• Sonuç bulunamadı

2. KAVRAMSAL ÇERÇEVE

2.1. Tarihi Çevre Koruma Süreci ile İlgili Kavramlar

2.1.2. Envanter/tespit ve tescil

Quando aparece na consciência, o símbolo se apresenta em imagens que devem ser decifradas. O símbolo é o mecanismo que transforma a energia psíquica. Qual texto em língua estrangeira, é preciso traduzi-lo e interpretá-lo para que possa fazer sentido em nosso idioma, ou seja, no nível da consciência. É o símbolo que opera a conexão entre consciente e inconsciente e tem a função de transformar a energia inconsciente em energia consciente. É produto da tensão energética entre estas duas polaridades. Mas, o símbolo é também o resultado de uma função.

Trata-se da função transcendente. A psique, segundo Jung, funciona em constante tensão entre consciente e inconsciente, entre tensão e auto-regulação da psique. Quanto mais energia é concentrada no consciente, mais oposição se cria, o que leva a psique a tentar equilibrar as duas energias. A função transcendente é precisamente quem opera esta passagem, ou seja, da energia inconsciente para a consciente através do símbolo. Em outras palavras, a função transcendente permite que símbolos do inconsciente sejam transportados para o consciente propiciando a possibilidade de compreensão, já que trazem à tona uma síntese consciente/inconsciente, permitindo a elaboração do pensar simbólico. Ela é resultado da dinâmica compensatória de trocas energéticas entre consciente e inconsciente. A função transcendente opera na psique como um todo, ou seja, consciente e inconscientemente. Já o pensar simbólico opera apenas no consciente. Isto significa que para entender um símbolo, utilizamos funções próprias do consciente, como análise, associação etc., mas é à função transcendente que devemos a apropriação do símbolo no nível consciente. Um processo de análise pode ser considerado como uma função transcendente, já que se propõe a harmonizar o conteúdo

inconsciente com o consciente. Isto ocorre através da decifração de símbolos, que, para Jung, representa a linguagem do inconsciente. “Da união (do

consciente e inconsciente) emergem novas situações ou estados de consciência. Designei por isso a união dos opostos (consciente e inconsciente) pelo termo “função transcendente”57. Não se pode esquecer que, para Jung, o conteúdo do inconsciente não é apenas o arcabouço de vivências conscientes reprimidas. É, antes de mais nada, um vasto repositório de conhecimentos ancestrais cuja “vida” opera de maneira autônoma, independente da consciência. É no constante diálogo, ou não, entre estas instancias (consciente, inconsciente individual e inconsciente coletivo) que a psique encontra seu caminho em direção à sua especificidade única, que Jung denominou individuação.

É preciso compreender que, para Jung, a psique representa uma totalidade dinâmica, embora ela contenha elementos diversos. Ou seja, a psique está sempre em movimento, oscilando continuamente entre unidade e multiplicidade. Ora se compõe ora se decompõe, sendo atravessada, a todo momento, por fluxos de ordem inconsciente, bem como consciente.

Quando Jung fala de psique, fala do “selbst” ou si mesmo ou ainda “self”. Com isto, refere-se à individualidade e generalidade do ser humano.

A concepção de ser humano em termos de individualidade está alicerçada na noção de um ser único, indivisível e complexo: uma totalidade eco- bio-psiquica-social, resultante de um potencial arquetípico que se atualiza num corpo biológico e num contexto histórico e social; um microcosmo dentro de um macrocosmo.58

Podemos dizer, então, que a psique individual seria o ponto de encontro entre a história universal e a pessoal, já que nela se atualizam, potencialmente, todas as possibilidades humanas, desde seus primórdios. É, portanto, neste

57 Jung, C.G. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Rio de Janeiro: Ed. Vozes, 1976, pg. 282 – parênteses

meus.

nível que se elaboram heranças atávicas que nos tomam de assalto em determinados momentos de vida e pedem passagem. Além disto, é também aí que às vezes irrompem paixões eliciadas por vivências individuais ou coletivas da atualidade. Mas, para que isto ocorra, ou seja, para sua manifestação, estes conteúdos necessariamente passarão pelo crivo da consciência, ao se expressarem em uma determinada psique.

No âmbito da cultura, ou macrocosmos, ou história universal, o conceito de tempo é variável, ou seja, as vivências subjetivas promovidas por arquétipos são, em essência, atemporais. Tanto podem remeter ao passado, como presente e, quiçá, futuro. Como aparecem através de símbolos, as “mensagens” devem ser traduzidas para que delas a psique possa extrair a essência, cujo objetivo é transformar energia psíquica inconsciente em consciente. Para que isto possa ocorrer, é preciso um ponto de confluência entre o mundo arquetípico, inconsciente, e a consciência. Trata-se do complexo.

Assim, resumindo, “o símbolo, forjado pela função transcendente, guarda significados que se insinuam na consciência, mas não são imediatamente revelados. Tais significados, contidos a priori no símbolo, são desvendados pela consciência no trabalho de elaboração simbólica. Dessa forma, não é a consciência que cria o significado, ele emerge da psique inconsciente para ser conhecido (ou não) pela consciência.”59

Estes conceitos são de extrema utilidade para se referir a processos de massa em diferentes culturas. O arquétipo da vingança pode constelar-se no inconsciente de uma cultura, ou seja, de um povo, nação, dependendo das circunstâncias. A onda de terrorismo do qual padece o mundo na contemporaneidade pode ser entendida, neste contexto, como exemplo do que pode ocorrer com as massas quando da ativação inconsciente do arquétipo da

59 Penna E.M.D. Op. cit. pg. 161.

vingança. Quando um Trickster que, sem ser reconhecido como tal, reina solto a seu bel prazer, constelado no inconsciente coletivo de uma cultura, acaba se validando, por exemplo, o terrorismo como forma de expressão máxima e única de conteúdos coletivos, inclusive através da prática da auto-imolação. Homens-bomba, ensandecidos e exaltados, saltam para a morte desprezando a vida como valor maior. Quando a política é regida por dogmas, perde-se o bom senso. Doença das mais perigosas e contagiantes, originária de uma pura atuação arquetípica, sem qualquer elaboração.

Complexo

Como já dissemos, a estrutura psíquica, segundo Jung, é dupla, contendo material tanto pessoal quanto coletivo. Os conteúdos do inconsciente pessoal compõem o que o autor chama de complexos inconscientes, ou seja, constelações energéticas que se formaram a partir de material reprimido ou até mesmo posto de lado pela consciência e que se agrupam em torno de um núcleo arquetípico. Os conteúdos do inconsciente coletivo, como já enfatizamos, são representados pelos arquétipos, ou seja, potencialidades inatas a serem atualizadas.

A conexão na psique entre os níveis pessoal e coletivo se dá através dos complexos, já que fazem a conexão entre o inconsciente coletivo, inconsciente pessoal e experiências vivenciais. Para Jung, os complexos são compostos, por assim dizer, de duas sub-estruturas.

Toda a experiência vivencial ativa um arquétipo correspondente e agrega energia associada ao tema do arquétipo e às experiências pessoais. Desta forma, o complexo é a estrutura básica da psique pessoal e o ponto de conexão entre o potencial arquetípico e as características psíquicas adquiridas na vida individual.60

Até aqui falamos a respeito de inconsciente coletivo, arquétipo, símbolo e complexo. Estes conceitos formam parte do alicerce do método de análise

60 Penna E.M.D. Op cit., pg. 136.

proposto por Jung. Na realidade, a grande inovação do método é a introdução do inconsciente coletivo à compreensão do funcionamento psíquico.

O aporte junguiano à psicologia, apesar de ter ocorrido no final do século XIX e início do século XX, carrega uma sutil correspondência com o mundo compreendido à luz do século XXI. Explico: a visão de mundo contemporânea contempla a subjetividade de maneira muito semelhante à proposta por Jung, ou seja, aberta, atravessada por fluxos61, ora compondo-se ora se decompondo, nunca rígida ou fixada. Já em 1916, quando o autor propõe as duas formas de pensamento, avança singularmente na psicologia de seu tempo, já que imagina uma abertura que só viria a ser conceituada filosoficamente muitos anos mais tarde. Este constante jogo entre energias nos diferentes níveis da psique nos permite enveredar para uma compreensão mais aberta e abrangente dos processos psíquicos, em consonância com a visão de mundo pós-moderna.62

No que tange a vingança, gostaria de avançar a idéia de que se trata de uma paixão com características universais, e de expressão tanto individual quanto coletiva. Em determinadas circunstâncias, o inconsciente individual ou coletivo de um povo pode se ver mobilizado. Diante da constelação do arquétipo da vingança, ou seja, deste Trickster, quando não elaborado, este passa a ser vivido em seu lado obscuro. É quando crianças saltam alegremente para a morte, envolvidos em cinturões explosivos com promessas de paraíso e virgens à sua espera. Qual bacantes, estes jovens abraçam a morte, cegos e surdos à sua interioridade, totalmente prisioneiros dos aspectos sombrios do Trickster Dioniso.63

61 O conceito de fluxos conforme proposto neste trabalho é entendido de acordo aos conceitos de Deleuze e

Guatarri. Resumidamente corresponde aos vetores de forças (político-religioso-econômico-ambientais) aos quais os corpos estão sujeitos em suas movimentações vitais.

62 A visão de mundo proposta pelos autores anteriormente citados. 63 Mais adiante falaremos de Dioniso como Trickster.

Resta, ainda, um conceito para compor o que é preciso para nossa investigação. Trata-se da idéia de sincronicidade.

Sincronicidade

Desde cedo Jung interessou-se por fenômenos que poderíamos chamar de intrigantes, ou seja, coincidências bizarras e todo tipo de eventos que chamavam sua atenção nas manifestações de seus pacientes no Hospital Bürghorzli de Zurique. Logo percebeu que havia determinadas coincidências que se conectavam por outra via que não a causalidade. Eram eventos que ocorriam simultaneamente, mas sem que um fator ou outro tivesse causado a coincidência. Jung percebe, então, a existência de fenômenos que se conectam, não através da causalidade, mas através do significado. A estes fenômenos denominou sincronicidade, evitando inclusive o termo sincronismo, já que desejava expressar ocorrências que vão além da coincidência e que, portanto, são bastante raras.

Para Jaffe, Jung imagina que estes fenômenos supõem um significado “transcendental independente da consciência (...) que subsiste por si mesmo”64. Em outras palavras, a psique funciona não apenas pelo princípio da causalidade, mas também teleologicamente. Isto significa que os conteúdos psíquicos não podem ser compreendidos apenas à base de suas causas. Toda energia psíquica apresenta um caráter prospectivo em sua manifestação.

A dinâmica energética que alterna fluxos de progressão, regressão e fluxos de autoregulação rumo ao desenvolvimento da personalidade integra o ponto de vista redutivo causal e o energético final, atribuindo ao inconsciente uma função teleológica e uma função histórica.65

A perspectiva arquetípica, portanto, permite ampliar a dimensão psíquica para além do pessoal. É quando ocorrem eventos sincrônicos que esta dimensão fica mais claramente exposta. Eventos que ocorrem

64 Jaffe, A. O mito do Significado na obra de C.G.Jung. In: Penna, op. cit. pg. 160. 65 Id. Ibid. pg. 159.

simultaneamente, sem relação de causalidade, podem abrir portas, e porque não, comportas, para a emergência de material inconsciente que, sempre e quando devidamente compreendido, permite à consciência tomar conhecimento de novas dimensões da realidade da psique.

Em outras palavras, quando ocorre uma sincronicidade, esta pode ser apreendida pela psique, permitindo uma ampliação da consciência de maneira numinosa, trazendo à luz novas possibilidades de compreensão para o ego e posterior integração ao ego.

Finalmente é possível entender que a vingança como paixão66, do ponto de vista da psicologia analítica, pode ser compreendida como habitante da psique coletiva e capaz de se manifestar em qualquer momento histórico sempre e quando energias psíquicas forem mobilizadas de maneira a constelar um arquétipo que aparece na consciência qual símbolo a ser compreendido e elaborado. Postulo, para fins deste trabalho, como arquétipo representante da vingança a figura do Trickster67, herói mítico, que pode aparecer travestido de vários personagens e ser convocado sempre que a psique se vê ameaçada de desintegração. O Trickster é uma das manifestações do arquétipo do herói. Este é sempre necessário quando o trabalho psíquico é de tal ordem que, se não elaborado, pode ameaçar a integridade do self. O arquétipo do herói funciona de certa maneira como o barqueiro, que auxilia a alma na travessia da noite escura. Todos temos acesso a nosso herói interno. Basta estar preparado para invocá-lo.

66 Ver cap. I.

Benzer Belgeler