Sabe-se que muitas das formas utilizadas posteriormente na construção de templos ou moradias tiveram seus primeiros traços construídos em túmulos e faziam parte do culto aos mortos. Essas formas, que podem ser estudadas sob diferentes óticas, também estão relacionadas à arquitetura e, por assim ser, a forma do Templo de Jerusalém contou com diferentes influências e foi uma das obras de arquitetura de maior destaque em todo o mundo antigo. Como obras arquitetônicas, não há dúvidas de que:
Os edifícios constituem um testemunho do modo de vida e do estado moral da humanidade em cada uma de suas idades [...] (CHOISY, 1963, p.5).
Os edifícios, sejam estes identificados como templos ou não, possuem essa característica, pois é fato que, ao deparar-se com uma edificação, pode-se perguntar sobre a época em que foi construída, os materiais que foram utilizados e o estilo da arquitetura e, por assim ser, é possível retirar informações da cultura de determinada época bem como da ciência envolvida e utilizada. O Templo de Jerusalém é um exemplo, além de ter sido um arquétipo da casa de Iahvew, “o testemunho do modo de vida e estado moral” do povo judeu.
Os monumentos arquitetônicos revelam traços quanto ao modo de construção, à ciência empregada em determinada época, às características próprias da cultura, aos estados sucessivos da humanidade e fazem da história, juntamente com a Arte e Arquitetura uma parte importante da história das sociedades, de suas culturas e de seu conhecimento científico em determinada época.
Em particular, para o Templo de Jerusalém, nota-se o desenvolvimento da ciência do período, no tocante, principalmente, à arte da construção. Mesmo a sua posição geográfica [leste - oeste] pode ter sido pensada como um símbolo astronômico. Assim sendo, vários são os traços de conhecimentos empregados nessa construção, não somente da Matemática, mas da Astronomia, da Arquitetura e ou Engenharia, da Religião. Há de se lembrar que por trás de uma ciência construtora estava presente uma intenção religiosa.
Os elementos matemáticos se encontram adentrados em ticas de matema, que, empregadas e encontradas na descrição da construção do primeiro templo, vão além do seu estabelecimento físico por envolverem a crença de um povo, uma cultura que teve a religião como fator identidário.
Sendo assim, um estudo comparativo das construções do Templo de Jerusalém em uma tentativa de procurar evidenciar elementos matemáticos e, em particular, a geometria presente em sua arquitetura não pode deixar de atentar para a história do povo judeu, concomitante com um pouco da História das Religiões, Geometria Sagrada, além de estudos sobre a História da Arquitetura, dente outros. Segundo Eliade (1998):
[...] É sempre numa certa situação histórica que o sagrado se manifesta. Até as experiências místicas mais pessoais e mais transcendentes sofrem a influência do momento histórico. Os profetas judeus são os dispensadores dos acontecimentos históricos que justificaram e serviram de suporte à sua mensagem; são também os agentes da história israelita, que lhes permitiu formular certas experiências. (ELIADE, 1998, p.9)
A edificação do Templo de Jerusalém constituiu-se um ato sagrado para o povo judeu. Um estudo, tendo este “objeto” sagrado por referencial leva diretamente à história da primeira religião monoteísta do mundo, cuja história é encontrada em narrativas presentes em clássicas fontes que têm servido aos historiadores:
[...] eis, em suma, a documentação do que dispõe o historiador das religiões: alguns fragmentos de uma vasta literatura sacerdotal oral (criação exclusiva de certa classe social), algumas referências encontradas nas notas dos viajantes, os materiais recolhidos pelos missionários estrangeiros, as reflexões extraídas da literatura profana, alguns monumentos, algumas inscrições e as recordações conservadas nas tradições populares. Também as ciências históricas estão constrangidas a uma documentação deste gênero, fragmentária e contingente. (ELIADE, 1998, p.11).
Embora esta pesquisa não tenha o caráter de História das Religiões, trata-se, de certa forma, do estudo de um monumento que existiu e também de inscrições e recordações conservadas nas tradições populares, uma vez que o próprio texto bíblico
foi preservado nas diferentes tradições: judaica e cristã (católica e protestante). O remanescente do Templo representa um lugar de importantes peregrinações para judeus de todo o mundo permanecendo vivo no simbolismo presente no Judaísmo.
A construção do primeiro templo representou uma divisão entre a idéia e o ideal, uma vez que este se desdobrou em um espaço cultural, social e religioso para o povo judeu. Além disso, a edificação do Templo de Jerusalém marcou a sacralização do espaço e tornou possível encontrá-lo em referências de outras culturas, por exemplo, a islâmica. Esta característica da sacralização do espaço e do tempo é própria da cultura ocidental e o local onde fora construído o primeiro templo e as reconstruções que se seguiram deste pode ser tomado como um exemplo.
Assim sendo, ao voltarem-se os olhares para a narrativa da descrição do Templo de Jerusalém e tendo como apoio os estudos realizados sobre História da Arquitetura, Geometria Sagrada e Simbolismo Religioso, no próximo capítulo elencam-se os elementos matemáticos que foram identificados nos excertos pesquisados.
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[...] Três elementos fundamentais mantinham-nos unidos: a fé monoteísta, a sinagoga e o sábado. (Ambrogio Donini)
Neste capítulo retoma-se o intuito principal da pesquisa, em que, tendo como aporte as “lentes” da Etnomatemática, apresentam-se ao longo do texto elementos matemáticos inseridos nas ticas de matema presentes nas descrições do capítulo anterior, de forma a mostrar o quão diretamente ligados eles estão com o fator cultural.