mudanças consideradas superficiais, como decorar os quartos da maternidade de forma mais calorosa, a métodos profundamente alternativos, como oferecer às mulheres em trabalho de parto espaços amplos e flexíveis para se movimentarem livremente e estarem na água, se desejarem.

Segundo sustenta Davis-Floyd (2001), o melhor sinônimo para o termo humanismo na literatura médica é biopsicossocial, num reconhecimento que o modelo de saúde em questão considera os aspectos biológicos, psicológicos e sociais (FREYRE, 2009). Idealisticamente e em contraposição ao paradigma tecnocrático, a assistência humanista deve ser baseada em evidências que refletem a ciência, e não na tradição médica. Os médicos humanistas devem recriar um local na medicina para valores humanos de parceria, vínculo e afeto.

Esse modelo continua sendo adotado em muitos países europeus, como Holanda, Suécia, Alemanha, Inglaterra, França e, também, no Japão (HOGA, 2005). Na Inglaterra, país

que pauta o funcionamento de seu sistema de saúde em diretrizes fundamentadas em evidências científicas, aumentar os partos domiciliares é, inclusive, uma das diretrizes do movimento de desospitalização e pelo cuidado domiciliar, e podem indicar uma transição do modelo humanista para o holístico (RATTNER; AMORIM; KATZ, 2013).

5.2.3 Holístico

Se o modelo tecnocrático é o paradigma hegemônico nas sociedades ocidentais, a abordagem holística de nascimento é quase uma heresia. Porém, dos três modelos, este é o que inclui, segundo Davis-Floyd (2001), a mais rica variedade de abordagens, indo desde uma terapia nutricional a diferentes tratamentos em medicina complementar e alternativa, caso da medicinal tradicional chinesa. Alguns profissionais holistas optam por adotar uma modalidade em particular nos cuidados com a saúde, enquanto outros optam por convergir diferentes técnicas e tradições.

Insistindo na unidade de corpo, mente e espírito, o paradigma holístico vai além da definição de corpo como um organismo, definindo-o como um campo de energia em constante interação com outros campos energéticos, posição conceitual que lhe possibilita adotar uma multiplicidade de abordagens hoje consideradas inaceitáveis pela biomedicina. No parto e no trabalho de parto, os profissionais de saúde acreditam ser possível afastar as necessidades de intervenção tecnológica intervindo no nível da energia, levando o foco para a energia do nascimento, para facilitar ótimos resultados (DAVIS-FLOYD et al., 2009).

O modelo holístico se pauta pela individualização do cuidado e incorpora, além do entendimento do parto como evento biológico, social, cultural e sexual, o enfoque do nascimento e do parto como eventos da vida espiritual. Assim, caso o paradigma se difundisse, o domínio da tecnologia, característico do modelo tecnocrático, seria substituído pela aceitação e valorização cultural de uma multiplicidade de outras técnicas, como homeopatia, naturopatia, acupuntura. O trabalho das parteiras, da mesma forma, se tornaria respeitado e legitimado. E o parto se tornaria um evento muito distinto do que é hoje no Brasil e no mundo ocidental.

Benzer Belgeler