Os relatórios científicos dos alunos da primeira série do Ensino Médio têm como foco espacial a escola (diferente dos alunos matriculados na segunda e terceira séries que têm como espaço de investigação a comunidade e o trabalho, respectivamente). Na abrangência dessa circunscrição, cada aluno opta por um tema que lhe chame a atenção ou que lhe instigue algum questionamento, estruturando, então, grupos que possuem a mesma linha de interesse temático. Os macrocampos direcionados para o primeiro ano do Ensino Médio são Saúdes do Meio Ambiente e Saúde do Aluno, envolvendo temas, como: resíduos sólidos da escola (produção, coleta seletiva, reciclagem, reaproveitamento); água/saneamento na escola (disponibilidade, tratamento, desperdício e uso); poluição (do ar, sonora, visual etc.); prevenção e doenças mais comuns; sexualidade e afetividade; e saúde comportamental (saúde da mente, evasão escolar, saúde na relação entre as pessoas; bullying etc.). Os trinta e seis Referenciais Teóricos, analisados nesse estudo, carregam como eixos temáticos um desses pontos a serem investigados pelos grupos de pesquisa do NTPPS com o rigor que a pesquisa científica requer, levando em consideração o nível da etapa escolar a que os alunos pertencem e sendo orientados por professores especializados.
Nossa pesquisa foi realizada levando em consideração três etapas distintas. A primeira foi a coleta dos relatórios de investigação científica na escola-sede da pesquisa. Nesse momento, realizamos o sorteio das equipes de pesquisa contempladas com a análise de suas produções. Em seguida, destacamos as seções Referenciais Teóricos. A segunda etapa se deteve no processo de esmiuçar o corpus. Através de tabulação dos dados, as manifestações avaliativas de monoglossia e heteroglossia foram estruturadas separadamente de acordo com os doze mecanismos categóricos oferecidos por Martin e White (2005) para o subsistema de
Engajamento. Por último, os dados foram analisados e interpretados, a fim de identificarmos, por meio das escolhas dialógicas adotadas pelos produtores textuais, o nível de engajamento intersubjetivo assumido na construção argumentativa dos posicionamentos. Foram levados em consideração os movimentos dialógicos estabelecidos entre a voz autoral e as possíveis vozes externas que poderiam pairar sobre os textos dos alunos. Ao fim da análise, construímos um
quadro sistematizado que mostre os indícios de quão hábil cientificamente o aluno do Ensino Médio demonstra estar após passar pelas práticas pedagógicas do NTPPS.
Levaremos em consideração o esquema da figura 8 que dá um panorama do subsistema
Engajamento proposto por Martin e White (2005), que revela os diferentes níveis de responsabilização que o falante assume ao lançar olhares avaliativos sobre algum referente. Pelas reflexões dessa proposta, percebemos por esse subsistema que quanto maior o grau de
contração dialógica, maior será o nível de responsabilidade assumido no texto. Em contrapartida, quanto maior o grau de expansão dialógica, maior será o distanciamento do autor com aquilo que é dito, diminuindo os níveis de comprometimento e, consequentemente, havendo a transferência da responsabilização a outrem. Cada subcategoria presente na figura 1 possui marcas linguísticas próprias que o caracterizam como tal e fornece um aparato de análise textual quanto a sua manifestação avaliativa de referência. Assim, verificou-se o grau de ocorrência desses processos linguísticos através das marcas textuais evidenciadas no relatório de pesquisa, tendo em vista as relações de variáveis adotadas nesse estudo. Examinamos os reflexos lançados sobre o estado de letramento científico em que se encontra o aluno de NTPPS ao passar um ano inserido em suas atividades. Todos os detalhes desse esquema foram explanados e exemplificados no capítulo destinado as nossas reflexões teóricas. Por agora, apresentamos o esquema estrutural do subsistema de Engajemento. (MARTIN; WHITE, 2005).
Figura 9: Subsistema Engajamento do Sistema da Avaliatividade
Surge, então, uma questão a ser respondida: quais os critérios necessários para delinear um perfil de um indivíduo cientificamente letrado? Como a literatura não apresenta critérios fixos de análise com a finalidade de categorizar o estado letrado de uma determinada população e, como afirma Soares (1998), o modo dessa avaliação vai depender da função e dos fins específicos de cada investigação, estabelecemos os critérios que demonstram o nível de competência adequada de letramento científico para o aluno do Ensino Médio com base nas reflexões sobre avaliatividade. Para isso, consideramos as contribuições teóricas oferecidas por Miller (1983), Soares (1998), Osborne (2002), Martin e White (2005) e Santos (2007). A tabela abaixo demonstra a perspectiva das nossas reflexões sobre a adequabilidade do estado de
letramento científico almejada para o aluno de NTPPS.
Tabela 2 – Descrição dos diferentes estados de LC do aluno do Ensino Médio, baseada nos estudos sobre Avaliatividade e Letramento
Nível 01 Inadequado
Embasa suas reflexões somente no senso comum adquirido pelo seu conhecimento de mundo devido a experienciações físico-sensoriais. Nesse sentido, o aluno em um estado inadequado de letramento científico, não consegue ultrapassar essas barreiras por não reconhecer outras vozes que possam dar suporte à sua argumentação, tampouco avaliar fatos por meio de evidências ou geração de hipóteses, tomando os gêneros do discurso científico como recursos estranhos e pouco acessíveis no auxílio de suas atividades.
Nível 02 Insuficiente
Demonstra embasar suas colocações em asserções positivas presentes na voz de terceiros. Isso é articulado por meio do constante emprego de afastamento autoral no qual se percebe pouco nuance de engajamento discursivo (recursos mais básicos do processo de expansão dialógica). É notável a constante utilização dos elementos linguísticos que transferem para o leitor a responsabilidade pela negociação dos significados. As
reflexões se limitam sobre o que já foi produzido como “verdades”, não
havendo o exercício de questionamentos sobre as vozes pautadas, que são articuladas passivamente. Além disso, o aluno acopla um conjunto de posicionamentos alheios que não demandam maiores esforços para sua compreensão, utilizando frequentes estratégias de distanciamento do engajamento que o falar científico requer.
Nível 03 Intermediário
Demonstra possuir autonomia de algumas práticas de letramento cientifico
requeridas, porém ainda carentes de argumentação para atingir um nível da adequação almejada. O aluno, além de possuir um médio grau de conhecimento dos conceitos científicos, demonstra reconhecer algumas vozes do discurso que norteiam um dado campo, usando, principalmente, recursos de expansão dialógica, mas com uma maior complexidade, quando comparado ao nível anterior. Apesar da existência de estratégias de distanciamento do engajamento autoral, aqui, já é perceptível algo que incrementa a argumentação pela presença de vozes que formulam hipóteses, interpretam evidências, abrem espaço para outras interpretações ou consideram novas possibilidades. Entretanto, ainda não é verificada a
presença constante de pronunciamento autoral que articula a relação entre as vozes acionadas no texto.
Nível 04 Adequado
Compreende a formulação de conceitos científicos, bem como consegue refinar uma reflexão crítica sobre a aplicabilidade da ciência no contexto sócio-histórico em que vive. Envolve o reconhecimento de questões científicas, a explicação de fenômenos, a capacidade de manuseio de evidências e estudos já realizados que sustentem, fortifiquem seus argumentos científicos. Verifica-se, nesse estágio, a entrada de uma postura pronunciada positivamente pela voz autoral. O aluno demonstra a abertura de possibilidades do diálogo, mas posiciona-se, de forma positiva, com relação às vozes presentes e potencializadas em seu texto, arquitetando seus argumentos com acionamentos de vozes que endossam suas colocações e
corroboram pelo seu “sim”. São usadas estratégias argumentativas que
envolvem, principalmente, processos de Contração Dialógica, o que não anula o uso expansivo do diálogo. Agora, são nitidamente percebidas as decisões que o aluno toma e por que são defendidas suas escolhas.
Nível 05 Sofisticado
Compreende a formulação de conceitos científicos e consegue refinar uma reflexão crítica sobre a aplicabilidade da ciência no contexto sócio- histórico. Envolve o reconhecimento de questões científicas, a explicação de fenômenos, a capacidade de manuseio de evidências, além do desenvolvimento da percepção do uso da linguagem para estabelecer relações, organizar conteúdos e reconhecer as características do texto científico como instrumento de trabalho. Nesse estágio, o aluno demonstra ter autonomia sobre as possibilidades textuais, reconhecendo as vozes que permeiam o texto, avaliando-as e, inclusive, confrontando-as com outros posicionamentos. Ao articular através de um jogo linguístico de expansão
e contração dialógicas, o aluno evidencia a capacidade de analisar criticamente diferentes olhares, fomentando sua responsabilização argumentativa dentro das suas reflexões científicas. Aqui, além de
reconhecidas as vozes do “sim”, são identificadas as vozes do “não” e da “exceção”, a fim de se realizar movimentos textuais que refutam,
questionam e, consequentemente, constroem modelos estratégicos de suplementação da voz autoral.
Fonte: Tabela elaborada pelo autor
Nesse contexto, nossas reflexões observam o estado de letramento científico dos alunos através das manifestações avaliativas de Engajamento dentro da seção Referencial Teórico
presente em seu relatório de pesquisa, considerando o grau de comprometimento assumido em seu texto e o poder de articulação das múltiplas vozes que permeiam a construção de sua argumentação científica. Vale reiterar nossa hipótese de que o aluno de NTPPS, ao apresentar domínio no poder de articulação dos recursos linguísticos que envolvam o processo de
contração e expansão dialógica, exercendo movimentos textuais com vozes externas à sua, demonstraria um maior poder de articulação científica em seu relatório de pesquisa, refletindo um alcance adequado do seu estado de letramento científico. Isso ocorreria pelo fato de que o aluno de NTPPS, para demonstrar bons índices de letramento científico, deveria conseguir
perceber o caráter inconstante e provisório das ciências, exercendo avaliações com base em opiniões controvertidas de outras vozes ou pelas suas evidências experienciais, o que não significa dizer que o aluno tenha que utilizar múltiplas vezes as ferramentas linguísticas de
contração dialógica. Entretanto, como nos mostra Santos (2007), tratar as vozes das ciências já produzidas como uma visão puramente verdadeira e acabada (atitudes influenciáveis pelo uso único do processo de expansão dialógica) dificulta o entendimento das possibilidades textuais para enriquecer os posicionamentos necessários ao se defender pontos de vista.