O primeiro contato com a confraria se deu através de uma das fundadoras do grupo – M. Luiza, que relatou a história da confraria, bem como forneceu uma série de documentos e registros, tais como: estatuto da confraria, atas e fotos dos encontros, depoimentos das confreiras, registros de cursos, palestras, visitas a cantinas e viagens. Esses materiais, juntamente com entrevistas em profundidade com três participantes da confraria, serviram de base para as primeiras percepções e para o entrosamento da autora com as mulheres da confraria.
As três confreiras entrevistadas são participantes assíduas do grupo desde a sua fundação. A primeira entrevistada, M. Luiza, além de ser uma das fundadoras da confraria, já foi presidente e fez parte da diretoria mais de uma vez; ela também criou e participa de outra confraria na cidade, composta por homens e mulheres. Sandra, a segunda entrevistada, também já foi presidente e até hoje é envolvida com atividades da diretoria. A última entrevista foi conduzida com Maysa, que igualmente fez parte da presidência da confraria em 2005. Todas residem na cidade de Bento Gonçalves e são casadas, os maridos de M. Luiza e Sandra são enólogos.
Essa etapa de entrevistas foi realizada durante os meses de outubro e novembro de 2009, nas casas das confreiras. O tempo médio de duração de cada entrevista foi de aproximadamente duas horas. Os relatos foram coletados através de gravação e, posteriormente, foram transcritos para auxiliar a análise.
Conforme exposto, as confreiras entrevistadas inicialmente fazem parte do grupo desde a sua fundação, por isso, visando agregar mais informações para analisar o papel da confraria no processo de construção dos significados, outras entrevistas foram conduzidas com mulheres que possuam tempos de participação diferentes na confraria. Ao invés de
contar opiniões ou pessoas, a entrevista qualitativa busca explorar o espectro de opiniões e as diferentes representações sobre o assunto a ser analisado (BAUER; GASKELL, 2004).
Desta forma, mais nove entrevistas foram conduzidas com outras participantes da confraria. Essa etapa de entrevistas foi realizada durante os meses de novembro e dezembro de 2010, nas casas das confreiras ou no próprio encontro da confraria. O tempo médio de duração de cada entrevista foi de aproximadamente trinta minutos. Os relatos foram coletados através de gravação e, posteriormente, foram transcritos para auxiliar a análise.
A diferença no tempo de duração das três entrevistas realizadas inicialmente - as quais tiveram uma duração media de duas horas - com as nove entrevistas realizadas posteriormente – as quais duraram em media trinta minutos – se deve ao fato de que as primeiras entrevistas objetivaram uma aproximação com a confraria, bem como um conhecimento mais aprofundado sobre todo o seu funcionamento, características principais e dinâmica dos encontros. Quando a pesquisadora aplicou as nove entrevistas posteriores não foi necessário detalhar as praticas e características da confraria, visto que a mesma já possuía conhecimento prévio sobre o grupo.
Para a realização das entrevistas, um roteiro semi-estruturado foi elaborado, o mesmo pode ser visualizado no Apêndice A. O roteiro foi construído com base nos objetivos geral e específicos desta dissertação e, antes de sua aplicação, o mesmo foi validado por três professores do programa de Mestrado da PUCRS. No quadro 4, é apresentada a relação das entrevistadas e suas principais características: estado civil, profissão e tempo de participação na confraria
Entrevistadas Estado Civil Profissão Tempo de Confraria
1 - M. Luiza Casada Gerente Comercial 10 anos
2 - Sandra F. Casada Secretária 10 anos
3 - Maysa Casada Professora 10 anos
4 - Sonia Solteira Pediatra 10 anos
5 - Nica Casada Professora Aposentada 10 anos 6 - M. Alice Casada Empresária do ramo hoteleiro 10 anos
7 - Lizete Solteira Empresária 4 anos
8 - Sandra Z. Viúva Empresária 10 anos
9 - Carmem Casada Administradora 2 anos
10 - Magda Casada Funcionária pública 3 anos
11 - Aidana Casada Fonoaudióloga 6 meses
12 - Lui Casada Dona de casa 10 anos
Quadro 4 – Relação de entrevistadas
Fonte: elaborado pela autora com base na pesquisa de campo
Atualmente, a entrevista em profundidade é comumente realizada em pesquisas que abordam o tema de significados culturais dos bens de consumo (BEKIN, CARRIGAN, SZMIGIN, 2007; HIRSCHMAN, 2007; HOLIDAY; CAIRNIE, 2007; MONEY, 2007; THERKELSEN; GRAM, 2008; MOLOTCH; MCCLAIN, 2008; WATSON; SHOVE, 2008). Entretanto, esse método de coleta torna-se limitado na medida em que geralmente não é possível observar e vivenciar o fenômeno em suas condições reais de existência somente através de entrevistas. Muitas vezes os entrevistados nem mesmo verbalizam questões que podem ser de suma importância para investigação do pesquisador, o qual só consegue percebê-las através da observação de gestos, expressões e atitudes, ou ainda, convivendo e participando do fenômeno. Por essas razões, optou-se por incrementar a coleta através da realização de observação participante em alguns dos encontros organizados pela confraria.
A observação participante é uma técnica que permite “o contato direto do pesquisador com o fenômeno observado para obter informações sobre a realidade dos atores sociais em seus próprios contextos” (CRUZ NETO, 1996, p. 59). Os encontros da confraria feminina são realizados mensalmente, geralmente na primeira terça-feira de cada mês. A autora iniciou a observação participante em 2010, estando presente nos encontros de abril a dezembro do mesmo ano. Ao final, foram observados oito encontros, obtendo-se uma
repetição de fatos que possibilitou a apresentação de uma descrição densa do fenômeno analisado.
Data: Local: Tema do Encontro:
06/04/2010 Hotel Dall’Onder – Bento Gonçalves Influência do Clima na Safra 2010
04/05/2010 Cantina Dall Pizzol – Bento Gonçalves Tendências do Setor Vitivinícola e Safra 2010 01/06/2010 Hotel Dall’Onder – Bento Gonçalves Defeitos dos Aromas
03/08/2010 Hotel Dall’Onder – Bento Gonçalves Harmonização
31/08/2010 Restaurante Sapore & Piacere- Bento Gonçalves Harmonização de Vinhos com Fondue 05/10/2010 Restaurante Rosmarino – Bento Gonçalves Culinária e Vinhos Gregos
03/11/2010 Farina Park Hotel – Bento Gonçalves Degustação de Vinhos da Domno Brasil 30/12/2010 Escola de Gastronomia – UCS / ICF - Flores da Cunha
Funcionamento e cursos da Escola de
Gastronomia / Degustação de vinhos da região de Flores da Cunha.
Quadro 5 – Relação de encontros da confraria
Fonte: elaborado pela autora com base na pesquisa de campo
Para a realização da técnica de observação participante, além das perguntas do roteiro de entrevista, foram destacadas algumas questões que serviram como uma espécie de “norteadoras” para auxiliar na condução da prática:
Quais são os hábitos das mulheres em relação ao vinho? Quais são os motivos que as levam participar da confraria? Quais são os papéis que elas exercem no grupo?
Um caderno de anotações foi utilizado durante observação participante para registrar os principais fatos, acontecimentos e características associadas ao fenômeno estudado. O uso conjunto das entrevistas e da observação participante visa uma aproximação mais significativa do campo a ser estudado, que se caracteriza justamente pela complexidade dos fenômenos.