1.4. Literatürde Enerji Yoksulluğu
1.4.1. Enerji Yoksulluğuna İlişkin Çeşitli Ülke Örnekleri
Ao longo deste trabalho procurei descrever o universo da rua e as possibilidades dela se constituir como um espaço legítimo para a produção de novas trajetórias, no qual as pessoas com trajetórias de rua apresentam-se apenas como atores deste fenômeno. Para falar das ruas foi preciso abandonar a noção de população de rua, embora haja esforços teóricos e políticos colossais para definí-la mais rigorosamente. Como vimos, a heterogeneidade não cessa de aparecer em praticamente todas as instâncias que compõem suas redes de socialidade. Um sistema classificatório de diferenças, operado entre os trecheiros e pardais, produz singularidades entre seus modos de deslocar-se pelo mundo, cujo movimento não se restringe ao deslocamento em si, mas produz uma inteligibilidade para as vidas errantes, previamente marginalizadas pelo descolamento com as esferas sedentárias. Na rede de acolhimento à população de rua, estes atores são igualmente reconhecidos em suas diferenças, fato que distingue o tipo de usuário que recorre ao CREAS e os planos de intervenções personalizados a serem desenvolvidos para seus projetos de ressocialização. A mesma diferenciação ocorre também no Albergue Noturno, onde as classificações são operadas como delimitadores dos serviços prestados, no qual os fixados na cidade podem usufruir do atendimento cotidianamente e os itinerantes são necessariamente encaminhados para uma rede intermunicipal de Albergues. Procurei descrever como a multiplicidade de atores opera em cada uma das instâncias de sociabilidade que formatam os circuitos de convivialidade nos espaços públicos e a rede de acolhimento na qual estão inseridos.
Recorri à noção de trajetórias de rua, um conceito aqui empregado na tentativa de não permanecer estanque às categorias de nomeação, uma vez que o que delimita as formas de nomeação dos atores são os movimentos produzidos, sendo legítimo o trânsito entre um tipo de movimento e o outro. Para dar conta das transformações recorrentes em seus itinerários, o ponto de tensão onde se localizam as possibilidades de mutações, notamos que a fluidez deste modo de habitar as ruas é o principal elemento que o define. Os princípios identitários revelam a intensidade do movimento, o ponto máximo e mínimo da mobilidade. Contudo, este jogo de diferenciações busca dar conta de uma singularidade, através da qual são eleitos elementos esparsos que os atores desejam manipular, enfatizar ou encobrir. Assim, a noção de trajetória procura dar conta tanto dos movimentos de seus itinerários quanto das formas de singularização operadas nas trajetórias de rua. A opção por utilizá-la provém, inclusive, da necessidade de caracterizar a rua como um espaço de múltiplos atores que nela se encontram por estarem desvinculados dos núcleos familiares e comunitários.
Embora não tenha me detido nos pontos de ruptura familiar realizada por aqueles que iniciam uma trajetória de rua, já que estes estariam presentes nas histórias de vidas que são ocultadas como um mecanismo para preservar seus anonimatos, no decorrer do texto procurei apresentar algumas reflexões que serviriam como base para se pensar o desvinculamento com as esferas familiares e comunitárias. Procurei ater-me aos discursos sobre as vinculações produzidas na rua, através dos quais poderiam ser pensadas como delineações sutis do processo de rupturas que precederam suas trajetórias de rua. Neste ponto, as brigas familiares aparecem como um elemento importante dentre outros dispostos num cenário social onde fatores econômicos, políticos e biográficos compõem um mosaico de tensões. Notamos que a família aparece como a primeira instituição a ser rompida, a mais elementar delas, cujo objetivo é deixar para trás uma vida marcada pela moral produzida e cobrada na esfera privada. Recorrendo aos argumentos aqui apresentados, as trajetórias de rua indicam a rua como um espaço possível para se desenvolver práticas (e produzir novas trajetórias) que já foram interditadas no espaço privado, como procurei demonstrar na descrição da rua como um emaranhado de percursos a serem percorridos: percursos do anonimato, ócio, vício, loucura, ilegalidade, ilícito. Sem perder de vista que são percursos marginais (e marginalizados), a fluidez e mutação inerente aos movimentos das trajetórias demonstram como a experiência de marginalização produz um deslocamento por uma zona de afrouxamento dos controles sociais (PERLONGHER 1987), onde há a possibilidade de deslocarem-se entre a norma e o desvio, retomar os laços familiares quando assim é desejado, entrar ou escapar da malha institucional, viver no trecho ou se fixar em um deles.
No processo de criação de vínculos com a rua, as bancas servem como exemplos especialmente importantes para notar como tal processo ganha forma. Sua coletividade espontânea permite que novos membros sejam sempre vinculados à banca e desvinculados dela quando não atendem às instruções de comportamento que são sempre revistas entre eles. Seguidas da regulação dos comportamentos, previsto no respeito, as entradas nas bancas ocorrem de forma incontrolada, sempre quando um sujeito está em busca de sociabilidades específicas, por isso, as bancas são como zonas de interconexão de atores, onde suas trajetórias são cruzadas no espaço público. Notamos que a rua aparece nos discursos destas trajetórias carregadas de significações que conferem inteligibilidade para as derivas marginais. Ao falar das trajetórias de rua, a própria rua ganha novas delineações, antes retratada como um espaço amorfo (o local dos caídos), na etnografia aqui apresentada é descrita segundo as percepções das pessoas com
trajetórias de rua, sendo este um espaço altamente organizado no qual novos territórios são possíveis de serem construídos.
Na rua se moldam percursos aparatados das esferas da cidadania, fato que é desejado para algumas trajetórias; contudo, suas posições marginalizadas, tomando como referência a noção de cidadania, colocam em funcionamento outros mecanismos de proteção de suas vidas, acentuando certos traços de violência e impunidade presentes neste universo. O
conhecimento da rua caracteriza com mais precisão estes mecanismos que lhes servem de
preservação à vida, diante de tantas contenções a que são alvos. Em estreita relação com as táticas de cuidado de si, o conhecimento da rua demonstra como devem safar-se destas violações, por isso revelam as práticas de vigilâncias para si, o cuidado com o corpo, o mapeamento da rede assistencial, as táticas de mangueio. Embora muitas das contenções que sofram sejam provocadas pelas posições marginais que lhes são conferidas, outras ainda ocorrem dentro de suas redes de sociabilidade, como são os casos das brigas de rua, cujos acertos de contas estão restritos apenas aos envolvidos no conflito. É cada um por si. Não é a toa que uma das táticas de vigilâncias para si é “ser esperto” e evitar brigas, justamente por que as brigas começam na rua e nela terminam.
Como os mecanismos de proteção de si acionados na rua são táticas para driblar os imperativos com que se deparam, nos espaços institucionais outros mecanismos de proteção são encontrados, justificando suas entradas e, inclusive, paradas pela rede assistencial. O CREAS pode ser entendido como um espaço de resguardo àquele que deseja controlar o uso da pinga ou das drogas. Pode ser também um espaço tranquilo para seu descanso ou para uma boa refeição. Além disso, em qualquer caso de complicação médica, o CREAS encaminha seus usuários para a rede de saúde. Embora nestes exemplos observamos uma rede de apoio encontrada na instituição, a entrada institucional das pessoas com trajetórias de rua quase sempre é feita como uma tática a favor da perpetuação de suas trajetórias de rua, isto significa dizer que não compactuam da mesma visão que a equipe profissional possui sobre as expectativas do serviço. Neste ponto, a noção de comprometimento enriquece a análise de modo particular. Se para os profissionais do CREAS o comprometimento é uma noção pela qual é possível pensar o vínculo institucional produzido e o modo pelo qual cada usuário engaja-se na construção de sua autonomia, visando a desvinculação institucional, para os usuários, no comprometimento podem ser calculados os esforços pessoais para atender aquilo que se espera deles, no entanto não diz respeito ao
engajamento para seus projetos de ressocialização, operando, ao contrário, como cálculos para justificar a permanência no serviço.
A dependência institucional é apontada pelos profissionais da instituição como o maior problema de gestão com que se deparam. Como um efeito perverso do dispositivo de acolhimento, a dependência sugere, nesta nossa análise, que a relação entre instituição e usuários é de natureza mista, um só se completa com o outro. Por um lado esta dependência demonstra como as pessoas com trajetórias de rua acessam os mínimos sociais, por isso suas entradas são marcadas por uma imersão em instâncias de cidadania, das quais estão apartados nas ruas. Num outro sentido, a institucionalização dos usuários, notada na dificuldade de se desligarem dos serviços, sugere que todos os esforços para se criar o vínculo institucional é um efeito perverso do dispositivo uma vez que quando inseridos na rede querem desfrutar desta captura, em proveito de suas trajetórias de rua. Contudo, nem sempre o trânsito por estas instâncias é desejado por eles, e por isso, as entradas e escapas institucionais são tão recorrentes nas trajetórias de rua.
Pensando nas táticas de preservação da vida presentes nas trajetórias de rua, a rede de acolhimento permitiu novas formas de viver nas ruas. Por isso, um traço marcante nas trajetórias são suas passagens pela rede assistencial. São consideradas novas formas de vida justamente porque a institucionalização, aqui pontuada como o grau de dependência das instituições, ocorre à medida que a rede de acolhimento se amplia, e estes mesmos mecanismos de acolhida são incorporados em suas táticas de cuidado de si, embora muitas trajetórias ainda prefiram manter-se afastadas das redes institucionais. As mudanças nas trajetórias são recorrentes, e, portanto, uma trajetória institucionalizada pode tomar outros rumos, cair no trecho, retomar os laços familiares, voltar ao mercado de trabalho, enfim, são inúmeras as possibilidades, sempre avaliadas pontualmente. As trajetórias institucionalizadas não perdem seus movimentos; como vimos, frequentando os espaços institucionais não são desfeitos os vínculos criados nas
bancas, não se abandona a prática do mangueio, não se deixa os mocós.
Especificamente na questão do desligamento institucional, ponto em que mais se gera polêmica tanto para a equipe do CREAS quanto para os usuários, nota-se que o trabalho não é a questão central sobre a qual suas trajetórias irão se sustentar. Muitos já conseguiram trabalhos e os deixaram facilmente. Assim como muitos já tiveram oportunidade de conseguir uma moradia, mas a recusaram. Estes fatos são recorrentes. O que permanece na questão de suas
ressocializações é justamente a dificuldade de manterem-se em uma relação estável com a família ou trabalho. Tal estabilidade aparece como contraponto das identidades produzidas nas trajetórias de rua, cuja estagnação territorial é vista de modo negativo, como procurei descrever na diferenciação entre os trecheiros e os pardais, mas também pode ser percebida entre os
acomodados no CREAS. A fixação é sempre estigmatizado nas trajetórias de rua. Parar em certo
ponto significa deixar de produzir vida, já que o movimento reflete a busca por novas possibilidades. O movimento é também característico das tentativas de escapar dos destinos estigmatizados reservados às vidas errantes, reduzindo-as a uma categoria fixa marginalizada. Assim, os movimentos são sempre tentativas de buscar (e produzir) novas formas de estar no mundo.