2.2. Bağdaşım Teorisini Destekleyen Argümanlar
2.2.2. Epistemik Gerekçelendirme İçin Bağdaşım Gereklidir
No transcorrer desta pesquisa pudemos observar que João Simões sendo um herdeiro de estanceiros e charqueadores teve, desde muito cedo, um contato efetivo com o mundo rural, o qual descreveu com tamanha verossimilhança em Terra Gaúcha. Foi esse mesmo ambiente que proporcionou uma vida confortável para o autor que frequentava os meios mais intelectualizados de sua cidade, além de passar temporadas, sejam de estudo ou lazer, na capital nacional da época, o Rio de Janeiro. Certamente, lá pode ter contato com tudo o que havia de mais atual no país á sua época, no entanto, vale lembrar que Pelotas era umas das cidades mais importantes do Rio Grande do Sul e por ela passavam muitos espetáculos culturais e conferências, além da própria efervescência cultural da cidade, à qual o autor era um importante colaborador, seja escrevendo para o teatro, seja organizando eventos, como apresentamos no primeiro capítulo.
Outro fato de tamanha importância que observamos no texto, foi que João Simões era maçom e como tal possuía uma rede de relações, como foi possível notar ao analisarmos o caso do Colégio Pelotense e luta pela laicização do ensino. Também devemos atentar que maçonaria era uma das instituições mais organizadas da época, o que pode ter auxiliado João Simões na sua “batalha” pela educação cívica, tendo em vista a hipótese levantada na pesquisa de uma suposta campanha cívica “auxiliada” por essa instituição.
Com base nas referências teóricas sobre a nação e os nacionalismos, chegamos a conclusão que João Simões aproximava-se dos ideais de Rousseau no que diz respeito a religião civil, onde a pátria ocuparia o lugar de Deus e seria louvada em praça pública em grandes festas e paradas cívicas. Ao mesmo tempo, o autor abominava as ideias universalizantes de que a pátria é onde se está, pois todos somos filhos da humanidade, como professava Voltaire.
João Simões expôs em suas Conferências Cívicas as preocupações de sua época como a falta de uma educação voltada para os ensinamentos pátrios. Refletiu as ideias de toda uma gama de intelectuais contemporâneos à ele. Expôs, como Romero, nossos vícios e virtudes, buscou soluções para a melhora da situação da educação no Brasil, combatendo assim o analfabetismo e defendendo um ensino laico e democrático. Chamou pra si o dever de mudança e expôs o ideal de um livro
de leitura que fosse capaz de ser singelo, amado e querido pelas crianças que com ele estudasse, além de despertar em todos o amor pela pátria, “o espírito da nação”.
O livro de leitura Terra Gaúcha, é uma interessante e complexa forma narrativa elaborada pelo autor. A partir de suas criações características de tipos sociais ele buscava gerar identificação nas crianças, pois como José Veríssimo, acreditava que eram as crianças que deveriam ter, já nos primeiros anos de escolaridade, um ensino cívico que inculcasse em seus corações o amor pela pátria, porque as crianças seriam o futuro da nação. Dessa forma, João Simões criou seu menino Maio, um pequeno brasileiro que, assim como as demais crianças brasileiras, sofria com a falta de um ensino adequado, até que foi matriculado no novo colégio municipal de ensino laico e moderno, onde ele aprendeu sobre o seu país, ao invés de decorar lições e tinha aulas de educação física, pois além de uma mente sã, era preciso um corpo igualmente são.
Baseado na história do Rio Grande do Sul, em seus costumes e tradições, João Simões destaca a terra do menino, a terra gaúcha, não num sentido separatista, bem pelo contrário, num sentido unitário, demonstrando que cada região brasileira e suas especificidades fazem parte da nação. Como vimos no segundo capítulo, recorrer a história e aos mitos para criar um passado mítico é comum no processo de criação de identidades e logo de imaginar a nação. Neste sentido, vale destacar que Lévi-Strauss (apud, GAUER, 2011, p.34) afirma que a identidade é algo abstrato e sem existência real, no entanto, é indispensável como ponto de referência.
Embora sejam entidades abstratas, as identidades - enquanto propriedades distintivas que diferenciam e especificam grupos sociais - precisam ser moldadas a partir de vivências cotidianas. Assim como a relação com os pais nos primeiros anos de vida é determinante na construção da identidade individual, as primeiras vivências e socializações culturais são cruciais para a construção de identidades sociais, sejam elas étnicas, religiosas, regionais ou nacionais. (OLIVEN, 1992, p.27)
Era exatamente assim que pensava João Simões, acreditava que suas narrativas podiam auxiliar para que se gerasse uma identificação e logo uma ideia de pertencimento a tal lugar.
Indo de encontro ao que coloca Walter Benjamin em seu texto O Narrador (1994, p.199), percebemos na figura de Juca Picumã, da primeira parte do livro de leitura, ou seja, do universo “quase mítico”, como aquele “camponês sedentário”, no sentido que passa a vida no campo e, por sua experiência, não raras são as vezes
que dá conselhos ao menino, assim como a figura do Mestrinho, da segunda parte do livro que, ao contrário, é representado como aquele que “viaja [e] tem sempre o que contar”. De uma forma, ou de outra, ambas as personagens do livro de leitura têm o objetivo de ensinar e aconselhar o menino e, por conseguinte, aos meninos que estudariam com o livro, pois a narrativa
[...] tem sempre em si, às vezes de forma latente, uma dimensão utilitária. Essa utilidade pode consistir seja num ensinamento moral, seja numa sugestão prática, seja num provérbio ou numa forma de vida - de qualquer maneira, o narrador é um homem que sabe dar conselhos. [...] (BENJAMIN, 1994, p.200)
Portanto, João Simões a partir de suas Conferências Cívicas e influenciado por uma gama de autores e suas respectivas correntes de pensamento propôs uma maneira narrativa de construção cultural visando a identificação e logo, o sentimento de pertencimento. Ele cria, através de seu livro de leitura, uma construção complexa de identificação que parte das regiões para abranger o todo nacional. Neste sentido, salientamos mais uma vez que relegar o autor ao plano do regionalismo é limitar o estudo sobre ele e suas obras. Essas primeiras apontam direções muito diferentes das que vem sendo repetidas ao longo dos anos. Cabe dizer, que não rejeitamos a ideia de ele ser uma regionalista, mas acreditamos que seu apreço pelas regiões se dava num sentido maior, de demonstrá-las como partes do todo nacional. De fato, essa nomenclatura, de regionalista, lhe foi dada por alguns estudiosos muitos anos depois de suas publicações, ou seja, foram outros que lhe relegaram esse título, o que não quer dizer que estas eram as pretensões reais do autor. Outrossim, mudar o foco em relação ao próprio autor, deixando de vê-lo apenas como um escritor regionalista e passando a vê-lo como um intelectual refletindo as problemáticas de seu tempo, amplia o olhar acerca desse autor que a cada estudo mostra uma nova face.
FONTES:
1.Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul (Porto Alegre).
Caixa 09:
- "Ligeira contradicta a uma decisão do Conselho de Instrução Pública." (Carta de João Simões Lopes para o Conselho de Instrução Pública- manuscrito)
2.Biblioteca Pública Pelotense (Pelotas) 2.1 Arquivo Histórico
2.2 Fundos: Família Simões Lopes. Série: João Simões Lopes Neto.
- Educação Cívica – conferência proferida por João Simões Lopes Neto realizada na Biblioteca Pública de Pelotas e repetida, a convite, em outras cidades. Publicada sob o patrocínio das sociedades União Gaúcha, de Pelotas – Centro Gaúcho, de Bagé e Grêmio Gaúcho de Porto Alegre para distribuição gratuita. Pelotas, 1906
- Álbum Simoniano - álbum de recortes de jornais e outros, organizado por Francisca Meireles Lopes Simões Lopes. Sem data.
2.3 Hemeroteca
- A Opinião Pública - 1904 e 1906. - Diário Popular - 1904 e 1906.
3. Museu Rocco Felipe – Loja Fraternidade (Pelotas)
- Certificado de grau de mestre da Loja Rio Branco, 28 de dezembro de 1890. - Quadro de obreiros da Loja Unidas de Pelotas e data de 02 de outubro de 1915