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2.2.4 Justiça penal: punição dos responsáveis pelos abusos e violações de direitos humanos

Considerada como a quarta dimensão fundamental da justiça de transição, a punição dos responsáveis pelos abusos e violações de direitos humanos se traduz no dever atribuído aos Estados de investigar, processar e punir tais agentes

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Por exemplo, o relatório da organização não governamental Human Rights Watch - Força Letal: Violência Policial e Segurança Pública no Rio de Janeiro e em São Paulo, divulgado em dezembro de 2009. Disponível em: <http://www.hrw.org/sites/default/files/reports/brazil1209ptweb.pdf>

perpetradores, de modo a fortalecer a democracia e se evitar o surgimento de novos regimes autoritários – característica da não-repetição.

Essa obrigação de Estado tem sido apontada como uma medida indispensável para uma efetiva transição democrática.

É imprescindível ao desenvolvimento de uma democracia que ela possa confrontar-se com o seu passado de barbárie e repressão política, demarcando claramente a diferença entre guarda desse passado obscuro e sinalizando fortemente para uma nova direção, na qual o respeito aos direitos humanos e a manutenção das liberdades públicas seja pilares inegociáveis e inexpugnáveis57.

Visando a especificar o conteúdo dessa dimensão fundamental, autores colombianos58 afirmam que o direito das vítimas e da sociedade a ver efetivada a pretensão punitiva estatal “ius puniendi”, deve atender a cinco imperativos:

a) o dever de condenar os autores de delitos contra o direito internacional humanitário; b) o dever do Estado de investigar todos os assuntos relacionados com o tema da violação dos direitos humanos; c) o direito das vítimas a um recurso judicial efetivo; d) o dever de respeitar em todos os juízos as regras do devido processo legal, e) o dever de impor penas adequadas aos responsáveis.

Pela interpretação dessas diretrizes, observa-se a preocupação dos autores em conferir legitimidade ao procedimento jurisdicional aplicável às ações penais cujos fatos se relacionem com os abusos de direitos humanos. Essa advertência tem razão de existir, haja vista os julgamentos dos Tribunais de Nuremberg e de Tóquio, que foram alvo de diversas críticas, entre elas: a) o desrespeito das garantias dos acusados; e b) constituírem-se como Tribunais de Exceção. Além disso, outro ponto que merece destaque, refere-se à tendência contemporânea de enaltecer o direito internacional dos direitos humanos, muitas vezes relegado, pelos sistemas judiciários internos, a meras recomendações, e, portanto, inaplicáveis pela “ausência” de normatividade jurídica.

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SILVA FILHO, José Carlos Moreira. Memória e reconciliação nacional: o impasse da anistia na inacabada transição democrática brasileira. In. A Anistia na Era da Responsabilização: O Brasil em Perspectiva Internacional Comparada. Brasília: Ministério da Justiça, Comissão de Anistia; Oxford: Oxford University, Latin American Centre, 2011, p. 282.

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LOPÉZ DÍAZ, Claudia (Coord.); VARGAS, Álvaro; CARDONA, Juan Pablo; FAJARDO, Andrés, Et. Al. Manual de Procedimiento de Justicia y Paz. Bogotá: Milla, 2009. p. 37. Tradução livre de: “el deber de castigar a los autores de delitos contra el derecho internacional humanitario; el deber del Estado de investigar todos los asuntos relacionados con el tema de la violación de los derechos humanos; el derecho de las víctimas a un recurso judicial efectivo; el deber de respetar en todos los juicios las reglas del debido proceso, y el deber de imponer penas adecuadas a los responsables.”

Seguindo o estudo, Kathryn Sikkink59 afirma que os Estados têm se utilizado de três diferentes “modelos” de responsabilização: a) o modelo da imunidade ou impunidade – no qual ninguém é responsabilizado pelas violações de direitos humanos; b) o modelo da responsabilização do Estado - segundo o qual o Estado é condenado a indenizar e a reparar os danos sofridos; c) o modelo da responsabilização penal individual - no qual os indivíduos são regularmente processados e julgados, e, caso condenados, respondem por meio de penas privativas de liberdade.

Embora o modelo da impunidade seja, o mais comum, nos últimos quarenta anos tem ganhado fôlego iniciativas destinadas à busca da responsabilidade individual pelas violações de direitos humanos. Nesse sentido têm-se: a) a adoção, em 1975, pela Assembléia Geral da ONU da Declaração sobre a Proteção de Todas as Pessoas contra a Tortura e Outros Tratamentos ou Penas Cruéis, Desumanas ou Degradantes, que mais tarde culminou na aprovação pela Assembléia Geral da ONU da Convenção da Tortura, de 1984; b) Em 1973, a Assembléia Geral das Nações Unidas também aprovou o texto da Convenção Internacional da Punição e Supressão ao crime do Apartheid. A intenção imediata da convenção era provir à estrutura formal e legal para que os membros pudessem aplicar sanções para pressionar os governos Sul-africanos a mudar suas políticas; c) o Estabelecimento do Tribunal Penal Internacional para a antiga Iugoslávia por meio da resolução 827 do Conselho de Segurança das Nações Unidas (CSONU), de 25 de Maio de 1993, com o objetivo de dar uma resposta às vítimas dos crimes cometidos durante as Guerras iugoslavas que acarretou, entre outras coisas, a fragmentação territorial e política do Estado em virtude dos diversos crimes praticados e tipificados nas Convenções de Genebra de 1949 como: genocídio, crimes de guerra, e crimes contra a humanidade; d) a criação do Tribunal Penal Internacional para o Ruanda, através da Resolução 955 do CSONU, em 1994, para julgamento dos responsáveis pelo genocídio e outras violações de direitos humanos ocorridas no território nacional de Ruanda, praticadas por oficiais e cidadãos ruandenses entre 1º de janeiro e 31 de dezembro de 1994; e) a criação do Tribunal Penal Internacional, por

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SIKKINK, Kathryn. A Era da Responsabilização: a ascenção da responsabilidade penal individual. In. A Anistia na Era da Responsabilização: O Brasil em Perspectiva Internacional Comparada. Brasília: Ministério da Justiça, Comissão de Anistia; Oxford: Oxford University, Latin American Centre, 2011, p. 40.

meio do Estatuto de Roma, adotado em julho de 1988, com competência para julgar os crimes de guerra, contra a humanidade, genocídio, e o crime de agressão.

No que tange ao Brasil, não há registros de condenações de agentes perpetradores de violações de direitos humanos cometidas durante a ditadura. Pouco foi feito, principalmente até o final da década de 90, no sentido de se responsabilizar criminalmente os opressores do regime. Glenda Mezarroba60 narra às tentativas esparsas verificadas:

Em termos concretos, sabe-se apenas que em abril de 1980 um pedido de punição aos três torturadores que cegaram, em fevereiro de 1976, em um presídio de Aracaju, o então preso político Milton Coelho de Carvalho, tramitava no Superior Tribunal Militar (STM). Julgado improcedente pelo juiz auditor da VI Circunscrição Militar, o processo acabaria por se tornar o primeiro caso de aplicação da Lei da Anistia para impedir a punição de violadores de direitos humanos do período, embora a violência praticada contra Carvalho estivesse comprovada nos autos e fosse reconhecida até na sentença da auditoria militar e do próprio STM. Em 1992, outro processo foi iniciado, dessa vez por Luiz Antônio Guimarães Marrey, na ocasião, coordenador da 1ª Promotoria do Júri da cidade de São Paulo, a partir de representação encaminhada pelo Ministério Público pelo então deputado federal Hélio Bicudo (PT-SP). O promotor requisitou a instauração de inquérito para que fossem esclarecidos os fatos e apurada a responsabilidade do policial Pedro Antônio Mira Grancieri, também conhecido como capitão Ramiro, na morte do jornalista Vladimir Herzog, nas dependências do DOI-CODI, em 1975. Depois de algum tempo de tramitação, o inquérito foi encerrado, sob alegação de que “o delito pelo paciente praticado, ou provavelmente por ele praticado”, estaria “acobertado por causa extintiva de punibilidade”. A Procuradoria Geral de Justiça não aceitou o uso da Lei da Anistia, para justificar a decisão, e recorreu, mas o Superior Tribunal de Justiça julgou que o recurso não atendia a pré-requisito necessário para que o caso fosse analisado naquela Corte. Muito antes disso, em 1978, na sentença que proferiu ao caso Herzog, o juiz Márcio José de Moraes já havia responsabilizado o Estado pela prisão ilegal do jornalista e por não zelar por sua integridade física e moral, além de exigir – sem sucesso – que o Ministério Público apurasse as responsabilidades criminais dos envolvidos.

2.3 O Ministério Público Federal em São Paulo e os esforços empreendidos

Benzer Belgeler