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Para as eleições presidenciais de 1922, oligarcas do Rio de Janeiro, Pernambuco, Bahia e Rio Grande do Sul lançaram as candidaturas de Nilo Peçanha e J. J. Seabra contra Artur Bernardes e Urbano Santos, candidatos dos grupos dominantes de Minas Gerais e São Paulo. Os estados de “segunda grandeza”, coalizados no movimento chamado Reação Republicana, tentavam ofuscar o predomínio das oligarquias paulista e

34 FORD, Henry. Os princípios da prosperidade de Henry Ford: as obras de Henry Ford: minha vida e minha obra, hoje e amanhã, minha filosofia da indústria. Tradução: Monteiro Lobato. 4. ed. Rio de Janeiro: Maria Augusta Delgado, 2012. p.107.

59 mineira e ampliar sua participação política na federação. Os grupos dissidentes buscaram mobilizar as massas urbanas e os militares contra o governo federal e os candidatos situacionistas (FERREIRA; PINTO, 2006, pp.393-399).

Nos dias 9 e 10 de outubro de 1921, durante a campanha presidencial, O Correio da Manhã publicou duas cartas atribuídas a Artur Bernardes contendo comentários hostis aos militares e ao Marechal Hermes da Fonseca. As “cartas falsas” visavam indispor as Forças Armadas e o candidato mineiro e conseguiram, de fato. Nilo Peçanha era apoiado por militares de todo o país. Os atritos entre a corporação e as oligarquias dominantes já eram claros desde a nomeação de um civil (Pandiá Calógeras) para o Ministério da Guerra no governo Epitácio Pessoa (CARVALHO, 2006, p.241). Não evitaram a vitória de Bernardes nas eleições de 1º de março de 1922.

Meses antes da posse, em 5 de julho de 1922, acontece o levante do Forte de Copacabana, primeira revolta do movimento tenentista. Os militares rebelados, sobretudo de baixas patentes do Exército, combatiam a manutenção do poder político das elites. Epitácio Pessoa decreta o estado de sítio e as tropas legalistas obtêm a vitória na tarde de 6 de julho. Dois anos depois, os tenentes foram julgados e sentenciados como revolucionários (LANNA JÚNIOR, 2006, pp.317-319).

O segundo levante do tenentismo resistiu de 5 a 28 de julho na cidade de São Paulo. O general Isidoro Dias e o major Miguel Costa lideraram o movimento iniciado nos quartéis militares de Pinheiros e Quitaúna. Os revoltosos assumem o controle da cidade e o presidente do estado, Carlos de Campos, foge da capital. Os contra-ataques das forças governistas e os bombardeios causaram desordem e terror

entre a população. “Quem pôde abandonou a cidade; quem permaneceu não saía de suas casas” (LANNA JÚNIOR, 2006, p.321). O governo recusou tentativas de negociação

com os militares e continuou bombardeando a cidade, atingindo indistintamente civis e revolucionários. Os militares rebeldes deslocam o movimento em direção ao interior do estado entre os dias 27 e 28. Carlos de Campos retornou a São Paulo em seguida, mas a Coluna Paulista, como seria chamada a brigada, resistiu aos ataques das forças legalistas e encontrou a Coluna Prestes na Foz do Iguaçu em março de 1925.

Outro levante ocorreu no Rio Grande do Sul, de 29 de outubro a 27 de dezembro de 1924. Os militares invadiram as cidades de Santo Ângelo, Uruguaiana, São Borja e São Luís e entregaram sua administração a civis. “Esses movimentos iniciavam com uma quartelada e posterior ocupação de pontos estratégicos da cidade” (LANNA JÚNIOR, 2006, p.328). Em São Luís, onde concentraram suas últimas forças,

60 formam a Coluna Prestes, liderada pelo capitão Luís Carlos Prestes, no intuito de encontrar a brigada paulista na Foz do Iguaçu.

A Coluna Miguel Costa-Prestes tinha como objetivo alastrar a revolução em todo país, criando as condições necessárias ao assalto do Distrito Federal. O movimento atravessou Mato Grosso, Goiás, Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco e Bahia entre março de 1925 e fevereiro de 1927. Os militares em armas continuavam seu itinerário, embora inferiores em número e em armamentos às tropas governistas. Sua continuidade evidenciou a incompetência do governo Artur Bernardes em controlar o levante revolucionário, mesmo fracassado.

Nas questões sociais, não foi mais hábil. O estado de sítio, instaurado em julho de 1922, sob Epitácio Pessoa, que seria prorrogado até dezembro de 1926, deteve o avanço das greves operárias. “Sob o estado de sítio, multiplicaram-se as invasões policiais e o fechamento de sindicatos, sorte da qual nem os sindicatos reformistas

escaparam” (BATALHA, 2000, p.59). Com a desorganização das associações operárias,

o vigor das greves gerais de 1917 e 1919 (Rio de Janeiro e São Paulo) era abafado. O Partido Comunista do Brasil, fundado em março de 1922, teve limitada atuação neste momento. Os direitos trabalhistas sancionados, como a lei Eloy Chaves (1923) e a lei de férias para os trabalhadores do comércio e da indústria, careciam de fiscalização e eram antes tentativas de melhorar a imagem do país na Sociedade das Nações (BATALHA, 2000, pp.59-61).

Não causa assombro a temática da revolução nos artigos de Monteiro Lobato sobre Henry Ford. Crises econômicas, conflitos sociais e instabilidade política marcaram o quatriênio Artur Bernardes. O sistema político brasileiro estava em perigo.

O “heroe do trabalho” indicava um caminho a seguir, mantendo as estruturas de mercado e corrigindo os vícios do sistema. Era “um ajustador”. Uma mudança dentro

61 2.3. São Paulo: “Asilo dos Deuses Inválidos”.

Quando estudante de Direito da Faculdade do Largo de São Francisco, em São Paulo, Monteiro Lobato dividiu um chalé amarelo na Rua 21 de Abril, no Belenzinho, com alguns amigos da tradicional instituição, entre 1903/04. Ocupava o centro de um enorme terreno de chácara, com “laranjeiras, ameixeiras, creio que um pé

de romã, o coqueiro ao lado, a horta e uma grande paineira à esquerda”, e possuía dois andares. A rua era “toda sebes e espinheiros”1 e poucas casas ocupavam as vizinhanças. Nesta paisagem, lembrava um minarete. Somente em julho de 1918 voltaria naquelas cercanias:

Há dias fui com Oswald [de Andrade] em procura do velho Minarete – pela primeira vez desde aquele nosso tempo. Está a mesma coisa, só que pintado no fresco. O carvalho da entrada, maior; mas sempre sentimental e poético, mormente agora que se despede das últimas folhas amarelas. Os carvalhos conservam os seus hábitos europeus; ainda não aprenderam o mau costume das árvores indígenas, de se conservarem verdes o ano inteiro – essa monotonia que desespera os pintores. Espiei da porta aquele “Paradou” da entrada, aquela cercadura de canteiros maltratados que nem poda conheciam, e minha sensação foi de coisas idas – paisagenzinhas do Tartarin de Tarascon e do Robert Helmont... O que mudou, e desastrosamente, foi o arredor. Aquela rua de pinheiros, que ia do portãozinho à avenida do bonde da Penha lá embaixo, já não tem pinheiros, nem é de terra e matinhos marginais, está sórdida, infamemente calçada de paralelepípedos e compactamente edificada dos dois lados. Casas, Rangel, em vez daquelas sebes de espinheiro atrás dos pinheiros! A “cidade” alcançou a paisagem que aquilo ali era e matou-a. Em vez de paisagem, virou uma coisa reles chamada “Rua Cesário Alvim”. Esse Cesário devia ter sido um sujeito prodigiosamente desinteressante, para interessar à imaginação dum lote de vereadores paulistas.

Mas a cidade alcançou o nosso Minarete, entalou-o dentro duma concreção chamada “casas do Brás”, tão feias, coitadinhas, tão pobres, tão humildes... O grande terreno em volta do nosso chalé tornou-se um terreno pequeno. Lotearam a maior parte da chácara e venderam-na aos miseráveis bípedes que destroem as paisagens com a sua mania de construir casas. Mas o Minarete, o nosso chalezinho amarelo, persiste, resiste, insiste. Está assediado pelo casario invasor, está sem os pinheiros da frente, está sem a paineira dos fundos – mas insiste, resiste, persiste. Não adere. Não se alviniza. É um símbolo. Parece que está lá dentro a alma do Ricardo [Gonçalves], de marreta em punho, escorando, detendo a invasão urbana.2 A tensão entre as memórias e as vicissitudes do cenário urbano, decorrente da expansão da cidade, que “alcançou a paisagem que aquilo era e matou-a”, produz imagens interessantes. O Minarete, convertido em símbolo, afigura os dias transcorridos que insistem, resistem, persistem aos avanços dos “miseráveis bípedes”, construtores de casas horrendas, insensíveis aos encantos do ambiente. O chalé foi cercado pelo

1 LOBATO, Monteiro. A barca de Gleyre. São Paulo: Globo, 2010. pp.33-36 (nota 1). 2 Ibidem, pp.422-423. (São Paulo, 30/07/1918).

62 inimigo, sofreu baixas (“está sem os pinheiros da frente, está sem a paineira dos

fundos”) e dispõe de parcas defesas, restando somente a saudosa alma de Ricardo

Gonçalves3, poeta do Cenáculo, talvez invisibilizado pelos valores utilitários dos invasores. Será vencido pela valorização imobiliária, voraz e incapaz de qualquer

planejamento urbano, construindo casas “tão feias, coitadinhas, tão pobres, tão humildes...”, muitas vezes destituídas dos fornecimentos de água, gás, eletricidade e

transportes, monopolizados pela Light and Power. O encontro das reminiscências de outrora com as efervescentes modificações em curso fornece a consciência da alteridade das três dimensões temporais (passado, presente e futuro) e o tempo como índice de corrupção ou progresso, consoante os interesses dos observadores. As palavras de Monteiro Lobato apontam para um misto de fatalidade e desenraizamento, sentimentos vulgares na São Paulo dos frementes anos 204.

Em artigo publicado na Folha da Manhã em 25-01-1939, E. Simões de Paula designou os desenvolvimentos socioeconômicos e culturais na capital paulista, a partir de 1872, como “a segunda fundação de São Paulo”5. De acordo com sua análise, neste período, que corresponde à expansão da lavoura cafeeira rumo ao Oeste, à entrada maciça de imigrantes e ao consecutivo incremento do trabalho livre, à ampliação das vias férreas e ao crescimento populacional, a cidade perde seus ares coloniais, deixando de ser um pequeno conglomerado urbano para se tornar uma grande metrópole.

Nicolau Sevcenko obteve conclusão afim: a expansão da lavoura cafeeira, iniciada em meados do século XIX, transformou a vila colonial construída no alto da Serra do Mar na maior metrópole do Brasil, atordoando seus habitantes. O comum

acordo entre “engenheiros, financistas e negociantes estrangeiros, basicamente ingleses”, e fazendeiros converteram a cidade de São Paulo em centro articulador, “técnico, financeiro e mercantil”, da produção de café e Santos, no único porto exportador. “Desse modo, cerca de 70% do volume do mercado mundial do café seria

3 Ricardo Gonçalves (1883-1916) cometeu suicídio em outubro de 1916. Existem poucas informações sobre sua vida: formado pela Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, não exerceu a advocacia, atuando na imprensa paulista. Monteiro Lobato organizou, prefaciou e publicou os versos do amigo, Ipês, pela Monteiro Lobato & Cia. em 1921. Cf. LOBATO, Monteiro. Prefácio aos Ipês de Ricardo Gonçalves. In: ______. Prefácios e entrevistas. São Paulo: Globo, 2009. pp.22-27 e LOBATO, Monteiro. A poesia de Ricardo Gonçalves. In: ______. Idéias de Jeca Tatu. São Paulo: Globo, 2008. pp.96-101.

4 Como caracterizada em SEVCENKO, Nicolau. Orfeu extático na metrópole: São Paulo, sociedade e cultura nos frementes anos 20. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

5 E. Simões de Paulo foi Professor da Cadeira de História da Civilização Antiga e Medieval da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo. Cf. PAULA, E. Simões de. A SEGUNDA FUNDAÇÃO DE SÃO PAULO (Da pequena cidade à grande metrópole de hoje). In: Revista de História v. 8, n. 17 (1954), pp.167-179.

63 manipulável de uma única posição, possibilitando manobras especulativas fabulosas” (SEVCENKO, 1992, pp.107-108).

O novo centro econômico da nação, estruturado em torno dessa economia, atraiu multidões ávidas de enriquecimento ou melhores possibilidades de emprego, nacionais ou imigrantes, aumentando drasticamente o contingente populacional da capital: em 1870, por exemplo, foram contabilizados 30 mil habitantes, subindo para 239 mil em 1900, alcançando 587 mil em 1920 (SEVCENKO, 1992, pp.108-109). Neste ano, 1920, São Paulo ultrapassou o Rio de Janeiro em produção industrial, resultado da diversificação dos investimentos das classes dominantes, indivíduos que,

além de latifundiários, “eram também banqueiros, comissários, donos de ferrovias e indústrias, vinculados, sobretudo, à atividade mercantil” (PERISSINOTTO, 1997,

pp.45-46). Com as mudanças econômicas e o rearranjo de forças em âmbito nacional, a paisagem urbana foi transformada numecletismo de estilos arquitetônicos, convenientes no mostrar o cosmopolitismo das elites, as fronteiras culturais fluidas, a robustez dos paulistanos e os progressos tecnológicos e morais experimentados vibrantemente.

Questiono, então: a segunda fundação foi sentida como uma nova época? Quais experiências temporais as transformações suscitaram? De que maneiras relacionar permanências e rupturas? Quais as reformulações no espaço de experiência e no

horizonte de expectativa (KOSELLECK, 2006, pp.305-327)? O espaço, lembrou-nos Monteiro Lobato, era destruído, mas ainda constituído de estratos da memória, ou seja, passado, presente e futuro indissociáveis na concretude da urbe, as reformas como motor das recordações. O progresso pressupõe a ruína do tempo já findo? Os textos do escritor ajudam na busca de respostas.

No artigo “A onda verde” (1921), Monteiro Lobato assemelhava a preamar

do café às epopeias, onde o herói (no caso, o café) desbrava regiões inteiras, impávido às geadas, formando uma sociedade própria, com novos bandeirantes, cultivadores de

“milhões e milhões de pés que ondulam por morro e vale até se perderem no horizonte confundidos com o céu”, espetáculo renovador dos espíritos abatidos, despertando “indestrutível fé no futuro destas regiões do sul”6, as mais prósperas do país. O romance nacional por excelência:

O café é uma epopéia. Quando nossa literatura largar o chazinho que beberica no Alvear e compreender a sua verdadeira missão, a epopéia, a tragédia, o drama e a comédia do café serão os grandes temas de

64 quantos sentirem em si a fagulha divina. Hoje, coitadinha, anda ela tão entretida com o seu chá das cinco, com rodopios em torno de meninas histéricas, com a cintura dos almofadinhas, com as escorrências mercuriais que o francês nos exporta, que é bom, mesmo, não se meta a estragar com mãos de mico o nobre tema.

Que fôlego é mister!

Que amplitude de visão, que dureza d’alma, que sobre-humana coragem para ver, sentir e contar a história da Onda Verde que digere as florestas virgens!

Os aspectos antigos – o eito de negros tocado a bacalhau – e os aspectos modernos – a bravura do italiano, encardido de óxido de ferro. As hostes de sertanejos, os mais rijos do Brasil, que descem pelo inverno os socavões da Bahia, de machado às costas e uma fúria de destruição nos músculos. O duelo entre esses heróis de dentes apontados a faca e a seiva bruta. O machado que canta no róseo das perobas. A foice que risca a miuçalha vegetal. A queimada, depois... e depois o sertanejo que volta à querência com o dinheiro no lenço – pago e repago da faina com o espetáculo fulgurante da queimada que leva impresso na retina.

Eles destroem, mas não sabem construir. Entra em cena, para construir, o colono europeu e começa o drama da formação: quatro anos de enxada no pulso, de corrida paciente atrás de um mato que “corre atrás da gente”. A vitória, afinal, a florada nívea – quando não, como em 1918, uma prematura florada de neve...7

As conexões entre os “aspectos antigos” e os aspectos modernos era uma

maneira de significar os processos em curso, enfatizando “a tragédia, o drama e a comédia do café” através de imagens altissonantes do trabalho árduo de heróis

anônimos, representantes das novas relações de produção, unindo negros, sertanejos, italianos e outros colonos europeus. A extensão das colheitas tornava-se compreensível pela epopeia, dando-lhe grandiosidade e necessária importância, num elogio da ação

infatigável, razão da “indestrutível fé no futuro” que assomou os observadores da Onda.

As obras literárias que poderiam ser escritas com tais materiais seriam um monumento à

capital do café, composta de “capítulos curiosíssimos, oscilantes entre o trágico e o cômico”, unindo tradições passadas e imensas expectativas. Junto da epopeia, Monteiro

Lobato usou imagens mitológicas no intuito de assimilar as novas tecnologias existentes na pauliceia, além de aumentar a carga valorativa do vocábulo “amanhã”.

Os heróis da epopeia eram os “leviatãs não previstos pela natureza” em

“Fala Jove” (1926). Nesse momento, as epopeias trágicas (qualificadas como “canções de ninar”, berceuse) mudam de tom, tornando-se “marcha mecânica”, produto da “inteligência do engenheiro que na paz do gabinete calculava com precisão a resistência dos materiais e o jogo das peças”8 na construção dos colossais couraçados, aviões e automóveis. O texto contém diálogos entre Netuno, Urano e Jove, divindades

7 LOBATO, Monteiro. A onda verde. In:______. A onda verde. São Paulo: Globo, 2008. p.21. 8 Idem. Fala Jove. In: ______. Na antevéspera. São Paulo: Globo, 2008. p.63. [1. ed. 1933].

65 mitológicas romanas, ao testemunhar sua inutilidade no mundo moderno, culminância do domínio humano nas terras, mares e céus, acima das contingências naturais:

Também Urano a princípio sorria, quando viu Gusmão lançar para os seus domínios a frágil passarola, vítima dum beiral de telhado. Sorriu ainda, desta feita amarelamente, quando Montgolfier ergueu bem alto suas esferas de ar aquecido.

- “Vence a altura” – murmurou consigo o deus -, “mas obedece

aos meus ventos. Voará como a palha, jamais como as aves”.

Mas, quando Urano viu Santos Dumont singrar o espaço num charuto, não paina que o vento leva, mas ave firme na diretriz escolhida, o sorriso gelou-se-lhe nos lábios; e pela espinha veneranda lhe ocorreu o arrepio de Napoleão em Waterloo, ao dar com Blücher no ponto em que devia aparecer Grouchy.

E o deus dos céus fez o testamento e as malas e se foi para o Asilo dos Deuses Inválidos, jogar o gamão da aposentadoria com Netuno, Jove e outros que já se achavam lá.9

O curvar dos deuses “caídos em caquexia senil” advém dos progressos humanos na área dos transportes, desenvolvidos continuamente ao longo dos anos. Distâncias outrora percorridas em meses eram vencidas em minutos, para desespero e enlevo das divindades que arregalavam os olhos e fremiam ao divisar aviões em pleno

voo, num assomo de entusiasmo, “sentimento que pela vez primeira alcançava vibratibilizar o duro basalto que deve[m] ser” seus corações. Daí Jove concluir,

engolindo seu orgulho: “Amigos, tratemos de nos naturalizar homens. É o meio único

que nos resta de voltarmos a ser deuses...”10. Mais uma vez, atribuía sentidos imponentes aos maquinários modernos.

O encanto com as novas tecnologias, incontestável, encontra seu máximo testemunho nos escritos a respeito dos engenhos estadunidenses. Monteiro Lobato sentia a vinda dos mecanismos norte-americanos como “influência”11 benéfica, no Brasil, instituindo novas formas de vida, em consonância com os progressos técnicos. No Rio de Janeiro, por exemplo, escreve sobre os “basbaques” críticos dos Estado Unidos, embora, cotidianamente, sorvam ice cream soda, vistam ternos Palm Beach, utilizem bondes, escrevam nas datilografias, falem ao telefone e, para agilizar os negócios, tomem um Buick de praça. Sem o americano

[...] esse homem teria de vir da Tijuca a pé, a cavalo ou de carro de boi. Gastaria três horas e chegaria escangalhado. Sem o americano, consumiria ele três horas no mínimo para fazer o que faz com as telefonadas. Sem o americano, teria de gastar seis horas para a ida ao Leblon, se não morresse

9 LOBATO, Monteiro. Fala Jove. In: ______. Na antevéspera. São Paulo: Globo, 2008. p.64. 10 Ibidem, p.65.

11 LOBATO, Monteiro. A influência americana. In: ______. Na antevéspera. São Paulo: Globo, 2008. p.200. [Texto de 1926].

66 pelo caminho de insolação. Sem o americano, teria que escrever à unha suas cartas, com poucas probabilidades de se fazer entendido no seu aranhol de gatafunhos. E se acaso depois de tamanha trabalheira inda lhe restassem forças para tomar uma hora no teatro, sem o americano teria de vir ver a sua beiçuda e morrinhenta cozinheira a figurar de “estrela negra” no Largo do Rodo, em vez de maravilhar-se com o encanto da sereia de olhos de gata, que é a Gloria Swanson.12

O aceleramento dos deslocamentos, veicular ou ideias, foi o “presente

máximo” do engenho estadunidense, desembaraçando, agilizando e potencializando os

serviços da cidade, com pleno funcionamento. Os norte-americanos eram exemplos de trabalho eficiente, produtivo e científico, capaz de acelerar as atividades corriqueiras, suprimir as distâncias e prenunciar o porvir através dos mecanismos fabricados. Não surpreende, portanto, O presidente negro ser ambientado nos Estados Unidos: o futuro era ali, pátria dos construtores da atualidade, de idealistas pragmáticos, das grandes indústrias mundiais, dos “elementos mais eugênicos das melhores raças europeias”13 – de Henry Ford, enfim.

Os prognósticos do escritor eram baseados nas experiências possíveis nas metrópoles do país, sentidas e apreendidas entusiasticamente, e das notícias advindas da América do Norte, alicerces das expectativas veiculadas nos periódicos e romance. Monteiro Lobato, por exemplo, descreve assim as mudanças nas ideias e nas atitudes ocasionadas no volante de um Ford:

Depois da mudança meti-me em automobilismo. Comprei um Ford e já ando a perturbar o trânsito da cidade. Ontem dei o primeiro tranco numa carroça, mas ainda não esmaguei nenhum pedestre. Curiosa a mudança de

Benzer Belgeler