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i) Com a desregulamentação do setor, via extinção do contrato padrão, emergiram relações conflituosas, especialmente entre os produtores e a indústria processadora. Conflitos foram verificados no estabelecimento do preço pago aos produtores pela indústria, conforme ilustrado na figura 4.

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Figura 4 – Cadeia produtiva simplificada de suco de laranja FONTE: baseado em MARINO, 2001, p. 88.

ii) A indústria processadora passa por processos de fusão, aumentando a concentração do setor, o que pode prejudicar os produtores agrícolas em virtude de seu menor poder de barganha.

iii) Outro aspecto a ser mencionado refere-se às incertezas relacionadas à esfera trabalhista. Em fevereiro de 2010, procuradores do Ministério do Trabalho solicitaram a extinção da terceirização na colheita de laranja das quatro maiores indústrias de suco. Dessa forma, pretendem que as indústrias contratem os colhedores no lugar dos próprios fornecedores.

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2. Importância para o sistema agroindustrial

O Brasil é um grande produtor de laranja e exportador de seu suco concentrado congelado - SLCC. As indústrias apresentam forte concentração, de forma que os produtores têm pouco poder de negociação.

A laranja processada pela indústria é originária de diferentes fontes:

i) Contratos, que apresentam duas espécies: a) safra: compra, por um ou mais anos, de pomares de produtores individuais, cujo contrato inclui 100% da produção da propriedade; e b) spot: compra da fruta de produtores intermediários, cujo contrato inclui volumes e preços variáveis, pactuados periodicamente durante a safra.

ii) Tradings: contratos com grupo de produtos, os quais consistem em: a) compra da fruta – contrato plurianual de fornecimento pelo grupo; e b) serviço de industrialização e produção de suco concentrado e de subprodutos.

iii) Fruta própria, oriunda de propriedades da indústria processadora.

De acordo com estimativas do Cepea/Esalq, o mercado spot, somado aos contratos mais curtos (de um ou dois anos), representam 35% da demanda, enquanto os acordos de longo prazo, que podem chegar a 15 anos, respondem por uma parcela semelhante. Os preços contratados variam bastante conforme o produtor em referência. Os 30% restantes costumam ser atendidos com a produção própria das indústrias, que ampliaram os investimentos na aquisição de fazendas nesta década e possuem dezenas de unidades espalhadas pelo Estado de São Paulo, maior produtor citrícola mundial.

Entre os efeitos da integração vertical, destacam-se: i) retardo na aquisição de laranja dos produtores independentes para obter condições comerciais mais favoráveis, como queda excessiva do preço; ii) enfraquecimento do poder de coesão dos produtores, pois negociam individualmente melhores condições para venda da fruta; e iii) assimetria de informações entre a indústria e os produtores. As indústrias passam a dominar a tecnologia de produção, de controle de pragas, a precisar custos praticados pelos produtores, o que aumenta a subordinação e dependência dos produtores.

Além disso, a excessiva verticalização pode: i) desestimular a entrada de novos produtores e enfraquecer os já existentes; ii) elevar as barreiras à entrada de novos concorrentes no mercado de SLCC; iii) provocar a discriminação nas condições de compra das frutas dos produtores não integrados verticalmente – nos períodos de safra, a indústria pode processar

a produção própria e atrasar o processamento daquela oriunda dos produtores independentes para obter preços abaixo do mercado; e iv) impedir que o mercado de laranja in natura se torne uma alternativa para o produtor, uma vez que a produção com pomares próprios pela indústria também alavanca seu poder nesse mercado.

Para a Associação Brasileira de Citricultores, Associtrus, o deslocamento dos produtores para o mercado interno de fruta in natura não é viável. Esse produto representa um mercado residual e não pode ser considerado como uma alternativa, pois aproximadamente 75% da produção é destinada à indústria; a demanda pela laranja in natura é relativamente estável; existem barreiras significativas à exportação da fruta; há laranjas próprias para o processamento e outras mais apropriadas para o consumo de mesa, o que resulta num deságio de 15%; e 90% dos pomares são constituídos por laranjas próprias para processamento.

A indústria, ao optar pela produção em pomares próprios, passa a arcar com novos custos que não seriam verificados caso utilizasse contratos de longo prazo com pequenos e médios produtores independentes. Comparativamente, a opção pela compra do insumo de produtores independentes é menos onerosa do que pela produção em pomares próprios. Os custos extras da produção integrada associam-se a custos de oportunidade, monitoramento, perda de incentivo e custos burocráticos. Além de custos diretos ou “agronômicos” diferenciados em relação aos produtores, como o monitoramento de fazendas grandes e distantes das unidades de processamento e maiores custos trabalhistas, as empresas arcam com “custos econômicos indiretos” que não seriam verificados no caso dos produtores independentes, exemplificados pelos custos de oportunidade e burocratização das atividades. Assim, a realização de contratos de longo prazo com produtores independentes, em um mercado de venda extremamente pulverizado, seria uma opção, do ponto de vista econômico, mais racional do que a produção de laranja pelas próprias processadoras.

Segundo a Associtrus, a integração vertical impõe elevados custos de monitoramento às empresas e os custos de produção da laranja por produtores independentes (não integrados à indústria) são inferiores aos verificados na indústria com pomares próprios. Ou seja, a produção parcial da fruta pela indústria processadora apresenta justificativas negociais, com vistas a aumentar o poder de barganha das empresas frente aos produtores, e estratégicas, ao elevar as barreiras à entrada de novas empresas não integradas, porém não proporciona justificativas econômicas razoáveis.

Tendo em vista a baixa relação entre valor e peso da laranja, o transporte a longa distância torna-se bastante oneroso, o que aproxima as produções industrial e agrícola. Em outras

palavras, agrega-se valor à cadeia citrícola quando as indústrias e os pomares estão geograficamente mais próximos. Em relação à infra-estrutura física, tanto as indústrias quanto os produtores realizam investimentos específicos a esse mercado. A especificidade temporal configura um incentivo à integração vertical, ao facilitar a coordenação das atividades de colheita e processamento.

Identificam-se elevadas barreiras à entrada de novos produtores, como a dificuldade de escoamento da produção para o mercado externo, já que apenas os cinco maiores produtores possuem terminais a granel de SLCC e os custos de instalação desse sistema de transporte são muito elevados.

A plantação e cultivo de citros trazem os riscos inerentes à mesma, o que é característico dos setores agrícolas que, além das oscilações usuais de mercado, estão também vulneráveis a outros fatores, como variações climáticas e surgimento de pragas e doenças. Isso constitui um desestímulo à integração vertical. Por outro lado, as empresas menos verticalizadas sofrem outro tipo de risco, uma vez que não possuem a garantia de suprimento da matéria-prima essencial para sua atividade de processamento.

A indústria processadora de laranja apresenta forte nível de concentração, o que é observado mundialmente. Em 2004, somente cinco empresas controlavam 80% do comércio mundial de suco de laranja. O aumento no preço da laranja, em decorrência da redução na safra paulista e na Flórida, segundo maior produtor mundial, não satisfizeram os citricultores, que alegam incorrer em custos acima do preço oferecido pela indústria.

Os produtores argumentam que o fortalecimento das indústrias se baseia na formação de um cartel. As quatro grandes empresas - Cutrale, Citrosuco, Coinbra-Frutesp e Citrovita - determinariam tanto o preço da fruta pago ao agricultor quanto o do suco vendido ao exterior. De acordo com Flávio Pinto Viegas, presidente da Associtrus, o suposto cartel iniciou em 1991, quando a Frutesp, que pertencia a uma cooperativa de produtores, foi vendida ao grupo francês Louis Dreyfus. A Frutesp pagava aos citricultores o mesmo valor dos concorrentes, adicionado a uma participação nos lucros, o que gerava certa competição entre as indústrias, e os preços variavam conforme a oferta e a demanda (LATTA, 2005). Em relação à organização da indústria, a antiga Associação Brasileira dos Exportadores de Cítricos, Abecitrus, foi desativada na virada de 2008 para 2009 e depois substituída pela Associação Nacional dos Fabricantes de Sucos Cítricos, CitrusBR, criada em junho de 2009 por Cutrale, Citrosuco, Citrovita, Louis Dreyfus, conhecidas como as "4 Cs", levando-se em conta que a LD entrou no ramo com a compra da Coinbra.

No ano 2000, as duas líderes do mercado, Cutrale e Citrosuco, detinham 55,4% do valor das exportações de SLCC. Esse percentual chegava a 73,6% quando consideradas as quatro maiores empresas do setor (Cutrale, Citrosuco, Cargill e Coinbra/Dreyfuss). Em 2007, após a venda da Cargill, em 2004, a Cutrale e a Citrosuco, juntas, detinham 70% do valor das exportações e 56% do mercado mundial. Os demais 30% dividiam-se entre Coinbra/Dreyfuss, Citrovita, que pertence ao Grupo Votorantin, e outras empresas de menor porte. Nessa época, as quatro maiores empresas juntas (Cutrale, Citrosuco, Citrovita e Coinbra/Dreyfuss) representavam 90% da capacidade de processamento e das exportações do suco de laranja concentrado (TOLEDO; CASTILLO, 2008).

Benzer Belgeler