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Ao interpretar a fundação constitucional americana, Hannah Arendt não diferencia a revolução americana da fundação constitucional propriamente dita. Toda a sua interpretação se dá como se a visão daqueles que eram a favor da constituição de uma União fosse uma só e a única naquele contexto americano. Com isto é que ela utiliza textos de Thomas Jefferson, John Adams e James Madison como se não houvesse, entre eles, e entre eles e outros (Hamilton, por exemplo) tensões que tornariam a análise no mínimo mais trabalhosa. Além disso, as diferenças entre o que era esperado na revolução, e o que acabou sendo instituído como Constituição não são levadas em consideração. A despeito disso, analisemos suas observações, para depois tentar confrontá-las com as nossas já feitas no capítulo anterior, ainda que nosso foco tenha sido apenas os Artigos Federalistas.
O sucesso da fundação constitucional americana, para Hannah Arendt, se deu, principalmente, em virtude de ali ter sido operada a instituição de uma comunidade política sem com isso ter a pretensão de resolver problemas sociais. A escravidão, questão social que perdurou para além da aprovação da Constituição, não foi tratada porque era como uma questão "inexistente" (DR, p. 57) e também não foram levantados problemas relativos à precariedade das condições sociais da população. Arendt viu, portanto, na fundação constitucional americana, a separação entre o social e o político, que ela postulou em toda sua obra. A mesma separação entre o social e o político foi o que fez Arendt ver também nos sovietes, implantados no decorrer da Revolução Russa, uma experiência genuinamente política. Só que, ali, a ressalva feita pela autora foi a de que os sovietes foram bem sucedidos enquanto operaram de acordo com uma separação não- marxista entre política e economia (DR, p. 52). A separação entre as questões políticas, de um lado, e as econômicas e sociais, de outro, foi o que permitiu a Hannah Arendt retirar da política o interesse, como já apontado. E, a despeito de operar com essa separação, ela viu na fundação constitucional americana um caso exemplar de ação política desinteressada, e geradora de poder.
sense of mankind will still see the same difference between them, that is here proved between the American and French Revolutions. - The difference between right and wrong. (GENTZ, 1995, p. 3-4)
Examinando as interpretações sobre a fundação constitucional americana, Arendt rechaçou veementemente a interpretação de Charles Beard. E seu ataque à crítica empreendida por Beard se deu menos pelo conteúdo do que pela forma da crítica. Como já apontamos no capítulo anterior, Beard investigou quem eram os founding fathers, ou seja, quais os interesses que os moviam no momento das discussões e da votação da proposta de Constituição dos Federalistas. Segundo Arendt, esse tipo de crítica não faz sentido, uma vez que vai além daquilo que a política é: o terreno das aparências. Tal tipo de investigação, de acordo com a autora, é semelhante à "caça aos hipócritas" operada por Robespierre no contexto da Revolução Francesa, e não diz respeito ao terreno do político. Para ela, a política lida com aquilo que os indivíduos representam no cenário político, e esta é uma garantia dada pela própria política. É porque a política lida com aparências que ela pode lidar com indivíduos iguais. Avançar, portanto, essa proteção, ou retirar a "máscara" dos atores é passar a usar instrumentos não-políticos que não contribui para a análise dos eventos históricos nessa perspectiva política.
Afastada, portanto, a análise de Beard, e qualquer investigação sobre os interesses que estavam em questão naquele debate, Arendt afastou a presença do interesse da fundação constitucional americana. Mas, como a nossa própria análise já apontou no capítulo anterior, ainda que se admita a falta de sentido da análise de Beard e a sua pouca veracidade em relação aos fatos do período, e mesmo admitindo que os Federalistas não estavam ali defendendo seus próprios interesses, parece inegável que os interesses estão presentes no projeto de república proposto por eles, ao menos aquele defendido nos Artigos Federalistas. Hannah Arendt parece ter desconsiderado essa presença.
Para Arendt a grande inovação apresentada pelos americanos foi uma nova equação para o poder. Segundo ela, eles estavam menos preocupados em limitar o poder, tal como sugeria a adoção da fórmula da separação de poderes de Montesquieu, do que com a garantia da geração de mais e mais poder (DR, p. 123)97. Isto foi possível por
eles terem identificado, ao contrário dos franceses, a diferença de fontes para a lei e para o
97 Outra solução para a organização dos poderes da república que Arendt louvou como obra americana, foi a
atribuição de autoridade ao poder judiciário, modificando a solução romana segundo a qual o poder estava no povo, e a autoridade no Senado. Como para explicar melhor isso precisaríamos adentrar o conceito de autoridade da autora, deixamos aqui apenas indicado.
poder (DR, p. 132). Na França, na formulação constitucional teorizada por Sieyes, a diferença entre poder constituinte e poder constituído sempre gerou um círculo vicioso em que o pode de emanar leis daqueles que estivessem tentando aprovar uma constituição poderia ser questionado. Na América, diferentemente, a elaboração da Constituição e, posteriormente, das leis, eram atos que não dependiam do poder, que tinha sua fonte anterior à própria constituição, e continuaria tendo sua fonte posteriormente, com a abertura deixada pela Constituição para a ação. Reivindicar uma separação clara entre lei e poder está em pleno acordo com a concepção de lei como algo pré-político , como já explicamos em trabalho anterior.
Com os franceses, ou mobilizados em torno de uma vo ntade geral, a
la Rousseau, ou de um interesse parcial que é estendido ao todo, tornando-se único a la Sieyes, o tempo todo era verificado se a Constituição ou as leis a serem estabelecidas eram resultado legítimo dessas fontes de poder. Com os americanos, a Constituição deveria garantir os poderes já existentes e viabilizar que mais poder pudesse ser gerado. Eis a síntese de Arendt sobre as diferenças de tratamento do poder nas duas revoluções. Estamos parcialmente de acordo com a autora. Até aqui a sua análise combina com a que empreendemos nos capítulos anteriores. Apenas destoamos em um ponto: Hannah Arendt desconsiderou a presença dos interesses na república americana. Vejamos como.
8.2 Interesses e opiniões: duas faces da pluralidade
No capítulo anterior, ao caracterizar a república fundada pelos americanos, a denominamos de "república de interesses", "república de indivíduos" e "república da opinião pública". Hannah Arendt provavelmente concordaria com as duas últimas denominações, mas não com a primeira. No capítulo anterior vimos, em algumas passagens do próprio texto dos Artigos Federalistas, e também apoiados em alguns textos de comentadores, como interesse e opinião estavam indissociados em várias passagens. A opinião, em vários momentos, poderia ser considerada uma tradução política para o interesse econômico. A forma da república comercial, em expansão, tendo de garantir que os interesses econômicos de cada indivíduo estivessem mais que protegidos, viabilizados, é aquela em que cada um pode ter sua opinião, manifestá-la e, mais ainda, projetá- la sobre os