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Os estudos nos campos da história e da história da educação nos oferecerem importantes esclarecimentos acerca dos índices de alfabetização e letramento em sociedades passadas, bem como no que se refere às práticas de leitura e de escrita nesses contextos. Todavia, observamos, nessas investigações, a perpetuação da premissa de que a aquisição da escrita é condição fundamental para o desenvolvimento da capacidade de organização do pensamento em detrimento da oralidade.38 Em nossa investigação, não deixamos de confirmar o valor da aquisição da escrita para a realidade em estudo, tanto no que tange aos fenômenos sociais mais amplos, quanto à dinâmica da vida individual. No entanto, essa tese pretende executar outro movimento analítico: busca evidenciar o valor das práticas orais na constituição dos textos, entendendo-as como mecanismos que, quando acionados, possibilitaram os usos da escrita.

Nesse sentido, as investigações dedicadas à análise da alfabetização e do letramento em perspectiva histórica são-nos particularmente valiosas. Tomamos como referência as pesquisas de Justino Pereira de Magalhães (1994), de Rita Marquilhas (2000) e, pela

38 Tal premissa, em detrimento do pensamento não alfabetizado, enfatiza que apenas com a aquisição da escrita,

entendida enquanto capacidade de ler e escrever mesmo que de forma rudimentar, seria possível o desenvolvimento do raciocínio lógico-dedutivo, da capacidade de tecer elucubrações e conclusões. Essas habilidades somente poderiam existir a partir da aquisição de, pelo menos, níveis básicos de letramento (entendidos como competências, ainda que incipientes, de leitura e escrita).

proximidade do recorte espacial e temporal, a de Christianni Cardoso Morais (2009).39 A preocupação desses autores está centrada no entendimento das complexidade/nuances das práticas de letramento, bem como na apresentação dos índices de letramento em sociedades passadas.

As reflexões desenvolvidas por Justino Pereira de Magalhães (1994) em sua tese Ler e

escrever no mundo rural do Antigo Regime: um contributo para história da alfabetização e da escolarização em Portugal são bastante amplas e, no que concerne às

discussões teóricas, apresentam enorme densidade. Para demonstrar níveis de letramento na realidade rural de Portugal do aludido período, Magalhães criou uma escala de literacia,40 a qual se tornou referência em pesquisas acadêmicas. Além disso, preocupou-se em conceituar

escrita, discorrendo sobre as proposições de autores de diferentes áreas, além de refletir sobre

os significados da leitura e escrita no Portugal do Antigo Regime. Apresentou e discutiu, também, pressupostos conceituais e metodológicos para o estudo das problemáticas relacionadas à escrita.

Rita Marquilhas, em A Faculdade das Letras: leitura e escrita em Portugal do

século XVII, propõe-se “a interrogar as práticas e conceitos de leitura e escrita que eram

valorizados na sociedade portuguesa do Antigo Regime”. Para tanto, realiza estudo serial da alfabetização em Portugal, no século XVII, e das diferentes práticas de leitura e escrita desenvolvidas nesse contexto. O trabalho de Marquilhas “constitui uma abordagem interdisciplinar do escrito numa sociedade do Antigo Regime” e situa-se na área da filologia (MARQUILHAS, 2000, p. 9).

Já a pesquisa de Christianni Morais, Posse e usos da cultura escrita e difusão da

escola: de Portugal ao Ultramar; Vila e Termo de São João del-Rei, Minas Gerais (1750- 1850), tem como objetivo “analisar a posse, os usos e a disseminação da cultura escrita, bem

como a difusão da escola entre os anos de 1750 a 1850, em Portugal e no Brasil, especialmente na Vila e Termo de São João del-Rei” (p. 14), numa ótica que buscou analisar as duas realidades de maneira associada, tentando perceber as permanências e as rupturas nos processos que envolveram a escrita ao longo do período abordado. Podemos afirmar que esses pesquisadores apresentam um ponto em comum: a análise dos níveis ou graus de letramento

39 Importantes estudos sobre alfabetização e aquisição da escrita foram desenvolvidos, com diferenciadas

perspectivas metodológicas, para outros países, como o de Furet e Ozouf (1977), para França, e o de Antonio Viñao Frago (1999.), para Espanha.

de parcelas da população de determinada região. Grupos esses, que não necessariamente, passaram pela instrução formal.

Magalhães (1994) intenciona compreender os níveis de letramento dos sujeitos, considerando as características específicas desses agentes sociais, como ocupação socioprofissional, e os condicionantes do contexto no processo de desenvolvimento desses níveis, o que lhe possibilitou a construção de uma escala de literacia, tendo a assinatura como variável multifacetada, permitindo a apuração de inferências a respeito dos níveis de alfabetização. Caracteriza como indivíduos ledores e não necessariamente leitores aqueles capazes de decodificarem uma mensagem escrita, considerando-se, assim, as múltiplas formas de se ler um texto e os variáveis níveis de literacia. O trabalho por ele levado a efeito vincula- se à tendência mais recente existente no campo da história da educação cujo objetivo fundamental é compreender as relações estabelecidas entre linguagem e pensamento. Sua pesquisa abre caminho para visão mais abrangente dos processos de alfabetização e de desenvolvimento de diferentes práticas relacionadas à escrita no Antigo Regime e permite compreensão mais verticalizada e globalizante acerca das práticas educativas ocorridas no Império Português da Época Moderna.

Já Rita Marquilhas (2000, p. 10) produz “uma abordagem antropológica dos materiais que testemunham os usos institucionais e sociais da escrita” os quais muitas vezes não correspondem exatamente ao desempenho signatário dos sujeitos. Concentra-se, ademais, numa “avaliação histórico-cultural, dos documentos relativos à produção, circulação e consumo de impressos […]”. Em seu trabalho, faz um balanço dos estudos sobre alfabetização, de forma geral, e da alfabetização em Portugal, de maneira mais detida. Com base na interpretação desses estudos referenciais, expande os conhecimentos sobre a temática ao afirmar e justificar a importância da utilização de fontes que permitem ir além da análise das assinaturas como principal indício de letramento em sociedades passadas, mesmo que conjugadas com outros fatores, como a ocupação socioprofissional (o que foi realizado por Justino Magalhães). Ainda assim, reafirma a importância das mesmas na análise ou composição dos índices de letramento41.

41

Em sua investigação, os depoimentos contidos nos denominados cadernos do promotor do acervo documental do Santo Ofício da Inquisição portuguesa consistem em fontes privilegiadas, uma vez que “autógrafas”, pois, como dito, Marquilhas trabalha com fontes que extrapolam somente a assinatura com indício de graus de alfabetização. Trata-se de importante e minuciosa pesquisa sobre a alfabetização em perspectiva histórica, situada no campo da linguística. Cabe destacar que o trabalho de Magalhães, porém, se concentra, detidamente, na análise dos índices de literacia e em discussão teórica mais verticalizada acerca do conceito e dos sentidos da escrita enquanto problemática histórica, sociológica e antropológica. Concentra-se, igualmente, na análise

Os três pesquisadores supracitados preocupam-se, de uma forma ou de outra, em abordar, além da posse/uso da escrita e dos índices de alfabetização e letramento das populações de regiões específicas, os meios ou modos de circulação e disseminação do escrito. Magalhães detém-se na zona rural; Marquilhas avalia o Portugal seiscentista, enquanto o recorte geográfico de Morais privilegia a região de São João del-Rei. Portanto, a preocupação com as formas de disseminação da escrita caracteriza, também, as pesquisas dos referidos autores.

Apesar de apresentarem objetivos específicos e metodologias diferenciadas, caracteriza esses estudiosos o fato de não se prenderem à atribuição de significado unívoco às relações estabelecidas pelos sujeitos com a escrita. Ao retirarem o letramento da esfera da escolarização, focam nas sociedades do passado com abordagem capaz de identificar quem ou

o quê se escrevia e se lia e, ainda, como se escrevia e se lia.

Cumpre ressaltar que as investigações estão fundamentalmente embasadas no traço autográfico e, por decorrência, fixadas nas análises das assinaturas e/ou apontam para a existência de documentos particulares (escritos de próprio punho) para entenderem uma

escrita privada e para a existência de documentos institucionais, escritos em sua totalidade ou

em parte pelos sujeitos ou portadores de suas assinaturas. Investigam, igualmente, os processos de escolarização como mecanismo da difusão da escrita, a posse, a comercialização e a circulação dos impressos, aproximando-se e mesclando-se aos estudos desenvolvidos na linha de pesquisa denominada “História do livro e da leitura”.

No campo da história da educação, o trabalho de Magalhães ilustra muito bem a ideia de que a aquisição da escrita é condição fundamental para o desenvolvimento da capacidade de organização do pensamento, ao afirmar que “a escrita é técnica, meio e fim”, que a racionalidade se opera “quando linguagem e técnica se encontram” (MAGALHÃES, 1994, p. 107). Para o autor, a partir da escrita, torna-se possível reportar-se ao passado, representá-lo, narrá-lo e corrigi-lo, residindo aí uma das principais funções sociais da escrita.

Não obstante as análises de Magalhães comungarem da ideia da escrita enquanto caminho privilegiado de ordenação do pensamento, sua pesquisa avança ao questionar acerca do impacto dos sistemas organizados de escrita na vida dos “cidadãos comuns”. Se, por um lado, a escrita configura-se enquanto instrumento dos centros de poder, por outro, poderíamos

das vinculações entre oral e escrito, dos problemas, métodos e fontes para a “história da alfabetização”, das relações existentes entre pensamento e linguagem e dos fenômenos da alfabetização e da escolarização no mundo rural português.

indagar: e quanto aos sujeitos comuns? Como a escrita foi utilizada para que os indivíduos operacionalizassem, por exemplo, o direito de resposta às diferentes instituições sociais? Como meio de protesto e de reivindicação? Por ser a escrita, segundo o autor, (re)ordenadora do pensamento individual, a elaboração dos textos escritos, contratos, testamentos, enfim, documentos de toda ordem, possibilitaria o “reexame por parte de cada um”, a legitimação e a fixação de uma memória que intervém na vida da coletividade. Do exposto, infere-se que os sujeitos relacionam-se com a administração letrada, utilizando-se de formas específicas para o encaminhamento de questões de diferente natureza.

Especialmente sobre os processos de alfabetização, esse autor chama a atenção para o movimento de sobrevalorização da “ideia de mudança e de transformação, associada aos processos de alfabetização”, que tende a orientar as expectativas dos historiadores. Nas investigações, a ênfase seria colocada na busca pelas mudanças acarretadas pelo fenômeno alfabetizador em detrimento das permanências. Avalia, ainda, mais um fator contraditório da história da alfabetização, que é gerado pela “permanência e constante interação da dualidade comunicacional: oralidade e escrita. Malgrado as profundas implicações da escrita no seio das sociedades […] jamais se pode estabelecer uma ruptura definitiva entre o oral e o escrito.” (MAGALHÃES, 2004, p. 75).

Nessa linha, em diálogo com a obra de Goody, na qual se enfatiza o domínio da escrita por grupos privilegiados, de igual maneira, Marquilhas destaca o fato de a escrita, a despeito de monopolizada por certos grupos, ser paralelamente utilizada por outros estratos sociais no cumprimento de distintas funções. Ressalta sua importância como registro e como elemento de poder, e seu papel nas esferas administrativas (civil, religiosa, comercial), baseando-se, para tanto, nas considerações de Goody (1977), Furet e Ozouf (1977) e Ong (1992). Demonstra que se, por um lado, a escrita era manipulada pelas instituições (no caso específico de seu estudo, a instituição do Santo Ofício da Inquisição), com vistas ao controle social, por outro, ocupava lugar na sociedade, apresentando algum “grau de familiaridade” com os indivíduos. Ou seja, havia o uso institucional (coletivo) e o uso pessoal (singular) da escrita.

Essa ponderação nos interessa em particular, pois nos inspira a pensar a escrita no âmbito privado, utilizada, muitas vezes, por quem não sabia ler e/ou escrever (ou não a dominava de acordo com a norma culta). Dentro do que Marquilhas denomina uso singular

da escrita, podemos refletir sobre duas tipologias: uma escrita de caráter privado, pessoal

(como cartas e diários), e uma escrita, mesmo singular – posto que relativa a um sujeito – não completamente individual em sua formulação, considerando-se obedecer a padrões

institucionais e ser elaborada por mãos conjuntas (como os testamentos). Em nosso entendimento, são duas modalidades de escrita relacionadas a um sujeito, mas diferentes em sua natureza.

Em sua tese, Marquilhas, ademais, discute as diversas motivações existentes para a escrita (como no caso da redação de cartas usadas à guisa de provas incriminatórias nos processos inquisitoriais) na esfera da vida privada. Essa autora, ao apresentar como intenção entender o nível ou grau de envolvimento dos sujeitos com a escrita, legou-nos contribuições fundamentais para o entendimento das ligações estabelecidas pelos indivíduos com a escrita, sendo tais vinculações abordadas como práticas sociais. Para tanto, avaliou, em um primeiro momento, a manipulação da escrita pelas instituições, para depois averiguar a orientação que cada pessoa poderia conferir a mesma (MARQUILHAS, 2000, p. 32). Nesse sentido, percebeu os textos como “testemunhos da vida social da época e, por arrastamento, dos usos da escrita (e de reflexões sobre ela) em alguns dos seus episódios. Trata-se de episódios de relações privadas e de relações com o poder […].” (MARQUILHAS, 2000, p. 33).

Nesse ponto nos aproximamos de suas premissas, haja vista tentarmos compreender os usos da escrita processados com base em aspectos concernentes à vida privada e às relações sociais.

Como explicamos, os usos da escrita podem acontecer constantemente na vida do indivíduo ou em momentos pontuais, remetendo-nos ao conceito de eventos de letramento, os quais fazem parte de espectro mais amplo, ou seja, das práticas de letramento que, por seu turno, são entendidas como práticas sociais. A ocorrência de tais eventos responde às propulsões internas e externas. Motivações de ordem particular ou de ordem social são responsáveis pelo recurso à escrita, sendo que, na maior parte dos casos, excetuando-se talvez a escrita de diários, diríamos que os estímulos pessoais estão relacionados a fatores de ordem social. Bom exemplo é o caso da escrita epistolar, historicamente estimulada pela necessidade de se vencer as distâncias.

Dessa forma, as análises desenvolvidas por Marquilhas levam-nos a refletir acerca dos estímulos se não para a produção escrita de maneira corrente, para a ocorrência de seus usos mesmo que eventualmente, muito embora não possamos descrever aspectos detalhados desses

eventos de letramento. Isto é, passamos a refletir sobre as razões ou causas propiciadoras, na

sociedade colonial, dos atos de escrita, levando aos usos e/ou à produção escrita. Nesse contexto, dada a importância da ação de testar, tanto no que se referia à gerência de bens, quanto ao ritual de preparação para a morte, é correto afirmar que as crenças, os hábitos, bem

como o funcionamento da Justiça fizeram com os sujeitos letrados e iletrados lançassem mão da escrita. Despreza-se, neste caso, é claro, os níveis mais elementares de escrita que se dariam, por exemplo, na produção das missivas.

Benzer Belgeler