A necessidade de consenso sobre tributação ficou clara durante a crise fiscal mundial pós-década de 1980. Quanto mais aumentava o déficit público, menos recursos os Estados tinham para investir. Se de um lado o Estado, a despeito de
outras maneiras de superar a crise fiscal, simplesmente aumentava a carga tributária para manter suas funções, do outro lado aumentava a insatisfação de outros setores de poder da sociedade, refletida no sentimento de que o Governo cobrava tributos cada vez mais altos, mas não realizava as contrapartidas desejadas. Com o recrudescimento desse sentimento, o mercado foi o primeiro a colocar em xeque o consenso sobre a legitimidade da cobrança de tributos que era um dos pilares de sustentação do Welfare State (ABRÚCIO, 2003 in BRESSER PEREIRA, 2003).
A crise fiscal mundial da década de 1980 resultou, dentre outras coisas, da necessidade de reconstrução da infraestrutura dos Estados afetados pela Segunda Grande Guerra. Apesar dos efeitos positivos gerados pelos investimentos com a reconstrução da infraestrutura estatal destruída durante a Segunda Grande Guerra, as duas décadas que se seguiram após o fim do mencionado conflito mundial impactaram as contas públicas, pressionando os Estados a reduzirem seus déficits. Juntando-se a isso, os processos produtivos que eram fortemente dependentes dos combustíveis fósseis, sofriam com os efeitos da Crise do Petróleo que, segundo Vicente (2009), iniciou-se em 1973 e foi controlada somente em 1979.
Um dos fatos ocorridos nesse período de turbulência econômica que abalou o Welfare State e que merece ser citado foi uma revolta de empresários na Inglaterra contra o aumento da carga tributária que incidia sobre seus negócios. Segundo Abrúcio (2003, p. 176), os empresários teriam se rebelado “[...] contra a cobrança de mais tributos, principalmente porque não enxergavam uma relação direta entre o acréscimo de recursos governamentais e a melhoria dos serviços públicos”. Esse fato ficou conhecido como a “revolta dos tax payers”.
Ao contrário do que se possa imaginar, a revolta dos “tax payers” não é um exemplo de que a manutenção de um consenso social, ou a construção de um novo consenso social dependa exclusivamente de intervenções estatais na economia, ou de políticas públicas voltadas para o mercado. Acima de tudo, a revolta dos tax payers demonstra que o consenso social depende da vitória do espírito coletivo sobre o individualismo exacerbado, carecendo de debates sobre justiça fiscal, no tempo e no espaço enfocando a dicotomia entre o indivíduo e a coletividade.
A possibilidade de se estabelecer um consenso está diretamente relacionada à forma como os indivíduos pensam, e isso inclui o Estado com seus servidores públicos e a economia com seus empresários. No Brasil, a adoção de princípios do Welfare State não teve origem em lutas de classes (GOMES, F., 2006), pois os
valores relacionados ao Welfare State que o Brasil adotou resultaram de políticas públicas do tipo top down. Isso representa um problema incomensurável, pois a efetividade das “leis” da dinâmica do Estado e da própria economia está relacionada à vontade do ser humano, ao universo cultural e respectivas tradições sociais. Os ditos organismos estatais e as ditas empresas só existem porque o ser humano as inventou. Importante frisar que não estamos negando a existência de uma dinâmica própria ao Estado e à economia, mas sim abstraindo da gênese desses institutos a ideia de que, mudando os valores sociais, muda a dinâmica do Estado e da economia, mudam os servidores públicos e mudam os empresários. Nesse sentido foi que Marx (2006) pregou a libertação do homem pela educação afirmando, dentre outras coisas relacionadas a valores morais, que “na economia nacional, sob o domínio da propriedade privada, o interesse que um indivíduo tem na sociedade está precisamente em relação inversa ao interesse que a sociedade tem nele [...]” (MARX, p. 64, 2010a).
A ideia marxista sobre educação tem como foco principal a contraposição às apologias históricas, aos falsos heróis e às más fábulas ou ideologias destinadas à perpetuação de uma elite no poder. Para Marx (2006, 1985), essa contraposição só é possível de ser feita quando interpretamos os fatos com abordagens realistas, em especial considerando seus aspectos políticos e econômicos no tempo e no espaço.
De tudo o que foi exposto, podemos abstrair que a palavra consenso deve ser tomada no sentido de reflexão e escolhas baseadas em informações plenas sobre o problema ou problemas em discussão. Contudo, o alcance do consenso depende, obviamente, de um espírito de coletividade que de acordo com o pensamento platônico (PLATÃO, 2007) só pode ser alcançado quando houver um mínimo de coincidência entre os valores morais dos indivíduos, e isso só ocorre quando a matriz axiológica fixada nas crianças contempla determinados valores morais imprescindíveis à vida em sociedade.
Considerando que a fixação de valores morais ocorre no sistema pré- consciente – Pcs – (FREUD, 2001), e o consenso social depende da vontade individual, o alcance do consenso está diretamente relacionado ao arbitramento do cidadão que por sua vez é sobremaneira influenciado pelo próprio ego. Mas o que isso tem de relevante? A resposta é a seguinte: ao refletir, o indivíduo poderá considerar inúmeras variáveis, mas regra geral, sua escolha em prol da coletividade só ocorrerá se o valor ou conjunto de valores que determinam o fenômeno do
individualismo exacerbado não estiverem impregnados em seu subconsciente. O ser humano que é exacerbadamente individualista, ou seja, egoísta ao extremo não se preocupa com seus semelhantes ou, preocupando-se, senti-lo-á apenas por uma ou outra pessoa mais próxima. O segredo do consenso está, portanto, na formação do caráter do indivíduo que deve ser moldado para evitar a fixação de valores em seu sistema Pcs que o transformem em um individualista exacerbado.