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Em continuidade, percorreremos o caminho da criação do Centro Estadual de Educação Supletiva de Presidente Prudente, CEES-PP, através de dados colhidos junto aos atores responsáveis pelo processo de implantação e nos documentos referentes à instalação.

Para sustentar a veracidade das informações, obtivemos um relato concedido pela senhora Lourdes Pereira Delavale Pogetti, supervisora aposentada da Diretoria de Ensino da Região de Presidente Prudente, responsável pela primeira tentativa, em 1986, de criação, no município, do denominado Centro Estadual de Educação Supletiva.

Segundo a supervisora, a iniciativa partiu da Diretoria de Ensino de Presidente Prudente, tendo sido delegada a ela pela dirigente, Professora Helena Carolina Marrey Nauhardl. Os trâmites necessários para a criação da escola foram então providenciados e aprovados em todas as instâncias.

Em uma escola estadual, salas foram equipadas para o início do atendimento a uma lista de mais de 1.500 inscritos interessados. A equipe técnica da Diretoria de Ensino, treinada pela CENP em visitas ao CEES de Marília, tinha como certa a implantação do CEES- PP.

No entanto, quando o processo foi encaminhado para a aprovação do governador e posterior publicação, ocorreu a mudança de governo. Em 1987, assumiu o governo estadual, Orestes Quércia, que não consolidou a implantação do projeto20

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Esse fato causou um grande sentimento de frustração em toda a equipe da diretoria, acarretando, por solicitação da dirigente, uma prorrogação da aposentadoria de Lourdes Pereira Delavale Pogetti, para que acompanhasse outra tentativa de criação do CEES- PP.

O próximo passo, antes de se aposentar em 1991, foi o de reiniciar todo o processo. Porém, mesmo depois de aposentada, não deixou de acompanhar o andamento das ações que ocorriam em favor da instalação do CEES-PP. Acabou tornando-se educadora educacional no CEES-PP, de 1997 até a extinção do cargo em 2000. Sua função era de orientação pessoal ao aluno e de intermediação das dificuldades dele com os professores.

O novo projeto de implantação do Centro Estadual de Educação Supletiva no município de Presidente Prudente começou a ser concretizado somente em 1995, através da Lei Municipal nº 4.262/95, que autorizou o Poder Executivo Municipal a celebrar convênio com a Secretaria do Estado de Educação para adequação e manutenção do CEES-PP.

O despacho do governador Mário Covas autorizando a celebração do convênio foi publicado no Diário Oficial em 20 de agosto de 1996, após a Secretaria do Estado de Educação ter submetido à aprovação do Conselho Estadual de Educação o Regimento Escolar e o Plano de Curso. Contudo, a concretização da medida ocorreu somente no início de 1997.

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Como não foi possível localizar o primeiro processo de implantação do CEES-PP, bem como nenhuma autoridade que pudesse esclarecer os motivos para a sua não implantação na época, supõe-se que esse projeto não era prioridade do novo governo estadual. No Brasil, a descontinuidade administrativa é uma característica dos governos estaduais e municipais.

O convênio, com duração de cinco anos, estabeleceu as condições gerais para a participação conjunta do Estado e do Município na implantação e funcionamento do Centro Estadual de Educação Supletiva no município de Presidente Prudente.

Ficava a Secretaria de Estado da Educação obrigada a:

1. destinar dependências de próprio estadual para funcionamento do CEES, localizado na rua Claudionor Sandoval, nº 875, Jardim Paulista;

2. dotar o Centro Estadual de Educação Supletiva de especialistas de educação, pessoal docente;

3. ceder ao CEES, através da Coordenadoria de Estudos e Normas Pedagógicas / Serviço de Ensino Supletivo, um conjunto de material didático – pedagógico (Unidades de Estudos);

4. prestar cooperação técnica através da Coordenadoria de Estudos e Normas Pedagógicas / Serviço de Ensino Supletivo;

5. acompanhar e supervisionar, através de órgão competentes, o funcionamento geral do CEES. (TERMO DE CONVÊNIO/1996)

Ao município couberam as seguintes obrigações:

1. fazer as adaptações necessárias nas dependências cedidas, adequando- as para o funcionamento do CEES, em consonância com o plano de trabalho aprovado pela Secretaria;

2. garantir a manutenção e conservação das dependências, das instalações e dos equipamentos, durante vigência do contrato;

3. suprir o CEES com pessoal de apoio, merendeira, serventes, vigias, escriturários, responsável pela biblioteca e outros elementos que se fizerem necessários;

4. suprir o CEES com pessoal técnico necessário e não previsto no Quadro da Secretaria de Estado da Educação;

5. suprir o CEES com equipamentos, material permanente e material de consumo necessários ao funcionamento;

6. reproduzir21 o material didático – pedagógico básico (Unidades de

Estudo) cedida pela CENP, através do Serviço de Ensino Supletivo. (TERMO DE CONVÊNIO/1996)

O longo período transcorrido para celebração do convênio deveu-se à excessiva burocracia nos trâmites do processo. Como vimos, a lista de obrigações, de ambas as partes, necessitava ser cercada de garantias. Elas exigiam, portanto, certidões negativas de débito da prefeitura, comprovação de dotação orçamentária, vistoria sanitária, “habite-se”,

21 Em virtude do material utilizado nos CEESs do Estado de São Paulo ser padronizado, cabia aos gestores

locais, quando necessário, apenas reproduzir o material para suprir a demanda de alunos. A orientação esclarece a concepção que fundamentava CEES, enfatizando o modelo tecnicista que vigorava desde a década de 70, sema participação do aluno no processo de ensino.

laudo dos bombeiros, além de inúmeros pareceres e solicitações das assessorias jurídicas dos órgãos envolvidos no processo.

Entretanto, para o nosso objetivo de pesquisa, os aspectos mais relevantes são as justificativas e os objetivos contidos no bojo dos documentos, discutidos e definidos ao longo do processo de criação e funcionamento do CEES-PP.

Os textos revelam que a iniciativa parece ter partido do Município, já que a primeira data que se identifica na documentação é a da Lei Municipal nº 4.262 de 29 de novembro de 1995, autorizando o convênio. Logo em seguida, consta um ofício da Secretaria Municipal de Educação, de 18 de dezembro de 1995, dirigido à Secretaria Estadual da Educação, informando acerca do montante a ser aplicado no primeiro ano de convênio (oitenta e sete mil reais). Nos inúmeros outros documentos apresentados pela Prefeitura, ao longo de todo o processo, não é encontrado qualquer tipo de justificativa para a criação do CEES-PP.

As primeiras justificativas podem ser encontradas no ofício datado de 11 de janeiro de 1996, da dirigente de ensino, na época Helena Carolina Marrey Nauhardl, dirigido à secretária estadual de educação, Tereza Roserley Neubawer da Silva, encaminhando o pedido de criação do Centro Estadual de Educação Supletiva de Presidente Prudente.

A solicitação levou em consideração a necessidade de proporcionar escolarização a uma “clientela” de mais de 1.500 (um mil e quinhentos) trabalhadores que se encontravam impossibilitados de concluir o ensino fundamental e médio por exercitar horários de trabalho incompatíveis com as escolas regulares, argumentando que

[...] a criação e instalação deste Centro, viabilizaria o processo de reestruturação da rede nesta Delegacia de Ensino, haja visto que poderíamos atender melhor a demanda de vagas para alunos trabalhadores, que matricula nos cursos regulares mas abandona a Escola nos primeiros meses do ano.(OFÍCIO nº 009/96-DE/PP)

Em seguida, atendendo aos procedimentos exigidos, foram elaborados, pela equipe técnica da DE - Presidente Prudente: o Projeto de Instalação do CEES-PP, o Regimento Escolar do CEES-PP e os Planos de Cursos dos níveis de 1º e 2º Graus, enviados ao Conselho Estadual de Educação para parecer e aprovação.

A justificativa para a instalação do CEES-PP apresentou uma sinopse socioeconômica do município, enaltecendo a situação econômica, dados demográficos e populacionais. Afirmou, diante do quadro exposto, que Presidente Prudente era um município de crescimento econômico-populacional altamente significativo.

A demanda escolar da Delegacia de Ensino de Presidente Prudente que, em 1996, data da elaboração do projeto, atendia 42.000 alunos na escola regular, funcionou como fator de convencimento da justeza da medida. Em relação à Educação Supletiva, o atendimento atingia cerca de 4.000 alunos, porém sua demanda chegava a 7.000 alunos.

Além disso, o Censo/IBGE/1980 apontava, para a área de jurisdição da Diretoria de Ensino de Presidente Prudente, índices de analfabetismo em torno de 23% nas idades de 05 a 60 anos e de mais de 50% nas idades mais avançadas. Se a proposta foi de 1996, a referência ao censo demográfico de 1980 aparece mais como um argumento retórico.

A proposta de instalação do CEES-PP é fundamentada na preocupação e no interesse da Administração Pública em dar cumprimento ao que está contido nos dispositivos legais vigentes na época: a Lei Federal nº 5.692/71 e o Parecer nº 699/72 do Conselho Federal de Educação, que regulamentava o Ensino Supletivo.

Outra razão para a criação do CEES-PP foi a comprovação da prática paulista em outros CEESs existentes que demonstraram, segundo o documento, que

[...] o CEES operacionaliza o Ensino Supletivo, atendendo a uma “numerosa clientela” com organização administrativo-didática muito competente e racional, com “baixo custo” operacional, “alto padrão de rendimento” e com metodologia diferenciada como o caso requer.

A organização de um CEES é mais adequada à preparação do jovem e adulto trabalhador, instrumentando-os com maior eficiência para as exigências do mercado de trabalho regional que tem requerido de seus candidatos, pelo menos, a instrução de 1º Grau, numa demonstração de que as relações de trabalho, sempre em progressiva complexidade, dependem de conhecimentos teóricos e práticos cada vez mais amplos por parte do trabalhador. (PROJETO DE INSTALAÇÃO DO CEES-PP, 1996, p. 6, grifo nosso)

A implantação do CEES-PP tinha como objetivos:

1. Suprir a escolarização regular de 1º e 2º Graus de adolescentes e adultos que não a tenham seguido ou concluído na idade própria, através de Cursos de Suplência – Educação Geral e Qualificação Profissional;

2. Oferecer oportunidade de continuidade de estudos;

3. Proporcionar estudos de aperfeiçoamento e/ou atualização para os que tenham seguido o ensino regular ou estudos equivalentes, no todo ou em partes;

4. Informar e orientar a clientela sobre oportunidades educacionais e profissionais da comunidade. (PROJETO DE INSTALAÇÃO DO CEES- PP, 1996, p. 6)

As metas demonstram-se ambiciosas, porque se propõem a atender inicialmente 1.000 alunos, oferecendo cursos de suplência em nível de ensino fundamental,

através de Suplência I (1ª a 4ª séries) para 100 alunos e Suplência II (5ª a 8ª séries) para 500 alunos; cursos de ensino médio, na modalidade de suplência, para 400 alunos; cursos de qualificação profissional, previstos para 1998 e de suprimento para 1996.

Em oposição, previa-se um número reduzido de recursos humanos para atingi-las: 26 (vinte e seis) professores que abrangeriam todas as áreas, um diretor, um vice diretor, um coordenador pedagógico, um orientador educacional, dois encarregados do setor de multimeios (biblioteca e vídeo) e 13 (treze) profissionais apoio administrativo (entre secretário e merendeiras). A exiguidade fica patente, quando o número é comparado ao de escola regular que atende a mesma quantidade de educandos. Porém, não esconde outro propósito: “gastar pouco”, evidente, na justificativa do projeto de criação do CEES, citado acima, quando são utilizadas as expressões: “numerosa clientela”, “baixo custo”, “alto padrão de rendimento”.

A inclusão, no projeto de instalação do CEES-PP, de cursos de qualificação profissional e de suprimento tem, em si, uma forte intenção de permanência dos CEESs nos sistemas de ensino, principalmente se levarmos em conta o documento federal, escrito por Mafra (1979/80), “Conhecendo um Centro de Estudos Supletivos”22, que oferecia orientações técnicas e justificativas para a sua criação

Teoricamente, quando o ensino regular efetivamente atender a todos os brasileiros que completarem 7 anos e no dia em que todos concluírem a escolarização de 1º e 2º graus pela via regular, a função Suplência do ensino supletivo desaparecerá. O mesmo acontecerá, teoricamente, com as funções de qualificação e aprendizagem. É só acontecer a profissionalização efetiva no 1º e 2º graus, pelo ensino regular. Restará ao supletivo a sua grande e mais importante função: o suprimento, que forçosamente estará circunscrito ao contexto de educação permanente, exclusivamente pela via não-formal de ensino. É a constante atualização, o aperfeiçoamento, tanto no campo da educação, como, e principalmente, no campo da cultura. O supletivo voltar- se-á para as ciências e as artes, provocando indissociabilidade do binômio educação e cultura como forma de o homem aprender, auto-realizar-se, participar a ascendência desenvolvimentista do país e melhor exercer conscientemente a cidadania (MAFRA, 1979/80, p. 15).

Os Centros de Estudos Supletivos eram orientados, pelo documento, a incluir a função Suprimento, para torná-los espaços de educação permanente e de difusão cultural, seja por meios convencionais, seja pela utilização de tecnologias que permitissem a utilização de multimeios diretos ou indiretos.

22 Documento de responsabilidade do MEC/SEPS, utilizado em cursos de capacitação aos interessados em

O documento orientava, ainda, para não adjetivar a expressão Centro de Estudos Supletivos acrescentando a palavra profissionalizante, pois “todo CES poderá ser ou não profissionalizante” (MAFRA, 1979/80, p. 15). O especialista considera que o que poderia ser oferecido nos CES não deveria ser condicionado à denominação, pois

[...] um CES pode voltar-se para o desenvolvimento comunitário, pode conveniar com entidades públicas e privadas para o encaminhamento dos seus alunos, pode propiciar atividades ligadas ao artesanato, à preservação do folclore ou ao desenvolvimento das artes plásticas, à habilitação de profissionais a nível de 2º grau ou à profissionalização sem grau ou nível de escolaridade. Todos, através de ESTUDOS SUPLETIVOS, poderão ser clientes do CES, até os alunos do ensino regular. (MAFRA, 1979/80, p. 15, grifo do autor)

A concepção federal propunha que os alunos atendidos nos Centro de Estudos Supletivos, necessariamente, precisavam ter adquiridas habilidades de leitura e escrita, já que essas unidades não atenderiam os analfabetos, nem o curso de Suplência I (ciclo I).

No Estado de São Paulo, pretendeu-se uma concepção diferente. Os Centros Estaduais de Educação Supletiva eram orientados a atender aos não alfabetizados, os semialfabetizados e a Suplência I. A modalidade de suplência do sistema estadual abrangeria todo o ensino básico, da alfabetização ao ensino médio.

Ainda que constasse, como metas, no projeto de criação do CEES-PP o atendimento de Suplência I (ciclo I), cursos de qualificação profissional e de suprimento, a ação compatível, na verdade, nunca ocorreu. O CEES-PP, incorporando as orientações do MEC, atendeu e atende somente os alunos que pretendem a função suplência do ensino fundamental (ciclo II) e ensino médio.

Em março de 1997, iniciava-se o primeiro ano letivo do Centro Estadual de Educação Supletiva de Presidente Prudente, CEES-PP. O objetivo, conforme Plano de Curso, era responder à demanda de jovens e adultos de Presidente Prudente e de toda a região que, por motivo de evasão, repetência ou exclusão, tinham ficado impossibilitados de concluir o Ensino Fundamental ou Ensino Médio em idade/série escolar correlatos.

O Plano esclarecia que a finalidade da escola era oferecer prosseguimento de estudos e igualdade de oportunidades para segmentos sociais diversificados, possibilitando a jovens e adultos novas inserções no mundo do trabalho, na vida social e cultural, na direção da abertura de canais de participação.

Benzer Belgeler