• Sonuç bulunamadı

A coincidência na descrição da linguagem, personagens e tema em B&S nos remeteram ao romance clássico do Realismo francês Madame Bovary, do escritor Gustave Flaubert.

No prefácio que escreveu para o romance Madame Bovary, Otto Maria Carpeaux lembra que muitos críticos acreditam que o escritor Gustave Flaubert compôs a história de Emma Bovary a partir da observação de pessoas e de eventos historicamente existentes, ocorridos em aldeias próximas ao local em que cresceu. De acordo com o crítico (cf. 2011, p. 11), essa tentativa de se procurar um modelo para o romance de Flaubert se deve à clareza e objetividade dessa narrativa que a torna tão parecida com a realidade. Assim, em consonância com o preceito do Realismo, em relação ao qual a ficção é configurada como reflexo da realidade histórica, Flaubert teria também tomado seu meio como referência para sua arte ou teria feito que assim se acreditasse. De acordo com o crítico:

Em vida de Flaubert já correram boatos em Ruão: Emma Bovary teria sido esta ou aquela senhora, nesta ou naquela das pequenas aldeias ou cidadezinhas em torno de Ruão. Mas, só depois da morte do escritor, publicou o jornalista Georges Duboch, no Journal de Rouen, em novembro de 1890, a história toda. Yonville, a aldeia na qual se passa o enredo do romance, podia ser identificada como Ry, aldeia normanda que Flaubert conhecia bem; entre seus papéis encontrou-se mesmo um mapa de Ry, desenhado por ele próprio. Em Ry viveu, por volta de 1840, a bela e sonhadora Delphine Conturier, que casou com o estúpido e vulgar médico Delamare, assim como no romance a bela e sonhadora Emma casa com o estúpido e vulgar médico Charles Bovary. Delphine Delamare manteve relações eróticas com o fazendeiro Campion, muito parecido com Rodolphe, o primeiro amante de Emma. Em Ry, viveu na mesma época o farmacêutico Jouenne, quase irmão gêmeo do farmacêutico Homais no romance. Enfim, Delphine encontrou em 1848 o mesmo fim de Emma: o suicídio. Tudo exato. As explicações de Duboch foram geralmente aceitas. Em Ry, desenvolveu-se verdadeira indústria de turismo: os lugares em que se teria passado a vida de Emma Bovary foram mostrados mediante ingresso pago. Venderam-se fotografias apócrifas de Delphine Delamare. Pois Yonville não é somente parecida com Ry, mas com dezenas de outras aldeias normandas; e as cenas mais importantes e mais características da vida de Emma, antes do suicídio, não foram vividas por Delphine. Teria Flaubert traído o método por ele próprio escolhido, ao ponto de inventá-lo livremente? (CARPEAUX

apud FLAUBERT, 2011, p. 9-10, grifos nossos).

Essa pesquisa apresentada por Otto Maria Carpeaux é relevante para nosso estudo na medida em que se pode constatar que Rubem Fonseca denomina dois personagens importantes na trama de sua narrativa com os mesmos nomes das pessoas que teriam sido fontes de inspiração para o romance de Gustave Flaubert. Refiro-me ao casal Delamare. Consideramos, portanto, que se trata de um índice que indica uma conexão importante entre este romance e a narrativa B&S. Somando-se a esse fato, temos que o narrador do romance B&S, Gustavo Flávio, se confessa um grande admirador da obra de Gustave Flaubert, como pode ser evidenciado através do pseudônimo escolhido ao se tornar escritor. Além disso, observamos também que, assim como Gustave Flaubert utiliza-se de uma referência histórica como inspiração de seu romance, Gustavo Flávio, o narrador autodiegético de B&S, também assim o faz. Ele toma os acontecimentos de sua juventude como referência para a escrita de seu romance. Diferente, contudo, do resultado estético alcançado por Gustave Flaubert, Gustavo Flávio – embora rememore mentalmente os acontecimentos de sua “vida” e, por vezes, os expresse de forma oral (quando conta para Minolta) – não consegue efetivamente registrá-los sob forma escrita, no âmbito do universo diegético de B&S. Sob essa perspectiva, anula-se então a participação do narrador na escrita do romance e corporifica-se a presença de outro escritor como o responsável pelo registro do romance. Identificamos aí, a ocorrência de

um desmascaramento do processo de criação ficcional ou uma explicitação do mecanismo de criação literária. A participação do narrador – elemento tradicionalmente responsável pela condução e organização da narrativa, e, por extensão, aquele que no imaginário aparenta ser o responsável pela escrita da narrativa – é relativizada e a figura do escritor assume uma dimensão maior no universo desse romance. É como se o escritor precisasse assumir a função não concluída pelo narrador.

De acordo com Adorno (2003, p. 62), o narrador do romance realista mascara o subjetivismo ao promover, através da narrativa onisciente, a falsa impressão de que a narrativa é contada por ela mesma, sem que o narrador interfira, com suas considerações, nesse processo. Não acreditamos, contudo, que esse seja o caso do narrador de Madame Bovary. Embora discreto, ele estabelece considerações ideológicas através do discurso indireto e também através do discurso indireto livre. Ainda, de acordo com Adorno (2003, p. 63), essa característica não está mais presente no romance do século XX, ou pelo menos, naqueles que se utilizam do fluxo de consciência, porque a presença do narrador e sua efetiva participação e intervenção na narrativa é claramente identificada, destruindo, assim, o preceito da objetividade épica. No caso de B&S, podemos observar que esse caráter subjetivo do narrador é facilmente percebido, conquanto seja uma narração em primeira pessoa na qual o narrador se propõe a contar e a escrever sua própria história. Nesse sentido, há dois níveis a se considerar: a narração e o registro. A narração é efetivada e a escrita não (pelo menos não pelo narrador Gustavo Flávio). Numa narração que objetiva problematizar a composição de um romance, compreende-se o sentido de ampliar formalmente a importância do escritor nessa ação, relativizando a importância do narrador.

A fim de constituir um diálogo com o romance Madame Bovary, ou com a própria estética Realista, Rubem Fonseca configura um narrador que, aliando-se aos procedimentos metodológicos do Realismo, decide escrever sobre os acontecimentos vivenciados em seu próprio meio. Avaliamos que esse expediente funciona, na narrativa B&S, como mais um índice da aproximação entre as narrativas. Assim, a própria história de Gustavo Flávio, ou melhor, a história de Ivan Canabrava, contada por Gustavo Flávio, constitui o mote de seu romance não-concluído, também denominado B&S. Tanto para o narrador Gustavo Flávio como para o narrador de Madame Bovary, esses acontecimentos são historicamente existentes, constituindo, portanto, referências externas à narrativa que estão contando. Sob a perspectiva do leitor, no entanto, a narrativa de Gustavo Flávio tem um objeto dinâmico interno à própria narrativa, constituindo uma posição de autorreferenciamento, já que os fatos

da juventude de Gustavo Flávio são referentes internos à narrativa na qual se baseia a história que o narrador objetiva contar.

Assim, diferente de uma referência externa à narrativa, como no romance Madame Bovary, tem-se, no romance B&S, de Rubem Fonseca, uma autorreferência porque o mote encontra-se na própria diegese, numa realidade interna à própria narrativa. Numa perspectiva de autorreflexividade, outros personagens inseridos na trama, aqueles presentes no capítulo O Refúgio do Pico do Gavião, por exemplo, duplicam esse recurso, ao narrarem histórias que também correspondem a rememorações dos seus respectivos passados. Assim, tanto o narrador de Madame Bovary, quanto o narrador de B&S, narram histórias em que participaram, ou como observador, como no primeiro romance, ou como personagem, no caso do segundo romance, conferindo, assim, mais uma conexão entre essas obras.

Sob essa perspectiva, observamos que ao recontextualizar ou transcontextualizar o romance Madame Bovary em um novo romance, Rubem Fonseca problematiza, por via da paródia, o status ontológico do próprio discurso romanesco. A ficção reflete a realidade ou a ficção constrói uma realidade? O discurso ficcional possui independência em relação aos outros discursos? De que maneira o discurso literário relaciona-se com o histórico? Notamos que algumas dessas questões são problematizadas no romance B&S a partir da inserção de temas e personagens da narrativa Madame Bovary.

Através dos índices já citados, observamos que temos outra narrativa atuando no campo de constituição sígnica do romance B&S: o romance Madame Bovary. Esse romance, de 1856, figura como marco do Realismo francês e seu autor, hoje considerado um dos grandes romancistas da literatura ocidental, foi processado, no período de sua publicação, acusado de “publicação de escritos obscenos” (cf. Prefácio, CARPEAUX apud FLAUBERT, 2011, p. 8). Madame Bovary é uma narrativa que aborda a questão do adultério feminino. De acordo com Carpeaux, embora o título indique que Emma Bovary é a heroína do romance, “o verdadeiro personagem é a estupidez humana”. Emma Bovary é uma mulher romântica, assídua leitora de romances açucarados que “lhe contam sobre a felicidade pelo amor” (cf. CARPEAUX apud FLAUBERT, 2011, p. 12). Emma casa-se com o médico Charles Bovary, um homem medíocre e sem ambição, com quem logo se desencanta. Torna-se amante de Rodolphe, um aristocrata decadente e depois de León, um estudante de direito. Afundada em dívidas, Emma Bovary se suicida tomando arsênico. Essa trama nos interessa na medida em que se aproxima de uma das tramas apresentadas em B&S, a relação extraconjugal de Delfina Delamare. Assim, avaliamos que Rubem Fonseca reapresenta a trama do romance Madame Bovary por via paródica. No entanto, o tipo de paródia a que nos referimos é aquela

desenvolvida preponderantemente nas narrativas do século XX. De acordo com Linda Hutcheon,

a paródia é, pois, na sua irônica “transcontextualização” e inversão, repetição com diferença. Está implícita uma distanciação crítica entre o texto em fundo a ser parodiado e a nova obra que incorpora, distância geralmente assinalada pela ironia. Mas esta ironia tanto pode ser apenas bem-humorada, como pode ser depreciativa; tanto pode ser criticamente construtiva, como pode ser destrutiva. O prazer da ironia da paródia não provém do humor em particular, mas do grau do empenhamento do leitor no “vai-vém” intertextual [...] (HUTCHEON, 1985, p. 48).

É importante enfatizar, a partir da citação do texto de Linda Hutcheon, que a transcontextualização é um fenômeno que recoloca o hipotexto em uma nova configuração estética. Diferentes ideologias, cultura, linguagem, espaço e tempo vão constituir o novo contexto no qual a narrativa-fonte deve acomodar-se.

No nível de caracterização das personagens femininas e também no nível ideológico, que respalda o relacionamento amoroso de Gustavo Flávio e Delfina Delamare (B&S) e o de Emma Bovary e Rodolphe (Madame Bovary) observamos vários níveis de equivalência: ambas as personagens femininas são bonitas, sedutoras, possuem cabelos negros e longos, são românticas, sonhadoras, querem se afastar da realidade, sentem-se entediadas com suas vidas, se deixam seduzir, se comportam como caça e presa, traem, se apaixonam e morrem.

Já no início de seu relato, Gustavo Flávio, ao falar sobre sua vida sentimental e sexual, cita, para Minolta, uma frase em francês dita por Gustave Flaubert. O conselho, presente na frase, é ironizado por Gustavo Flávio, que procura não segui-lo. Para o sentido da narrativa, essa é uma configuração que aponta para um aspecto importante na vida do narrador autodiegético: sua vida sexual. O narrador, em conversa com sua namorada Minolta, diz:

“Você me pergunta como posso ser tão prolífico gastando tanto tempo com as mulheres. Olha, nunca entendi Flaubert ao dizer ‘reserve ton priapisme pour Le style, foutre ton encrier, calmetoi sur la viande...une once de sperme perdue fatigue plus que trois litres de sang’26. Não fodo meu tinteiro, porém, em compensação, não tenho vida social, não atendo telefone, não respondo cartas, só revejo o meu texto uma vez, quando revejo. Simenon tem, ou tinha, tantas amantes quanto eu, talvez mais, e escreveu uma quantidade enorme de livros. Sim, é verdade, não gasto apenas tempo – e esperma, vá lá – com as mulheres, gasto também dinheiro, pois sou, como você, uma pessoa generosa. A necessidade de dinheiro, aliás, é uma grande incentivadora das artes (FONSECA, 1991, p. 7-8, grifos nossos).

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Reserve seu brilhantismo para o estilo, foda seu tinteiro, acalme sua carne...umas gotas de esperma causam mais fadiga que três litros de sangue.

Esse fragmento é revelador da importância que o aspecto sexual assume na caracterização psicológica do narrador Gustavo Flávio. A essa afirmação se soma outra que se encontra no primeiro parágrafo do romance e que também trata do aspecto sexual. Gustavo Flávio diz para Minolta:

“Você fez de mim um sátiro (e um glutão), por isso gostaria de permanecer agarrado às suas costas, como Bufo, e, como ele, poderia ter a minha perna carbonizada sem perder esta obsessão. Mas você, agora que está saciada, quer que eu volte a falar de Madame X. Muito bem, já chego lá. Mas antes quero lhe contar um sonho que tenho tido ultimamente” (FONSECA, 1991, p. 7).

O narrador enfatiza sua compulsão sexual ao se autodenominar sátiro e também ao comparar-se com o sapo Bufo Marinus – uma espécie reconhecida pela utilização de seu intenso impulso sexual como instinto de sobrevivência e preservação da espécie. É importante indicar também que Gustavo Flávio só passa a manifestar essa compulsão a partir da experiência que realiza ao ingerir o veneno dessa espécie. Há uma sugestão na trama de que as características desse animal, cujo simbolismo relaciona-se à ideia de transformação, magia e fertilidade, foram integradas à personalidade de Gustavo Flávio que, após essa experiência, passa por uma grande mudança em sua vida: muda de endereço, de identidade (adota um pseudônimo), muda de profissão (torna-se um escritor de sucesso), de status social e também de caracterização psicológica, tornando-se compulsivo sexual e alimentar.

O dinheiro e o sucesso lhe trouxeram autoconfiança e Gustavo Flávio torna-se um conquistador aos moldes do personagem “Don Juan”, e passa a ver a mulher como objeto de prazer ou, de acordo com suas palavras: “presa fácil” (FONSECA, 1991, p. 9). Esse comportamento de Gustavo Flávio aproxima-se muito do comportamento do personagem Rodolphe, personagem de Madame Bovary. Rodolphe é um fidalgo decadente que antevê através da figura de Emma – assim como Gustavo Flávio antevê através da figura de Delfina Delamare – momentos de satisfação e prazer sexual. Os fragmentos transcritos a seguir, referem-se ao momento em que os personagens masculinos conhecem aquelas que serão suas amantes. Os pensamentos de Rodolphe sobre Emma Bovary são mediados pelo discurso irônico do narrador através do discurso indireto e indireto livre, destacado em itálico:

“Ela é muito bonita!” – dizia ele para si mesmo. – É muito bonita, aquela mulher do médico! Belos dentes, olhos negros, pé bem-feito, graça de parisiense. De onde terá vindo? Onde será que ele a encontrou, aquele bobo?

M. Rodolphe Boulanger tinha 34 anos; era de temperamento brutal e inteligência viva, bom conhecedor das mulheres e muito experiente nesse terreno. Aquela lhe parecera bonita; pensava, pois, nela e em seu marido.

“Acho que ele é um toleirão. Sem dúvida, ela deve estar cansada dele. O homem tem unhas sujas e uma barba de três dias. Enquanto ele vai ver os doentes, ela fica a remendar meias. Deve ser aborrecido! Ela gostaria de morar na cidade, dançar polcas todas as noites! Coitadinha! Ela sonha com o amor, como o peixe sonha com a água numa mesa de cozinha. Com três meses de galantaria, adoraria qualquer um, tenho certeza! Seria ótimo...encantador! Sim, mas como livrar-se dela depois?”

E a antevisão do prazer em perspectiva, fizera-o, por contraste, pensar em sua amante. Era uma comediante de Ruão, que ele sustentava.

“Ah, M.me Bovary”, pensou ele, “é mais bonita do que ela e mais jovem também. Virginie, definitivamente, começa a engordar demais. Está ficando chatíssima com suas alegrias. E que mania de comer camarões!”

A campina estava deserta, e Rodolphe nada ouvia a seu redor senão o farfalhar ritmado das ervas que lhe batiam nos sapatos e o cri-cri dos grilos nas plantações de aveia. Revia Emma na sala, vestida como lhe aparecera, e a despia mentalmente.

– Oh! Eu a possuirei! – disse ele de repente, arrasando com a bengala um

montículo de terra à sua frente.

Passou a examinar a parte política do empreendimento.

– Onde nos encontraremos? De que modo? Haverá sempre o rapaz para ver, mais a empregada, o marido, os vizinhos, atrapalhações consideráveis. Ora bolas! Perde-se tanto tempo com isso!

Depois recomeçou:

– Mas é que ela tem olhos que enfeitiçam o coração. E a pele tão branca! E eu adoro as mulheres brancas!

No alto da encosta de Argueil, sua resolução estava tomada.

– Não será preciso esperar uma ocasião. Passarei por lá algumas vezes, mandarei presentes, animais caçados; tomarei sangrias, se for preciso; tornar-nos-emos amigos, convidá-los-ei para virem à minha propriedade...Ah, e daqui a pouco será época da feira, ela irá e eu a verei. Começarei a agir com astúcia; é mais seguro [...] FLAUBERT, 2011, p. 146- 147).

[...] Passaram-se seis semanas. Rodolphe não voltara. Uma noite, finalmente, apareceu.

“Não devo voltar imediatamente, seria um erro”, pensara ele.

E no fim da semana partira para a caça. Depois, achou que era tarde demais, porém raciocinou assim: se ela me amou desde o primeiro dia, deve

estar impaciente por ver-me, e por isso amar-me-á mais. Continuemos pois (FLAUBERT, 2011, p. 170, grifo e itálico nossos).

A fim de procedemos a uma atividade de comparação entre as duas narrativas, observemos a transcrição a seguir, extraída do romance B&S que corresponde à descrição que Gustavo Flávio faz para Minolta acerca da primeira vez que encontrou Delfina Delamare. Gustavo Flávio conta que,

Com Madame X não foi diferente do que aconteceu com as outras: apaixonei-me por ela no instante em que a vi, e isso não deixa de ser culpa

sua, já que foi você quem me despertou para o amor. Ela não era uma mulher opulenta, mas seu corpo tinha um grande esplendor: pernas, nádegas e seios eram perfeitos. Seu cabelo, naquele dia, estava preso num coque atrás da cabeça, deixando o rosto e o pescoço aparecerem em toda a sua brancura. Movia-se com elegância e magnetismo pelo salão em que eu, estarrecido, a contemplava. Era um vernissage e o pintor, dono da festa, paparicava-a de maneira servil [...]

“Ela sentou-se para assistir a uma exibição de slides, encostou as costas retas no espaldar da cadeira e cruzou as pernas deixando os joelhos aparecerem. Usava um vestido de seda e o tecido fino delineava a forma atraente de suas coxas. Tive vontade de me ajoelhar aos seus pés (ver M. Mendel) mas achei melhor uma abordagem convencional. Os slides eram todos de quadros de Chagall. ‘Você gosta de Chagall?, perguntei na primeira oportunidade. Ela respondeu que sim. ‘Essa gente toda voando’, eu disse e ela respondeu que Chagall era um artista que acreditava acima de tudo no amor. Na mão esquerda dela, no dedo anelar, havia um anel de brilhantes. Devia ter uns trinta anos de idade e uns cinco de casada, que é quando as mulheres começam a perceber que o casamento é uma coisa opressiva, doentia mesmo, iníqua e estiolante; além de privações sexuais que passam a sofrer, pois os maridos já se cansaram delas. Uma mulher dessas é presa fácil, o sonho romântico acabou, restou a desilusão, o tédio, a perturbação moral, a vulnerabilidade. Então aparece um libertino como eu e seduz a pobre mulher. Ali estava uma pessoa que acreditava no amor. ‘Que nul ne meure qu’il n’ait aimé’ (ver Saint-John Perse), eu disse. O francês pode ser uma língua morta, mas é linda e funciona muito bem com as burguesas. ‘Infelizmente o mundo não é como os poetas querem’, disse ela. Convidei-a para jantar, ela hesitou e acabou aceitando almoçar comigo. Era a primeira vez que ia a um restaurante com um homem que não fosse o marido (FONSECA, 1991, p. 8-9, grifo nosso).

Assim, vejamos a funcionalidade dessa relação para a composição do sentido do romance B&S. Observamos que tanto Rodolphe quanto Gustavo Flávio demonstram que têm elevada autoestima e muita confiança em ocupar o papel de conquistador, ambos observam com cuidado seu objeto de desejo, interpretam determinados características e comportamentos apresentados pelas personagens femininas e, a partir disso, elaboram “estratégias de ação” que também se aproximam. Tanto Rodolphe quanto Gustave observam que seus “objetos de desejo” estão entediadas, cansadas dos seus cotidianos, decepcionadas com o fim do

Benzer Belgeler