Não é possível tratar o discurso desconsiderando a sua intrínseca relação com o texto que constitui o lugar de sua materialização. Partimos dessa afirmação para buscar esclarecer logo de início que a Análise de Discurso não despreza, de forma alguma, a textualidade, o texto, os seus elementos linguísticos, embora o seu objeto de estudo seja o discurso.
Apoiando-se no pressuposto de que a AD considera que a língua funciona no movimento constante entre descrição e interpretação, entre estrutura e acontecimento, por conseguinte, o texto e o discurso também vão ser vistos a partir desse movimento.
Não há como se fazer análise de discurso sem se partir de sua unidade mínima significativa que é o texto. Essa unidade mínima significativa não é um corpo inerte, fechado em si mesmo, mas se constitui como um objeto simbólico que se abre para as várias possibilidades de interpretações.
A AD procura redefinir a noção de texto, a partir da materialidade do discurso, materialidade essa caracterizada ao mesmo tempo como linguística e histórica. A teoria discursiva inaugura um novo olhar no estudo do texto, produzindo deslocamentos epistemológicos fundamentais na forma tradicional como essa categoria foi concebida ao longo dos estudos da Retórica para a Gramática, passando pela Filologia até chegar aos estudos da Lingüística.
Não é nosso objetivo determo-nos em analisar a concepção de texto que se construiu a partir desses estudos, mas enfatizar que não é preocupação da AD concebê-lo como obra literária, nem como um simples pretexto para estudar a língua ou como objeto para comparar as línguas. Na AD, a noção de texto é associada na sua constituição um objeto novo que é o discurso.
E o responsável direto por introduzir esse elemento novo no estudo do texto foi Harris (1963/1969). No âmbito da lingüística distribucional, ele propôs trabalhar a língua além dos limites da frase e enfatizar a importância do contexto sócio-cultural. Foi a partir dessa nova concepção de texto vinculada ao discurso e à língua proposta por Harris que Pêcheux começou em 1969 a aprofundar a relação do discurso com a língua a partir da análise de discurso.
A preocupação da Análise de Discurso, ao tomar o texto como unidade de análise, não é centrar-se apenas nos seus elementos formais, mas nas suas condições de produção. E considerar as condições de produção do texto não implica compreendê-las como sendo o contexto situacional tal como é entendido pela Linguística Textual, ou seja, como um elemento a mais, secundário que vem se complementar ao texto ou, conforme afirma Indursky (op. cit., p. 68), como um “co-texto, aquilo que comparece, que se encontra presente no texto”. A noção de condições de produção para a AD é mais complexa e abrangente, na medida em que ela é concebida não como algo que se encontra fora e é acrescentado ao texto, mas é elemento constitutivo do texto e se caracteriza por ser de natureza sócio-histórica. Nesse sentido, podemos dizer que as relações de interação se estabelecem não são com interlocutores, entendidos como indivíduos, mas com sujeitos que se encontram determinados historicamente pelo lugar social e ideológico que ocupam.
Assim, na perspectiva da AD, o texto vai ser definido como forma material, manifestação concreta do discurso que possibilita a análise do seu funcionamento a partir dos deslocamentos produzidos pela interpretação (ORLANDI, 2001).
Partindo da sua unidade de análise que é o texto, entendido não em sua natureza extensiva, mas qualitativa, ou seja, como unidade que significa e faz parte da linguagem em seu funcionamento, a AD tem como objetivo principal analisar os processos discursivos inscritos na língua e na história. O texto, portanto, caracteriza-se por apresentar na sua materialidade vestígios lingüísticos que denunciam o seu funcionamento discursivo. Disso depreende-se que é através das condições de produção, conforme já explicitamos anteriormente, não em seu sentido estrito das circunstâncias de enunciação, mas em seu sentido mais amplo como contexto sócio-histórico, que é possível determinar qual funcionamento discursivo constitui um texto. Assim, são as relações estabelecidas entre os sujeitos, os aspectos sócio-históricos, a relação da língua com a história que vão caracterizar esse funcionamento discursivo.
Considerando o texto como espaço discursivo, não fechado em si mesmo, na medida em que estabelece relações não apenas com o contexto, mas com outros textos e com outros
discursos, Indursky (2006) apresenta e caracteriza como fatores constitutivos do texto as
relações contextuais, relações textuais, relações intertextuais e relações interdiscursivas14. Sobre as relações contextuais já abordamos, de certa forma, anteriormente esse tópico quando mencionamos o sentido do texto relacionado às suas condições de produção, o sentido não se encontra só no texto ou só no sujeito que o produziu, mas nas relações que se estabelecem entre os sujeitos históricos envolvidos no processo de produção e interpretação.
No que se refere às relações textuais, a autora caracteriza como sendo as que resultam do trabalho de textualização15 realizado pelo sujeito que desempenha a função-autor. Essas
relações textuais se processam, segundo a autora, no interior do próprio texto.
Quanto às relações intertextuais, pode-se afirmar que são caracterizadas pela relação de um texto com outros textos, pela retomada/releitura que um texto produz sobre outro texto para apropriá-lo, transformá-lo e/ou assimilá-lo. A autora acrescenta que a intertextualidade, na visão da análise de discurso, diz respeito não só ao “efeito de origem do texto”, mas também aponta para outros textos que poderão surgir e se inscreverem numa mesma rede de sentidos, como é o caso da escritura, reescritura, paródias, quer já estejam produzidas, ou ainda por serem produzidas.
Diferentemente das relações intertextuais, as relações interdiscursivas, segundo a autora, conduzem o texto a outros discursos que não são muitas vezes possíveis de serem identificados precisamente a sua origem, ou seja, há uma dificuldade para diferenciar o que efetivamente foi produzido no texto e aquilo que é proveniente de outros discursos ou interdiscurso. Esta dificuldade se deve ao fato da dispersão do discurso, uma vez que se entrecruzam formações discursivas diversas que acionam posições-sujeito também diferentes.
Segundo Orlandi (2001), na textualização do discurso há uma espécie de incompletude que abre espaço para pensar o texto em sua relação com a discursividade. Essa abertura, concebida através dessa relação de incompletude entre o texto e a discursividade, possibilita a multiplicidade de leituras. Daí, essa autora afirmar que:
[...] o texto pode ser considerado uma peça no sentido de engrenagem. É uma peça que tem um jogo, jogo que permite o trabalho da interpretação, do equívoco. Há um espaço simbólico aberto - possibilidade do sujeito significar e se significar indefinidamente - que joga no modo como a discursividade se textualiza. (ORLANDI, op. cit., p. 65).
14 Essas relações serão fundamentais para se perceber no texto escrito dos sujeitos professoras o trabalho com o processo da escritura e com o efeito-autor.
15 A autora entende textualização de acordo com Orlandi (1983) como sendo o trabalho de “costura” que o su- jeito realiza a partir dos diferentes recortes produzidos pelo interdiscurso.
Para a teoria discursiva, no próprio texto, há lugar para o jogo de sentidos, do trabalho da linguagem, do funcionamento da discursividade. No âmbito discursivo, é importante assinalar que o texto já é tomado como discurso no sentido de que ele é determinado por um processo discursivo, na medida em que é responsável por organizar a relação da língua com a história na produção de sentidos e do sujeito em sua relação com o contexto histórico-social.
Se o texto é o espaço de materialização do discurso, por sua vez, a categoria discurso, na perspectiva da AD, é construída a partir de um ponto de vista, como uma instância integralmente histórica e social e não como um sistema fechado e homogêneo. A definição de discurso vai se distanciar do esquema tradicional de uma mensagem transmitida por um emissor, através de um código, a um receptor como se houvesse simplesmente uma transmissão de informações de forma linear. A proposta da Análise de Discurso é deslocar esta noção de mensagem e pensar no discurso, uma vez que quando o sujeito se dirige a outro, ele não está apenas transmitindo informações, mas estabelecendo um jogo complexo no funcionamento da linguagem entre os sujeitos os quais estão afetados pelos fatores lingüísticos e históricos que produzem efeitos de sentido os mais variados.
Nesse sentido, o discurso não é meramente uma reprodução ou identificação de uma determinada ideologia proveniente dos Aparelhos Ideológicos do Estado, conforme pensam ainda os que fazem uma leitura apressada da teoria discursiva, mas ele está imbricado e interrelacionado com as redes de memória e com os processos sócio-históricos que o possibilitam deslocar-se, tornar-se outro, desestruturar-se e reestruturar-se. Essa ideia pode ser confirmada através das próprias palavras de Pêcheux quando ele considera que:
[...] todo discurso é o índice potencial de uma agitação nas filiações sócio- históricas de identificação, na medida em que ele constitui, ao mesmo tempo, um efeito dessas filiações e um trabalho (mais ou menos consciente, deliberado, construído ou não, mas de todo modo atravessado pelas determinações inconscientes) de deslocamento no seu espaço: não há identificação plenamente bem sucedida, isto é ligação sócio-histórica que não seja afetada, de uma maneira ou de outra, por uma “infelicidade” no sentido performativo do termo – isto é, no caso, por um “erro de pessoa”, isto é, sobre o outro, objeto da identificação. (PÊCHEUX, 1997, p. 57)
A partir dessas considerações de Pêcheux em que o discurso é ao mesmo tempo efeito e trabalho nas redes de filiações de sentidos, podemos afirmar que os sentidos não estão dados, mas são produzidos nas relações de linguagem através dos sujeitos e do trabalho com o simbólico que se inscrevem no jogo das múltiplas formações discursivas.
Orlandi (2001) aponta e caracteriza três aspectos envolvidos no processo de produção do discurso que merecem ser comentados para que entendamos melhor como o sujeito na posição de autor mobiliza esses aspectos no momento de produção da escritura. Esses aspectos são a constituição, a formulação e a circulação dos discursos. Courtine (1985) também os aborda, enfatizando mais a constituição e a formulação do dizer. Trataremos aqui, mais especificamente, da formulação dos discursos e de sua circulação, tendo em vista que já abordamos, de certa forma, no item anterior, o aspecto da constituição quando discorremos sobre a memória discursiva. Vale salientar que esses aspectos estão intrinsecamente interrelacionados, não sendo possível separá-los, na medida em que ao formular o texto/discurso, ao mesmo tempo, materializamos o nosso dizer, a partir de um já dito, da constituição de uma memória e esse dizer circulará segundo certas condições sócio-históricas.
Retomando, pois, o dizer de Orlandi (2001), diríamos que a formulação se processa em condições de produção específicas que mobilizam a atualização da memória discursiva e a materialização dos sentidos. É através da formulação que há o encontro entre a materialidade da língua com a materialidade da história, provocando um confronto entre o simbólico e o político e a irrupção do acontecimento discursivo. A formulação é a textualização da memória, a corporalidade, como diz Orlandi, dos sentidos, dos gestos de interpretação pelo “equívoco, a falha da língua inscrita na história”(p. 9).
Segundo ainda essa autora é a formulação que se coloca como uma “cesura no continuum da discursividade”, ou seja, no momento da formulação há uma espécie de recorte ou direcionamento dos sentidos que leva a se comprometer com uma dada versão (direção, espaço significante). Essa versão do discurso representa um recorte do processo discursivo, um gesto de interpretação que implica na identificação e reconhecimento do sujeito e do sentido.
Orlandi (2001) destaca também a importância da instância da circulação dos discursos que está relacionada a determinadas conjunturas ou condições sócio-históricas. No momento da formulação, a atualização da memória discursiva, sujeito e sentido se imbricam, se interrelacionam e se processa um direcionamento do dizer para um outro, de modo que esse dizer se apresenta ideologicamente marcado e se inscreve e circula num determinado contexto o qual não é neutro. Assim, para Orlandi, “os meios” e a maneira como e onde circulam os dizeres (quer seja em forma de carta, documento, música, etc) não são nunca neutros, já que os sentidos se processam “como se constituem, como se formulam e como circulam”.
Diante do que expusemos, podemos dizer que, para a teoria discursiva, há uma relação constitutiva entre texto/discurso. O texto não é visto como uma unidade empírica, apenas linguística e que preexiste ao sentido, mas uma forma material simbólica que constitui o
processo de discursividade. De modo que o gesto de inscrição num discurso que se materializa no texto se processa pelo posicionamento de um sujeito que assume o lugar de autor, responsabilizando-se pela produção do texto e atribuindo-lhe, de forma imaginária, unidade e coerência.
Considerando que o discurso/texto trabalha assim no espaço do movimento, da tensão entre formulação e circulação dos sentidos, na tensão entre o imaginário e o real, entre a unidade do texto e a dispersão do discurso, um dos objetivos da nossa pesquisa é observar como se dá o efeito-autor, a partir da escritura de gêneros por professores no meio institucional de formação acadêmico, como há o encontro entre a materialidade da língua e da história, entre unidade e dispersão, entre estrutura e acontecimento. Nesse sentido, passaremos no item seguinte, a discutir a noção de autoria, esclarecendo também o que estamos entendendo por efeito-autor.